Em um país onde 84 mil casos foram registrados em
um único ano, estima-se que esse número represente só 9% da realidade.
Especialista reforça: educação sexual infantil salva vidas e não tem nada a ver
com erotização
A violência sexual contra crianças e adolescentes é um problema grave e
subnotificado. Só em 2023, o Brasil registrou mais de 84 mil casos de estupro e
estupro de vulnerável, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, um
número assustador que, de acordo com especialistas, representa apenas 9% da
realidade.
Neste
Maio Laranja, mês de conscientização e combate à violência sexual infantil, a
pedagoga Mariana Ruske, idealizadora da Senses Montessori School, reforça a
importância da educação sexual infantil como ferramenta de proteção: “Educação
sexual não erotiza. Ao contrário, fortalece as crianças, ensina sobre os
próprios limites e ajuda a identificar situações abusivas”, afirma.
O
abuso sexual na infância pode atingir qualquer criança, independentemente da
classe social ou do ambiente em que vive. A maioria dos casos acontece dentro
da própria casa e, em cerca de 80% das vezes, o agressor é um familiar ou uma
pessoa próxima da confiança da família. “É um crime silencioso, muitas vezes
cometido por quem a criança chama de tio, padrinho ou vizinho”, alerta Mariana.
“O abusador geralmente se apresenta como alguém gentil e confiável — é o
chamado grooming, ou aliciamento.”
Sinais de alerta
Nem
sempre a criança consegue verbalizar o que está acontecendo. Por isso, é
fundamental que pais e cuidadores estejam atentos a mudanças comportamentais
repentinas, como:
- Choro frequente sem explicação aparente;
- Medo de pessoas específicas ou de situações que antes eram neutras;
- Regresso de comportamentos (como voltar a urinar na cama);
- Alterações no sono, apetite ou desenvolvimento;
- Dificuldade para se comunicar ou se concentrar.
Segundo
Mariana, a educação sexual infantil deve começar cedo, de forma lúdica,
respeitosa e baseada no vínculo familiar. Algumas estratégias podem ser
incorporadas ao dia a dia, como:
- Ensinar que partes íntimas têm nome e ninguém deve tocá-las sem
permissão;
- Incentivar a criança a contar tudo que a deixa desconfortável;
- Estimular o “círculo de confiança”: adultos em quem ela pode
confiar;
- Orientar que segredos sobre o corpo não devem ser guardados;
- Reforçar que ela será ouvida e protegida sempre.
Uma frase simples
que pode ser ensinada para situações de risco é:
“Pare agora. Eu sei o que você está fazendo. Vou contar para meus pais e
eles vão acreditar em mim.”
Essa atitude pode interromper o abuso ou desencorajar o agressor.
E a escola?
A escola também tem papel fundamental nessa rede de proteção. “É onde a criança
passa a maior parte do tempo. Muitas vezes, é no comportamento dentro da sala
de aula que os primeiros sinais aparecem”, diz Mariana Ruske. “Os educadores
devem ser capacitados não apenas para identificar, mas para acolher.”
Toda
e qualquer suspeita de abuso sexual deve ser notificada. As denúncias podem ser
feitas anonimamente pelo Disque 100, sem a necessidade de comprovação prévia.
A
proteção da infância é um compromisso coletivo e começa com informação, escuta
e coragem para agir.
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