Neuropediatra explica os obstáculos que
acompanham pessoas com DMD, doença rara e degenerativa que afeta meninos
Desde a virada do século, a distrofia muscular de Duchenne (DMD),
tem apresentado diversos avanços em relação a protocolos de manejo da doença,
bem como na redução da jornada do diagnóstico, proporcionando aos pacientes
maior longevidade e mais qualidade de vida. Apesar disso, ainda há desafios
enfrentados pela comunidade de DMD. “Na década de 1980, a expectativa de vida
de um menino com Duchenne não passava de 20 anos, hoje temos pacientes de 30 e,
até mesmo, 40 anos. Essa maior expectativa de vida gera novos obstáculos, como
a necessidade de médicos capacitados para atender esse grupo de pacientes que,
na fase adulta, demandam cuidados diferentes”, explica a neuropediatra
Alexandra Prufer, professora da Faculdade de Medicina da UFRJ, que coordenou a
atualização das recomendações do consenso brasileiro para distrofia muscular de
Duchenne, junto com outros 15 médicos.
A DMD é uma doença rara que afeta meninos e causa
enfraquecimento e degeneração muscular devido à falta da proteína distrofina,
resultando em dificuldade motoras para caminhar, pular e se levantar, por
exemplo.[1] No que se refere aos cuidados com a DMD, a abordagem
terapêutica varia conforme a fase da doença.[2],[3]A neuropediatra
explica que é essencial desde o início um acompanhamento fisioterapêutico
voltado para questões motoras, com foco na prevenção de deformidades
articulares do tornozelo por meio de órteses e alongamento. Isso desacelera a
progressão dessas deformidades, frequentemente associadas à perda da capacidade
de locomoção. Além disso, o paciente requer uma equipe multidisciplinar,
incluindo cardiologistas, ortopedistas, pneumologistas e outros especialistas,
para cuidados com o coração, ossos e sistema respiratório.2
Essas abordagens têm sido fundamentais para melhorar
a qualidade de vida dos pacientes com DMD, permitindo que alcancem níveis
educacionais e desfrutem de uma vida social. “Nesse novo cenário de pacientes
adultos, enfrentamos o desafio de encontrar médicos, especialmente
cardiologistas, pneumologistas e fisioterapeutas respiratórios, que estejam
familiarizados com a doença e possam determinar o melhor tratamento. No mais, é
crucial preparar tanto o jovem que está entrando na fase adulta quanto sua
família para lidar com um paciente que exigirá cuidados contínuos devido à
natureza progressiva da doença, enquanto os pais também estão envelhecendo”,
afirma a especialista.
Outro ponto de atenção em relação a DMD é o
diagnóstico que, de acordo com a neuropediatra, no Brasil leva em média oito
anos, o que causa sérios impactos na qualidade de vida da criança, já que
muitas vezes é diagnosticada em um estágio avançado da doença. Além disso, a
médica ressalta que há implicações no planejamento familiar. Casais portadores
da mutação genética têm dificuldade em realizar aconselhamento genético antes
de ter outros filhos, aumentando a possibilidade de terem outros casos na
família.
A fim de suprir as antigas e novas demandas da
comunidade de Duchenne, médicos reuniram, no novo consenso brasileiro para a
DMD, as principais atualizações em relação a compreensão e manejo da doença,
criando assim um padrão de atendimento. Prufer conta sobre algumas das
mudanças. “Devido ao aumento nos pedidos de testes genéticos para DMD, a
recomendação é que os médicos conheçam os testes mais apropriados, saibam interpretar
os resultados, forneçam aconselhamento pós-teste adequado e, se necessário,
recorram a um médico geneticista ou especialista em doenças neuromusculares. Já
no âmbito do cuidado cardiológico, era definido iniciar a cardioproteção desde
a primeira consulta se o paciente tiver menos de 10 anos de idade. No entanto,
novos estudos sugerem que poderia ser benéfico ainda mais cedo ou a qualquer
momento se os testes forem anormais”.
Alexandra Prufer destaca a importância da
conscientização sobre a doença e chama a atenção para a necessidade de
investigar atrasos no desenvolvimento, como na fala, que podem ser erroneamente
associados ao autismo. Ela propõe o uso da caderneta de saúde infantil como uma
ferramenta valiosa para identificar precocemente sinais de atraso no
desenvolvimento, permitindo encaminhamentos adequados. “Esta seria uma forma de
realizarmos um encaminhamento mais precoce, pois em uma consulta de rotina, o
médico, ao perceber algum atraso no desenvolvimento, já poderia solicitar um
simples exame de CPK, enzima que quando elevada
sugere uma doença muscular, ajudando assim na indicação do encaminhamento
especializado”, explica ela, reforçando que, para se conquistar mais
avanços nos cuidados com pessoas com DMD, é necessário aumentar o nível de conscientização
dos pais, bem como de capacitação de profissionais da saúde, para que possam
oferecer cuidado personalizado em todas as fases da doença.
Sobre a distrofia muscular de Duchenne1,[4],[5]
Afetando os meninos, a distrofia muscular de Duchenne
(DMD) é uma doença genética rara e fatal que resulta em fraqueza muscular
progressiva desde a primeira infância e leva à morte prematura na casa dos
vinte anos, devido à insuficiência cardíaca e respiratória, quando não tratada.
É um distúrbio muscular progressivo causado pela falta da proteína funcional
distrofina. Ela é fundamental para a estabilidade estrutural de todos os
músculos, incluindo os esqueléticos, diafragma e coração. Em fases avançadas da
doença, as pessoas com DMD passam a necessitar de ajuda para realizar as
atividades de vida diária. Em todos os casos a força muscular piora ao longo do
tempo, mas a velocidade desta piora varia caso a caso. Em média, cerca de 90%
dos meninos estarão na cadeira de rodas por volta dos 15 anos. Para obter informações
adicionais sobre a doença e conhecer histórias de meninos com Duchenne, visite
o hub Movimento
Duchenne.
Referências
[1] Flanigan KM.
Duchenne and Becker muscular dystrophies. Neurol Clin 2014; 32: 671–688
[2] Bushby K, Finkel R, Birnkrant DJ, Case LE,
Clemens PR, Cripe L, et al.; DMD Care Considerations Working Group. Diagnosis
and management of Duchenne muscular dystrophy, part 1: diagnosis, and
pharmacological and psychosocial management. Lancet Neurol. 2010
Jan;9(1):77-93.
[3] Moreira ASS, Araújo APQC. Não reconhecimento dos
sintomas iniciais na atenção primária e a demora no diagnóstico da distrofia
muscular de Duchenne. Rev Bras Neurol. 2009 Jul-Set;45(3):39-43.
[4] Birnkrant DJ, Bushby K, Bann CM, Apkon SD,
Blackwell A, Brumbaugh D, Case LE, Clemens PR, Hadjiyannakis S, Pandya S,
Street N, Tomezsko J, Wagner KR, Ward LM, Weber DR; DMD Care Considerations
Working Group. Diagnosis and management of Duchenne muscular dystrophy, part 1:
diagnosis, and neuromuscular, rehabilitation, endocrine, and gastrointestinal
and nutritional management. Lancet Neurol 2018;17(3):251-267.
[5] Araujo APQC, Carvalho AAS, Cavalcanti EBU, Saute
JAM, Carvalho E, França MC Junior, Martinez ARM, Navarro MMM, Nucci A, Resende
MBD, Gonçalves MVM, Gurgel-Giannetti J, Scola RH, Sobreira CFDR, Reed UC,
Zanoteli E. Brazilian consensus on Duchenne muscular dystrophy. Part 1:
diagnosis, steroid therapy and perspectives. Arq Neuropsiquiatr
2017;75(8):104-113.
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