Especialista
alerta para os impactos de viver em constante dissimulação — e os caminhos para
retomar a autenticidade
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O que acontece quando a mentira deixa de ser uma
escapatória pontual e passa a reger a vida de alguém? Essas questões, que
atravessam tanto a psicologia quanto a ética, ganham destaque no livro de Carlos
Eduardo Simões, “As mentiras que contam para você – O poder da autoilusão”,
publicado pela Literare Books International. A obra parte de um ponto sensível,
porém universal: a capacidade que temos de aceitar inverdades – contadas por
outros ou, pior ainda, por nós mesmos – como verdades absolutas.
Segundo o autor, “muitas vezes, não é a mentira do
outro que mais nos machuca, mas a que repetimos internamente até se tornar um
muro invisível que nos impede de avançar”.
O livro é um convite à reflexão. Baseado em
pesquisas, estudos e vivências pessoais, Carlos Eduardo mostra como essas
falsas verdades moldam decisões, travam carreiras e minam relações. A mentira,
nesse contexto, é mais do que um simples desvio ético – ela pode ser um
mecanismo inconsciente de proteção, uma autoilusão.
Mas há um limite. E quando ele é ultrapassado,
entramos em outro território: o da compulsão, da falsidade ideológica, da
mitomania – nome clínico dado ao comportamento compulsivo de mentir. Nesses
casos, a mentira passa a ser utilizada como instrumento de manipulação social,
e os danos extrapolam o universo do indivíduo.
Mentir pode virar doença?
A psicologia define a mitomania como uma condição
em que a pessoa mente com frequência e sem necessidade aparente. Ao contrário
da mentira “comum”, que geralmente tem um objetivo claro (evitar punições,
agradar, conseguir vantagem), o mitômano constrói realidades paralelas, muitas
vezes acreditando nas próprias narrativas.
Esse descolamento da realidade pode trazer sérias
consequências – tanto emocionais quanto sociais – e, em casos extremos,
envolver até crimes.
Um teatro de 40 anos
Exemplo emblemático dessa fronteira entre mentira e
delírio socialmente estruturado é o do juiz aposentado José Eduardo Franco dos
Reis, revelado recentemente. Por mais de quatro décadas, ele viveu sob a
identidade fictícia de Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham
Wickfield, alegando ser descendente de nobres britânicos.
Com essa falsa identidade, ele ingressou na USP,
foi aprovado em concurso público e atuou como juiz no Tribunal de Justiça de
São Paulo. Tudo começou com um RG falso em 1980 e só veio à tona em 2024,
quando tentou tirar segunda via do documento.
A farsa caiu após análise das impressões digitais,
revelando que os dois registros – o verdadeiro e o fictício – pertenciam à
mesma pessoa. Investigações confirmaram que não há nenhum registro do nome
britânico em sistemas oficiais do Reino Unido.
Carlos Eduardo comenta: “O mais impressionante nesses casos não é apenas a construção da mentira, mas o quanto o sistema – social, institucional, emocional – pode se adaptar à farsa. A mentira sustentada por anos deixa de ser apenas uma invenção: ela se institucionaliza.”
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| Divulgação Literare Books International |
Entre a autoilusão e a fraude
O livro de Carlos Eduardo Simões não fala de
fraudes judiciais ou escândalos criminais, mas nos ajuda a entender como
pequenas distorções da realidade – muitas vezes inocentes ou bem-intencionadas
– podem virar verdadeiros sistemas internos de autossabotagem. E, em escala maior,
podem se transformar em mentiras com impacto coletivo.
“Mentimos por medo, por vergonha, por querer
aceitação. Mas também mentimos porque não fomos ensinados a lidar com a verdade
de forma madura”, afirma o autor.
No fim, a obra nos convida a um exercício difícil,
porém libertador: rever a história que contamos para nós mesmos e identificar
quais dessas narrativas são apenas véus sobre a realidade.
Afinal, como Carlos Eduardo resume, “enxergar a
verdade pode doer. Mas viver uma mentira dói mais – e por muito mais tempo”.

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