Frases como "você pode tentar de novo" ou "foi melhor assim" podem parecer consolo, mas machucam. Psicóloga perinatal explica por que o acolhimento começa pelo silêncio e pela escuta
Quando
uma mulher perde um bebê durante a gestação ou logo após o parto, o luto
costuma ser silencioso e, muitas vezes, solitário. Mesmo com boas intenções,
comentários de amigos e familiares podem tornar esse momento ainda mais
difícil. A cantora Lexa, que perdeu a filha dias após o parto, recentemente
contou que não espera que ninguém compreenda sua dor. Para ela, a perda de um
filho não se supera, é algo com que se aprende a conviver.
“A
perda gestacional representa o fim de um sonho. O bebê já existia no afeto, no
nome escolhido, nos planos que estavam sendo feitos”, explica Rafaela Schiavo, psicóloga
perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Segundo ela, reconhecer essa
dor é essencial para oferecer um acolhimento verdadeiro. Frases como ‘você pode
tentar de novo’ ou ‘foi melhor assim’ podem parecer consolo, mas invalidam o
sofrimento.
Na
semana do Dia das Mães, a psicóloga perinatal explica quais frases podem
machucar ainda mais quem enfrenta uma perda gestacional ou neonatal, e o que
pode ser feito para oferecer apoio. A especialista reforça a importância de
validar o luto e mostra caminhos para acolher com empatia.
O
que não dizer a uma mãe em luto
"Foi
melhor assim"
O luto
perinatal não é apenas sobre a morte do bebê, mas sobre os planos e sonhos
interrompidos. Dizer que “foi melhor assim” invalida o sofrimento e pode
aumentar a sensação de culpa.
"Você
pode ter outro filho"
Nenhuma
nova gravidez substitui um bebê que foi perdido. Cada gestação é única, e essa
frase pode minimizar a dor da mãe.
"Pelo
menos você ainda não tinha criado vínculo"
O
vínculo materno começa desde a gestação. A perda pode ser devastadora,
independentemente da idade gestacional.
"Deus
sabe o que faz"
Frases
com conotação religiosa podem causar desconforto, principalmente se não forem
compatíveis com as crenças da mãe.
"Seja
forte"
O luto
precisa de espaço para ser vivido. Pedir que a mãe seja forte pode pressioná-la
a esconder seus sentimentos e tornar o processo ainda mais difícil.
Como
oferecer apoio de verdade
Ofereça
presença e escuta
Perguntas
como "Quer conversar?" ou "Posso te ajudar com algo?"
mostram que a pessoa está disponível sem pressionar.
Valide
a dor da família
Frases
como "Eu não posso imaginar sua dor, mas estou aqui para o que
precisar" são mais acolhedoras do que tentar minimizar o sofrimento.
Respeite
o tempo do luto
Cada
pessoa tem seu próprio ritmo para processar uma perda. O melhor apoio é estar
disponível sem cobranças ou expectativas.
Ajude
com ações concretas
Oferecer
ajuda prática, como cuidar de tarefas do dia a dia ou simplesmente estar por
perto, pode fazer a diferença.
E o
pai? Ele também sente o luto
O luto perinatal não afeta apenas as mães. Pais também sofrem o luto perinatal, mas raramente são incluídos nessa conversa. Muitos silenciam a própria dor para apoiar a parceira, mas também precisam ser acolhidos.
"Os pais muitas vezes são cobrados para serem fortes e apoiar a mãe, mas eles também perderam um filho e precisam de acolhimento. O luto paterno é real e deve ser respeitado", destaca Rafaela. Assim como as mães, os pais podem precisar de rede de apoio e acompanhamento de um psicólogo perinatal para lidar com essa fase.

Nenhum comentário:
Postar um comentário