Ao reler antigas anotações sobre a Aliança para o Progresso e a campanha “Doe ouro para o bem do Brasil” utilizados em um artigo que publiquei em 2015, revivo a percepção de que o país caminha por uma estrada cíclica — marcada por avanços pontuais e obstáculos reincidentes. A memória histórica, quando confrontada com o cenário atual, revela mais que paralelos: revela padrões. O Brasil de 2025 carrega ainda muitas das fragilidades que atravessaram décadas anteriores, mas também apresenta oportunidades que exigem leitura atenta do passado para pavimentar caminhos mais sólidos tendo como destino o futuro.
Crises que se repetem e
aprendizados que custam caro
A proposta da Aliança para o Progresso, lançada por
John Kennedy em 1961 para conter o avanço do comunismo na América Latina por
meio de apoio econômico e institucional, perdeu fôlego com a morte do presidente
e o endurecimento dos regimes militares. No Brasil, a ditadura iniciada em 1964
impôs repressão política e violação de direitos, ao mesmo tempo em que
enfrentava inflação, dívida externa e choques internacionais como o do
petróleo. A redemocratização trouxe esperança, mas também revelou os limites
das estruturas institucionais: a estabilidade econômica era uma promessa sempre
adiada, especialmente diante das crises fiscais e dos episódios traumáticos dos
anos 80 e 90, como o confisco da poupança e a hiperinflação.
O Plano Real, em 1994, representou um divisor de
águas ao estabilizar a moeda e conter a inflação. Ainda assim, os governos
subsequentes navegaram na onda do sucesso inicial do plano, mas encontrando
turbulências no caminho, ora diante de escândalos de corrupção, ora enfrentando
desaceleração econômica e pressões sociais. A Operação Lava Jato escancarou as
entranhas do sistema político brasileiro, mas também deixou um rastro de
desgaste institucional e resultou, ao longo do tempo, em mais uma insegurança
jurídica, além de provocar a polarização entre a esquerda e a direita que
persiste até hoje.
A encruzilhada de 2025:
avanços tímidos e velhas urgências
O cenário atual não é de colapso, mas tampouco é de
estabilidade. A economia brasileira apresenta crescimento modesto, com o PIB
projetado em torno de 2%, segundo organismos internacionais. A inflação segue
acima da meta, impulsionada por fatores externos e internos, enquanto os juros
altos impactam o consumo e travam investimentos. A taxa básica está em 15%, um
patamar que não se via há quase vinte anos.
Mais preocupante que os números é o sentimento de
estagnação institucional. O Brasil caiu para a 107ª posição no Índice de
Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, evidência de que os
mecanismos de controle ainda não foram capazes de consolidar uma cultura
pública pautada pela ética e pela eficiência. A prisão recente de figuras
históricas da política nacional, como o ex-presidente Fernando Collor, não foi
suficiente para restaurar a confiança da população nas instituições.
A desigualdade social permanece como um dos grandes
entraves ao progresso. Mesmo com avanços em programas de transferência de
renda, a concentração de riqueza, a precariedade nos serviços básicos e a
dificuldade de acesso à educação de qualidade mantêm milhões de brasileiros à
margem de oportunidades reais de mobilidade social.
Tecnologia, inovação e os
caminhos possíveis
Se há uma luz no horizonte, ela vem da inovação. O
Brasil desponta como um polo importante em setores estratégicos como energia
renovável, agronegócio sustentável e tecnologia da informação. Startups e
centros de pesquisa ganham fôlego com apoio de iniciativas privadas e,
pontualmente, de políticas públicas que incentivam desenvolvimento e internacionalização.
A digitalização de serviços públicos também evoluiu
— impulsionada durante a pandemia —, e hoje representa um dos poucos exemplos
de eficiência estatal. Ainda assim, a burocracia, a insegurança jurídica e o
custo Brasil seguem travando o pleno desenvolvimento. A infraestrutura física,
por sua vez, continua defasada. Faltam investimentos estruturantes em
transporte, saneamento e energia que acompanhem a pujança de setores mais
modernos da economia.
O que ainda falta ser feito
A história mostra que não basta esperar que o tempo
resolva. Reformas estruturais continuam empacadas — a tributária foi
parcialmente aprovada, mas carece de regulamentação eficiente. A administrativa
sequer avançou. O sistema político, ainda moldado por interesses de curto prazo,
falha em construir uma visão de país que vá além do ciclo eleitoral.
É urgente investir em educação, inovação e
sustentabilidade. Preparar novas gerações para os desafios do século XXI exige
mais que recursos: exige prioridade. Conciliar crescimento econômico com
proteção ambiental não pode mais ser tratado como antagonismo, mas como
oportunidade. A Amazônia continua sendo um ativo estratégico negligenciado,
explorado à margem da legalidade e da lógica sustentável.
O Brasil de 2025 é um país em disputa. Entre
promessas e retrocessos, entre inércia e reinvenção, o que se impõe é a
necessidade de amadurecimento institucional. Isso passa por reformas, por
educação de base sólida, por estímulo à inovação e, acima de tudo, por uma
cultura pública que valorize o coletivo, o diálogo e o compromisso de longo
prazo.
Se o passado serviu de alerta, que o presente sirva de escolha. Não se trata apenas de resistir às crises, mas de aprender com elas para finalmente superá-las — de forma estrutural, justa e duradoura.
Paulo Akiyama - formado em economia e em direito desde 1984. É palestrante, autor de artigos, sócio do escritório Akiyama Advogados Associados e atua com ênfase no direito empresarial e direito de família.
Para mais informações, visite o site ou o Instagram.
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