No imaginário coletivo, a diabetes pode parecer uma
doença restrita a quem tem histórico familiar ou um quadro muito específico.
Não é bem assim. E as pessoas estão manifestando a doença cada vez mais cedo.
Endocrinologistas mapeiam a condição e dão o caminho para captar um eventual
diagnóstico precoce
Em
14 de novembro, celebra-se o dia mundial do combate ao diabetes, uma doença que
deve impactar 1,5 bilhão de pessoas até 2050, segundo a revista científica
Lancet. Quem não tem diabéticos na família pode até pensar que está livre de
adquirir a doença, mas fatores como hábitos alimentares não saudáveis,
sedentarismo, excesso de peso e um dia a dia estressante têm gerado
diagnósticos cada vez mais cedo - até mesmo em crianças.
A
Dra. Isis Toledo, Endocrinologista e Metabologista pela Sociedade Brasileira de
Endocrinologia e Metabologia (SBEM), lembra, por exemplo, que a American
Diabetes Association (ADA) recomenda que as pessoas comecem o rastreio do
diabetes aos 35 anos. "Principalmente quem está com excesso de peso e tem
fatores de risco adicionais", complementa a médica.
No
geral, segundo ela, o diabetes tipo 1, a versão autoimune da doença, pode ter
início em qualquer idade, mas geralmente se manifesta durante a infância ou
adolescência. O diabetes tipo 2, mais comum, pode se desenvolver em qualquer
idade, com maior incidência em pessoas com mais de 40 anos. "O DM2 está
frequentemente associado à obesidade e ao envelhecimento", informa a
médica.
Diagnóstico: quanto antes, melhor
Na
intenção de rastrear um possível início de diabetes, a Dra. Isis indica que as
pessoas não hesitem em fazer testes, caso observem sintomas parecidos com os
iniciais do diabetes. "Esses sintomas nem sempre são fáceis de perceber e
podem se desenvolver tão lentamente, que a pessoa pode ter diabetes tipo 2
durante anos, antes de ser diagnosticada", alerta.
O
quadro a ser observado, segundo a Dra. Isis, envolve:
- Sede excessiva
- Urinar com frequência elevada
- Cansaço maior que o normal
- Visão embaçada
- Perda de peso involuntária
"O
reconhecimento de possíveis sintomas do diabetes pode levar ao diagnóstico e
tratamento precoces. Isso pode ajudar a prevenir complicações e levar a uma
melhor condição de saúde", diz a médica.
A
visão da Dra. Thais Mussi, também endocrinologista e metabologista pela SBEM,
corrobora com a detecção precoce, comentada pela Dra. Isis. "O primeiro
motivo de estarmos atentos a esse diagnóstico é poder dar início ao
acompanhamento e tratamento o quanto antes, já que se trata de uma doença de
alta morbidade e mortalidade", alarma a médica.
Com
o diagnóstico precoce, ela entende que se previnem complicações futuras
envolvendo problemas de visão, doenças renais, efeitos nos nervos periféricos -
o que acarreta os chamados "pés diabéticos"- e até cetoacidose diabética.
"Este último é mais comum no diabetes tipo 1. É um processo bastante
complexo, mas, resumidamente, é uma espécie de acidez anormal no sangue, que
causa vômitos, náuseas, dor no abdômen e até uma modificação no hálito",
informa a Dra. Thais.
Métodos de detecção do diabetes
"Quando
falamos em diagnóstico (e mesmo durante o tratamento), nenhum exame é tão
importante quanto o de glicemia em jejum, que é um exame laboratorial, de
sangue, simples de fazer", afirma a Dra. Thais.
Para
confirmar o diagnóstico, ela cita como comuns também o exame de hemoglobina
glicada e o teste de tolerância à glicose. "Mas o mais importante é
entender que o diabetes pode ser rapidamente identificado se a pessoa fizer um
acompanhamento médico rotineiro, repetindo os exames sempre que solicitado por
seu médico", orienta a profissional.
A
Dra. Thais detalha que, em pacientes que não apresentam sintomas há um processo
a ser seguido. "É recomendado utilizar como critério de diagnóstico
glicemia plasmática de jejum maior ou igual a 126 mg/dl, a glicemia duas horas
após uma sobrecarga de 75 g de glicose igual ou superior a 200 mg/dl ou a HbA1c
maior ou igual a 6,5%. É necessário que dois exames estejam alterados. Se
somente um exame estiver alterado, ele deverá ser repetido para
confirmação", explica a endocrinologista.
Os sintomas e suas razões
A
seguir, a Dra. Isis aprofunda a característica e as razões que desencadeiam
certos sintomas do diabetes:
Maior sede e mais micção -
Nas pessoas que têm diabetes, o açúcar extra se acumula no sangue, forçando os
rins a trabalharem horas a mais para filtrar e absorver o excesso de açúcar.
Quando os rins não conseguem acompanhar, o açúcar extra vai para a urina e leva
consigo fluidos dos tecidos do corpo. Isso causa desidratação, gerando mais
sede, que leva a mais micção.
Fadiga - O nível elevado
de açúcar no sangue perturba a capacidade do corpo de usar o açúcar como
energia.
Perda de peso - O açúcar
perdido no excesso de urina também leva à perda de calorias. Junto com a
desidratação, isso pode causar rápida perda de peso. Isso é especialmente
verdadeiro em pessoas que têm diabetes tipo 1, mas também pode acontecer em
algumas pessoas com tipo 2.
Visão embaçada - Altos
níveis de açúcar no sangue retiram fluido dos tecidos do corpo, incluindo o
cristalino dos olhos. Isso afeta a capacidade de foco dos olhos.
Feridas de cicatrização lenta ou infecções frequentes - Níveis elevados de açúcar no sangue podem causar
fluxo sanguíneo deficiente e prejudicar o processo natural de cura do corpo.
Por isso, as pessoas com diabetes podem notar feridas de cicatrização lenta,
especialmente nos pés. Em mulheres com diabetes, infecções fúngicas na bexiga e
vaginais podem ocorrer com mais frequência.
Formigamento e dormência nas mãos e pés - Embora sejam menos comuns, ocorrem porque muito
açúcar no sangue pode afetar o funcionamento dos nervos.
Remissão é uma possibilidade no tipo 2
O
diabetes é uma doença crônica e, portanto, incurável. Mas, em alguns casos, sua
remissão é uma possibilidade, segundo a Dra. Thais. "A remissão é quando a
doença está silenciada. Ou seja, o paciente, mesmo sem tomar os medicamentos,
não tem sinal, sintoma ou alteração laboratorial que indique o desenvolvimento
da doença", explica ela. A remissão, contudo, não representa cura, já que
na retomada de hábitos que "acordam" a doença, o paciente voltará a
apresentar o diabetes.
Para
atingir o estágio de remissão, o ideal, segundo a Dra. Thais, é que o paciente
foque em perder peso de forma saudável, nutrindo bons hábitos, como alimentação
balanceada e prática de exercícios físicos. "Alguns estudos recentes
apontam que, em pacientes com menos de 6 anos de doença, dietas de baixa calorias
por três meses, acompanhadas de uma reintrodução calórica progressiva e uma
fase de acompanhamento de manutenção de peso perdido, podem fazer o paciente
atingir o estágio de remissão sem a necessidade de medicamentos",
exemplifica a especialista, a reforçar que qualquer medida de cuidado deve ser
orientada por médicos especialistas.
A
notícia é boa, mas engloba apenas pacientes com diabetes tipo 2, já que no tipo
1, como explica Dra. Thais, "o corpo trabalha contra si próprio, atacando
as células beta, tornando impossível chegar à remissão". Ela conta que
existem estudos com células-tronco em andamento, mas ainda estão em fase
inicial.
DRA. ISIS TOLEDO - ENDOCRINOLOGISTA E METABOLOGISTA CRMSC 22334. RQE 17867 RQE 17538 Registro pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Especialização em Nutrologia Especialização em Pós-Graduação Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia, ABRAN, Brasil. Especialização em Endocrinologia Curso de endocrinologia com o tema "Current Trends in Endocrinology" na Universidade de Harvard, Estados Unidos. Especialização em Saúde Curso de saúde com o tema "Prescripción de Ejercicio en la Enfermedad" na Universidad Complutense de Madrid, Espanha. Graduação em Medicina Graduação de Medicina realizada na Universidade Federal de Juiz de Fora, UFJF, Brasil. Congresso Obesity Week - 01 a 04 de novembro de 2022 - San Diego, California (EUA). Congresso ADA 2022 - American Diabetes Association - 03 a 07 de junho de 2022 - New Orleans, Louisiana (EUA). 2019-Curso de Endocrinologia pelo Programa de Atualização em Endocrinologia e Metabologia (PROENDÓCRINO) ciclo 11.
DRA. THAIS MUSSI - Crm 27542-PR 118942-SP RQE 373. Formada em medicina para Universidade do Vale do Itajaí (Univali); Residência em clínica médica pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo; Residência em endocrinologia e metabologia pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo; Membro titulado da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e Membro do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida (CBMEV); Pós-graduação em Nutróloga pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN); Médica integrante da C.A.S.A Sophie Deram- centro de aconselhamento em saúde alimentar Especializacao em Mindfull Eating.