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Pesquisas mostram que 75% dos jovens
brasileiros sonham em ser influenciadores digitais, mas apenas 9% dos que fazem
essa aposta conseguem se sustentar unicamente com as redes sociais
É cada vez mais comum ver
jovens abandonando estudo e emprego para se dedicar integralmente à internet,
como influenciadores digitais, sem considerar os riscos ou consequências dessa
decisão. A busca por curtidas, visualizações e seguidores se sobrepõe à
construção de uma carreira sólida, e até mesmo às situações de exposição e
ridicularização, que são vistas como “parte do processo”.
Uma pesquisa realizada pela
startup INFLR em 2022 revelou que 75% dos jovens brasileiros sonhavam em ser
influenciadores digitais. Embora o dado tenha alguns anos, o tema continua
atual. Segundo a pesquisa, os dois principais motivos para essa escolha seriam
o desejo de inspirar outras pessoas (75%) e o interesse financeiro (64%).
Enquanto isso, profissões
tradicionais, como a de advogado, professor, jornalista, policial ou bombeiro
deixaram de ser interessantes para esse público.
O fato é que os jovens de hoje
se sentem pressionados a alcançar o sucesso e a riqueza rapidamente, mesmo que
isso signifique abrir mão de estabilidade, formação e esforço contínuo. A fama
nas redes sociais é vista por muitos como um atalho para a ascensão social.
Esse debate, obviamente, ganhou
as redes sociais. Um post feito pelo instagrammer saullocatarina, em formato de
carrossel, critica essa inversão de valores com frases como: “Bem-vindo ao
Brasil! Onde o trabalhador é demonizado e o influenciador do ‘tigrinho’ é
aplaudido.”
Em outra, diz: “Gente que nunca
construiu nada, ensinando como ficar rico da noite para o dia”, e complementa:
“Enquanto quem estuda, trabalha e rala todos os dias é tratado como burro.”
O post gerou diversas reações.
Um dos comentários, de um seguidor, chamou atenção justamente por evidenciar a
frustração de quem não alcança a desejada fama. O seguidor relatou que largou o
emprego para abrir sua própria oficina e criou um perfil no Instagram para
divulgar o trabalho sério que realiza. Apesar do esforço e da qualidade do
conteúdo, o engajamento foi quase nulo: apenas duas ou três curtidas, mesmo
entre os próprios amigos. Em tom de desabafo, ele comparou: “Agora, o Neymar
posta que teve um filho e todo mundo comenta. E o cara nem sabe que você
existe. Mas o trabalho do seu amigo? Ninguém se esforça para ajudar a
divulgar.”
Para ajudar a compreender
melhor por que tantos jovens sentem essa pressão para alcançar o sucesso
financeiro por meio da internet, muitas vezes sem preparo, sem paciência e sem
considerar os riscos, o Diário do Comércio conversou com o
psicólogo Johnata Lordão, que trouxe uma reflexão sobre o assunto.
"A sociedade moderna
plantou ideias perigosas no coração dos jovens", diz Lordão. "A de
que só vale a pena viver se for brilhando. Que só tem valor quem é visto. E que
sucesso é ter dinheiro no bolso e muitos olhos te seguindo."
Mas, segundo o psicólogo, a
vida não é um palco, e muito menos uma passarela iluminada. É mais parecida com
uma estrada de barro: suada, silenciosa, cheia de curvas e pedras. “E, ainda
assim, é nesse caminho duro que se encontram o sentido, os vínculos e o
propósito.”
A pesquisa da startup INFLR citada
acima, que mostra que 75% dos jovens brasileiros desejam ser influenciadores
digitais, revela mais do que um modismo, de acordo com Lordão. “Revela uma sede
de ser ouvido, de fazer a diferença, de ganhar o pão com o próprio talento. Mas
se essa sede for saciada apenas com likes, logo ela volta mais forte, mais
amarga.”
O psicólogo resgata um ditado
africano que diz: "Se você quiser ir rápido, vá sozinho. Se quiser ir
longe, vá acompanhado." Segundo ele, a fama digital costuma ser uma
estrada rápida, mas a realização pessoal é uma caminhada longa, feita de
vínculos reais, raízes firmes e passos consistentes.
"No fundo, o que muitos
jovens querem ao buscar a carreira de influenciador não é apenas fama, mas
pertencimento. Eles querem ser vistos, validados, reconhecidos, amados. E os
palcos onde isso acontece mudaram. Antes era no colégio, no bairro, no grupo de
amigos. Hoje é no Instagram, no TikTok, no
YouTube."
A pergunta antes era: o que vou
ser quando crescer? Hoje virou: como vão me ver quando eu postar?
O "ser alguém" passou
a depender do "ser seguido". O palco virtual virou o novo currículo,
a nova medalha, a praça pública onde todos querem ser aplaudidos.
Mas, segundo o psicólogo, há
riscos: “As escadas para a fama nas redes sociais não têm corrimão. É fácil
subir, mas também é fácil cair. E quando a queda acontece, ela machuca, e
muito.”
Lordão ressalta que o problema
não está no sonho em si, mas na forma como ele é construído: “Querer ser
influenciador é legítimo. Mas quando isso se torna o único caminho possível
para o sucesso e a felicidade, e esse caminho depende exclusivamente do olhar
do outro, do algoritmo, do engajamento, da validação externa, criamos uma
geração que confunde essência com performance.”
“É preciso mostrar aos jovens
que a vida não se mede por cliques, mas por vínculos. Que é possível ser
influente, feliz e importante mesmo longe dos holofotes. Que o valor de alguém
não está no número de seguidores, mas na coragem de ser quem se é, mesmo quando
ninguém está assistindo.”
Poucos se
sustentam como influenciadores
Apesar do crescimento do
mercado digital, os números mostram que viver exclusivamente da produção de
conteúdo ainda é uma realidade para poucos. Um levantamento recente da Wake
Creators, que ouviu mais de 4.500 criadores de conteúdo, revelou que apenas 9%
deles conseguem ter a internet como única fonte de renda.
Segundo os dados, 26% dos entrevistados
disseram não ter uma renda mensal fixa com a atividade, eles dependem de
campanhas pontuais, sem previsibilidade de pagamento. Outros 19% afirmaram
nunca terem fechado um trabalho remunerado como criadores.
Somente 17% conseguem obter ao
menos metade da renda mensal por meio da atuação como influenciadores. Ou seja,
embora o sonho de viver da internet esteja presente no imaginário de muitos
jovens, a realidade financeira da maioria dos criadores ainda é instável e
desafiadora.
Quando um jovem deposita todas
as suas expectativas e sua identidade em um perfil digital, e não alcança o
reconhecimento esperado, o impacto pode ser devastador, segundo Lordão.
“Quando o ‘eu’ se constrói
apenas na tela, ele se rompe fora dela. A ausência de validação pode causar um
colapso psíquico. Se o que eu sou depende de ser curtido, celebrado e seguido,
quem sou eu quando isso não acontece?”, questiona o psicólogo.
Esse vazio pode desencadear
quadros de ansiedade, depressão, crises de identidade e até ideação suicida,
especialmente em jovens que ainda não desenvolveram autoconhecimento ou
amadurecimento emocional.
Além disso, o foco excessivo na
persona pública pode fazer com que o jovem negligencie outras áreas essenciais
da vida, como os estudos, os vínculos afetivos, a espiritualidade, o descanso,
a saúde emocional e o autodesenvolvimento, completa Lordão.
Cesar Bruneli
Fonte:
https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/abandonar-carreira-para-viver-da-internet-pode-se-tornar-uma-realidade-cruel
* Texto publicado originalmente no portal Consultor Jurídico - Conjur
**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio