Desde cedo, somos ensinados a obedecer a uma lógica binária: bem ou mal, certo ou errado, herói ou vilão. Essa obediência cultural nos condiciona a escolher rapidamente, sem espaço para pausa ou reflexão. Vemos esse cenário repetidamente nas redes sociais. As pessoas se posicionam a favor de uma versão da história que está viralizada, sem se atentar ao outro lado envolvido. E, em um instante, há uma legião decretando sentenças.
Mas,
o que acontece quando um caso nos obriga a parar, escutar com profundidade e,
por mais impensável que pareça, sentir empatia por alguém que deveria provocar
apenas repulsa?
No
livro Apenas Uma Sessão,
compartilho relatos reais que surgiram durante um único encontro de terapia em
grupo. Entre eles, está o de uma jovem colombiana de 12 anos, que descobre,
pela televisão, que o maior assassino em série da década no Reino Unido seria
libertado. Movida pela indignação, resolve escrever-lhe, determinada a
expressar todo o desprezo que sentia. Para sua surpresa, a resposta não apenas
veio, como deu início a uma troca de mensagens capaz de transformar sua
percepção, e também a nossa.
O
homem, Monroe Cameron, havia sido dependente químico por anos. Em recuperação,
conheceu uma mulher que acreditou em sua mudança. Casaram-se e, pouco depois,
nasceu o filho que se tornaria sua maior razão de viver. Mas, aos cinco anos, a
criança faleceu, vítima de uma doença rara. Tomado por uma dor insuportável,
Cameron viveu um surto. No cemitério, alucinado pelo luto, teve a visão do
filho lhe dizendo que, se ele tirasse a vida de cinco crianças, poderia tê-lo
de volta. E assim, perdeu-se por completo.
Não
se trata de buscar justificativas, tampouco de suavizar a gravidade dos atos. A
proposta é outra: compreender até onde a dor é capaz de levar alguém. A lógica
do outro pode parecer absurda, e muitas vezes realmente é, mas ainda assim
somos tocados por uma empatia inesperada. Porque matar é inaceitável, até que
surge uma história tão brutal e humana que desafia as fronteiras do nosso
julgamento. É o caso, por exemplo, dos Irmãos Menendez, cuja história hoje é
vista de uma nova perspectiva.
Esses
relatos nos lembram o quanto somos influenciáveis, e como, quase sem perceber,
somos levados a escolher lados o tempo todo. Mas e se, por um instante, não
escolhêssemos? E se apenas escutássemos?
Quebrar
o ciclo do julgamento automático talvez seja um dos maiores desafios do nosso
tempo. Mas é nesse esforço, no ato corajoso de escutar sem pressa, sem filtro e
sem sentença, que reside a possibilidade de enxergarmos o outro em sua
inteireza. Entender o outro não é renunciar à justiça, e sim ampliá-la para
além da punição: é fazer dela também um espaço de humanidade.
Paola
Ferreira Mendoza - escritora de ficção, jornalista e autora de Apenas Uma Sessão
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