As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres no mundo, mas continuam sendo subdiagnosticadas e subtratadas
Hoje, dia 14 de maio, o Dia da Atenção à Saúde
Cardiovascular da Mulher chama a atenção da sociedade para refletir sobre um
tema alarmante: embora as doenças cardiovasculares sejam a principal causa de
morte entre as mulheres globalmente, responsáveis por 35% dos óbitos femininos
em 2019, elas ainda são frequentemente negligenciadas nos cuidados de saúde1.
Essa negligência se manifesta de forma concreta: as
mulheres, muitas vezes, chegam aos hospitais em estágios mais graves da doença,
após ignorarem sintomas ou enfrentarem diagnósticos equivocados[1].
Isso acontece porque os sinais de infarto nelas costumam ser diferentes dos
observados nos homens. Em vez da dor clássica no peito, as pacientes podem
apresentar cansaço extremo, náusea, dor nas costas, no pescoço ou falta de ar[2].
Esses sintomas, por serem considerados atípicos para doenças do coração, são
frequentemente atribuídos a causas como estresse ou ansiedade, o que atrasa o
diagnóstico e o tratamento adequado3. A consequência é uma jornada de cuidado
marcada por falhas desde o início.
Algumas condições cardiovasculares são
particularmente prevalentes entre as mulheres, como o infarto sem obstrução
significativa das artérias coronárias (Minoca), a dissecção espontânea da
artéria coronária e a síndrome de Takotsubo (conhecida como “síndrome do
coração partido”). Mesmo assim, essas condições ainda são pouco reconhecidas
nos protocolos médicos tradicionais, contribuindo para o subdiagnóstico e o
subtratamento das mulheres3.
O problema, no entanto, vai além da porta de
entrada dos serviços de saúde. As desigualdades também estão presentes na
ciência. Apenas 27% dos participantes de ensaios clínicos cardiovasculares
financiados pelo National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI) entre 1997 e
2006 eram mulheres[3], e esse é o órgão norte-americano responsável
por fomentar pesquisas sobre doenças cardíacas, pulmonares e do sangue. Essa
sub-representação limita o conhecimento sobre a eficácia e segurança dos
tratamentos nesse público, impactando diretamente nas escolhas terapêuticas e
nos resultados clínicos4.
Essas lacunas estão bem documentadas por estudos
recentes, como o relatório da The Lancet Commission e o posicionamento da
European Society of Cardiology (ESC). As evidências mostram que muitas
condições presentes nas vidas das mulheres podem ser fator de risco para o
coração: menopausa precoce, diabetes gestacional, hipertensão na gravidez,
parto prematuro, síndrome dos ovários policísticos e até fatores psicossociais
como violência doméstica e pobreza1,3.
Diante desse cenário, a ESC defende uma abordagem
coordenada: ações como a coleta de dados em tempo real, a inclusão de mulheres
nos estudos clínicos, a capacitação dos profissionais de saúde para reconhecer
os sintomas específicos e o desenvolvimento de campanhas educativas voltadas ao
público feminino são urgentes3.
No Brasil, esse entendimento já começa a se
refletir em iniciativas locais. Segundo um documento publicado pela Sociedade
Brasileira de Cardiologia (SBC), é essencial adaptar os protocolos de
atendimento à realidade feminina[4]. Quando avaliadas por ferramentas
construídas a partir de padrões masculinos, muitas mulheres acabam não
recebendo o diagnóstico ou o tratamento adequado5.
O cuidado contínuo com a saúde deve começar desde a
prevenção. O colesterol ruim (LDL) é um tipo de gordura que se acumula
silenciosamente nas artérias, contribuindo para o desenvolvimento da
aterosclerose, uma condição que progride de forma lenta e assintomática ao
longo dos anos, até que se manifestem eventos graves, como o infarto agudo do
miocárdio[5]. Em indivíduos com alto risco
cardiovascular, ou seja, aqueles em prevenção secundária, o objetivo é manter a
meta de colesterol ruim (LDL) abaixo de 50 mg/dL, tanto em homens quanto em
mulheres[6].
“Precisamos acabar com a ideia de que doença
cardíaca é coisa de homem. As mulheres têm riscos específicos, sintomas
diferentes e, muitas vezes, são diagnosticadas tardiamente. No Dia da Atenção à
Saúde Cardiovascular da Mulher, nosso chamado é claro: é hora de ouvir o
coração feminino com mais atenção, da prevenção ao tratamento. A ciência já
mostrou o caminho, agora precisamos garantir que ele seja seguido por todos os
profissionais de saúde e por políticas públicas eficazes”, afirma a Dra. Maria
Cristina de Oliveira Izar, presidente da SOCESP e diretora científica do
Departamento de Cardiologia da Mulher da SBC.[7].
Neste 14 de maio, é importante reforçar o
compromisso com a saúde cardiovascular da mulher em toda a sua complexidade, da
prevenção ao tratamento de condições cardiovasculares. “Apoiar a ciência,
promover a equidade no diagnóstico e ampliar o acesso a terapias baseadas em
evidências são passos essenciais para mudar essa realidade. Porque cuidar do
coração feminino é também investir em um futuro mais justo, saudável e
informado para todas”, reforça a cardiologista.
Referências
[1] MARTINEZ-NADAL, G. Heart attack diagnosis missed in women more often than in men. Apresentação no ESC Acute CardioVascular Care Congress, março 2021.
[2] EUROPEAN SOCIETY OF CARDIOLOGY. Closing the gaps in the cardiovascular care of women: ESC Statement on The Lancet Commission. 2021. Disponível em: https://www.escardio.org. Acesso em: 8 maio 2025.
[3] STRAMBA-BADIALE, M. Women and research on cardiovascular diseases in Europe: a report from the European Heart Health Strategy (EuroHeart) project. European Heart Journal, v. 31, n. 14, p. 1677–1680, 2010.
[4] SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Doença isquêmica do coração: a mulher no centro do cuidado. Departamento de Cardiopatias da Mulher, 2023. Disponível em: https://www.portal.cardiol.br. Acesso em: 8 maio 2025.
[5] FERENCE, B. A. et al. Low-density lipoproteins cause atherosclerotic cardiovascular disease. Eur Heart J. 2017;38(32):2459–2472.
[6] PRÉCOMA, D. B. et al. Diretriz de prevenção cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;113(4):787-891.
[7] Dra. Maria Cristina de Oliveira Izar, MD, PhD. CRM 43024-SP. Professora Adjunta Livre Docente, Setor de Lípides, Aterosclerose e Biologia Vascular, Disciplina de Cardiologia, Universidade Federal de São Paulo. Diretora Científica do Departamento de Cardiologia da Mulher biênio 2024-2025. Presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo biênio 2024-2025. Member at Large of the International Atherosclerosis Society Board of Directors 2025-2027.
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