O desequilíbrio emocional impacta a
saúde como um todo, aumentando a tensão muscular, reduzindo a qualidade do
sono, da alimentação e até a libído. De acordo com especialistas em
fertilidade, estas são algumas das razões pelas quais a saúde mental deve ser
parte do cuidado durante todo o processo de tentativa e gestação
A fertilidade não é apenas um fenômeno biológico. Ela acontece em
um corpo vivo, que pensa, sente, reage e dá significado às experiências. E é
neste contexto que a saúde mental desempenha um papel fundamental em toda a
jornada reprodutiva, especialmente quando há diagnóstico de infertilidade e
início de tratamentos, que costumam trazer pressão, medo, frustração e uma
rotina intensa de exames, consultas e medicações.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 1 em
cada 6 pessoas vive a infertilidade em algum momento da vida. Por isso, é necessário aumentar a atenção sobre o quanto
sentimentos como estresse, ansiedade e depressão podem afetar o organismo e
também o comportamento necessário para sustentar o tratamento.
Para a psicóloga clínica Joliane Prado (CRP: 08/18564), da Associação Brasileira de Reprodução Assistida
(SBRA) e especialista em saúde emocional da mulher, olhar para a saúde mental
não é “extra”, mas sim parte fundamental do cuidado: “A fertilidade acontece em
um corpo que vive experiências e significados. Quando o sofrimento emocional se
acumula, ele pesa na rotina, nas decisões e na forma como a pessoa atravessa
cada etapa”, explica.
Estresse crônico: quando o corpo entra em “modo alerta” por
tempo demais
O estresse crônico é um dos fatores emocionais mais estudados na
relação com a fertilidade. Em tratamentos de infertilidade, muitas mulheres e
casais relatam medo de falhar, receio de não engravidar e cobrança interna
constante. Nessa condição, o corpo permanece em estado contínuo de alerta,
elevando de forma persistente os níveis de cortisol, conhecido como o hormônio
do estresse: “Esse excesso, com o passar do tempo, pode desregular a liberação
de hormônios ligados à reprodução, interferir na ovulação e afetar o
funcionamento de todo o organismo”, afirma Joliane.
O aumento dos níveis de estresse também podem aumentar a tensão
muscular, reduzir libido, prejudicar o sono e o bem-estar. Diferentes estudos,
entre eles um realizado pelo Instituto Valenciano de Infertilidade (Espanha), apontam uma grande associação entre
níveis de cortisol elevados e sintomas de ansiedade e depressão em contextos de
infertilidade.
A ansiedade tende a “acelerar” corpo e mente, com aumento de
adrenalina, dificuldade de concentração e menor autorregulação. Já a depressão
pode reduzir energia, motivação e esperança, impactando o engajamento no
processo e a qualidade de vida durante o tratamento: “Muitas mulheres relatam
maior dificuldade para lembrar horários de medicação, seguir orientações da
equipe e manter hábitos de autocuidado quando estão emocionalmente
sobrecarregadas e ansiosas. No caso das tentantes que desenvolvem depressão ou
passam por uma crise depressiva no processo, a dificuldade é em manter a
aderência aos tratamentos, porque o nível de desesperança pode crescer muito”,
pontua a psicóloga.
O emocional também interfere na tomada de decisão: pressa para
iniciar ciclos, dificuldade de avaliar riscos e tolerância menor a pausas podem
levar a escolhas impulsivas ou confusas. Somando esses fatores, o estresse e a
ansiedade podem aumentar a irritabilidade e os conflitos no relacionamento,
fragilizando a parceria justamente quando ela é mais necessária.
Acompanhamento
psicológico e estratégias práticas para atravessar o processo
Diante desse cenário, Joliane destaca que a Terapia
Cognitivo-Comportamental (TCC) reúne intervenções que ajudam a preservar a
saúde mental e fortalecer a experiência reprodutiva. Entre elas:
- Psicoeducação: entender como
estresse e ansiedade atuam no corpo reduz a culpa e amplia senso de
controle.
- Regulação emocional: técnicas como
respiração diafragmática e relaxamento muscular progressivo ajudam a
desacelerar em momentos de pico emocional.
- Trabalho com pensamentos automáticos: reestruturar interpretações negativas para avaliações mais
realistas (não é “pensar positivo”, é recuperar clareza).
- Organização da rotina: planejamento de
tarefas e hábitos de autocuidado para sustentar medicações, sono e alimentação.
- Rede de apoio: fortalecer
suporte de parceiro(a), família, grupos e equipe de saúde, reduzindo
isolamento.
“Cuidar do emocional não ‘cura’ a infertilidade, mas cria um terreno psicológico e comportamental mais estável para que o tratamento aconteça da melhor forma possível. Quando corpo e mente atuam de forma integrada, a jornada tende a ser mais humana e, muitas vezes, isso melhora a experiência ao longo do caminho”, conclui a psicóloga.
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