Capacitação docente é fundamental para reconhecer
sinais de alerta e garantir o acolhimento adequado de crianças e adolescentes
com transtornos mentais
Queda no rendimento escolar, retraimento repentino,
dificuldade de socialização e mudanças bruscas de comportamento. Esses são
alguns dos principais sinais de alerta que podem indicar sofrimento emocional
ou transtornos mentais em crianças e adolescentes dentro do ambiente escolar.
Reconhecer esses sintomas precocemente é essencial para promover intervenções
eficazes e evitar que problemas de saúde mental comprometam o desenvolvimento
educacional e social dos alunos.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 10% a 20% dos
adolescentes em todo o mundo convivem com algum transtorno mental. No Brasil, o
cenário preocupa: um levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria aponta
que transtornos como ansiedade, depressão, TDAH (Transtorno de Déficit de
Atenção e Hiperatividade) e TEA (Transtorno do Espectro Autista) têm crescido
nas salas de aula. Esses quadros, muitas vezes, ainda são mal compreendidos por
parte da comunidade escolar. Um exemplo histórico é o de Thomas Edison,
inventor e cientista americano, que foi expulso da escola aos sete anos de
idade por ser considerado "mentalmente lento".
Segundo
biógrafos como Paul Israel (em Edison: A Life ofInvention, 1998), Edison
apresentava comportamentos compatíveis com o que hoje se conhece como TDAH,
mas, na época, essas características foram interpretadas como indisciplina e
incapacidade. Seu potencial só foi desenvolvido porque sua mãe decidiu educá-lo
em casa, reconhecendo sua curiosidade e inteligência.
Diante dessa realidade, o preparo dos professores se torna peça-chave para
acolher e encaminhar adequadamente os estudantes que hoje, como Edison no
passado, apresentam dificuldades de aprendizagem que escondem talentos.
Para o médico Dr. Thyago Henrique, formado em Psiquiatria pelo Hospital Albert
Einstein, capacitar educadores para identificar e manejar casos de sofrimento
psicológico é um passo essencial não apenas para o bem-estar individual dos
alunos, mas para toda a sociedade.
“Quando uma criança tem um transtorno mental, ela precisa de um cuidado
multidisciplinar. E o professor faz parte dessa equipe. É ele quem passa mais
tempo com o aluno e está na linha de frente para perceber mudanças de comportamento.
Se esse profissional estiver capacitado, ele pode atuar de forma decisiva na
vida da criança”, afirma o médico.
Dr. Thyago explica que, muitas vezes, sinais sutis como o isolamento ou a
recusa em brincar são negligenciados. “Criança é curiosa, é bagunceira. Quando
isso muda, e ela passa a ficar mais calada, mais arredia, já acendemos o sinal
de alerta. A chave está na quebra de padrão comportamental. Nem toda criança
introvertida está com um problema, mas toda mudança significativa de comportamento
merece atenção.”
Além da observação atenta, o psiquiatra defende que a escola mantenha um
diálogo constante com a família e promova campanhas de conscientização entre
alunos e professores. “Mais importante do que perguntar diretamente à criança o
que está acontecendo é conversar com os pais. A família precisa ser envolvida
no processo.”
Educação e acolhimento evitam a evasão escolar
Sem suporte adequado, crianças com transtornos mentais podem ter um declínio
significativo no desempenho acadêmico e acabar deixando a escola. Isso tem
consequências diretas na vida adulta, com maior risco de desemprego,
informalidade e até envolvimento com a criminalidade.
“O trabalho da criança é estudar. Se ela está doente, ela não consegue
aprender. E isso vira uma bola de neve que impacta toda a estrutura social”,
alerta Dr. Thyago. “É por isso que saúde mental infantil é também uma questão
de segurança pública, de economia e de futuro.”
A capacitação dos professores, segundo ele, deve incluir noções básicas sobre
os principais transtornos, formas respeitosas de abordagem e estratégias de
manejo em sala de aula. Mas o médico ressalta: o educador nunca deve sugerir
medicações ou diagnósticos. Seu papel é o de apoio e observação qualificada.
Outro ponto sensível destacado por Dr. Thyago é a saúde mental dos próprios
docentes. Sem preparo emocional e técnico, muitos acabam adoecendo. “O
professor está em um ambiente de alta carga emocional. Se ele não estiver bem,
ele não consegue ensinar nem acolher. É preciso cuidar de quem cuida.”
A aposta em formação continuada e em redes de apoio dentro das escolas é uma
das propostas do projeto de capacitação que o psiquiatra integra. A ideia é
transformar a escola em um espaço mais humano, capaz de reconhecer e respeitar
a individualidade de cada aluno.
“Conhecimento é a principal arma. Professores bem formados ajudam a transformar
vidas e a garantir que menos crianças fiquem para trás. Afinal, quantos Thomas
Edisons já não perdemos por falta de acolhimento e compreensão?”, conclui.
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