Pesquisas publicada no JAMA Psychiatry mostra que agonistas do receptor de GLP-1, usados no tratamento da obesidade e do diabetes, também diminuem o consumo e o impulso pelo álcool. Para a hepatologista Dra. Patrícia Almeida, a descoberta pode representar uma revolução no combate simultâneo à esteatose e às doenças hepáticas ligadas ao álcool
Dois
dos maiores desafios da hepatologia moderna têm origem em comportamentos
distintos, mas convergem no mesmo ponto: o dano hepático causado pelo álcool e
pela gordura. Agora, um novo estudo publicado no JAMA Psychiatry indica
que os medicamentos à base de incretinas, como a semaglutida (presente em
fármacos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro), podem atuar de
forma promissora sobre ambos os mecanismos.
O
ensaio clínico, conduzido por pesquisadores da Universidade da Carolina do
Norte (EUA), acompanhou 48 adultos diagnosticados com transtorno por uso de
álcool. Os participantes receberam semaglutida em doses semanais e apresentaram
redução significativa no consumo e no desejo por bebidas alcoólicas, sem
necessidade de abstinência completa. Os resultados mostraram queda no número de
dias de consumo pesado e no nível de álcool expirado, além de menor fissura por
álcool em comparação ao grupo placebo.
Segundo
os autores, os medicamentos parecem atuar nas mesmas vias cerebrais de
recompensa relacionadas ao apetite, à saciedade e à busca por prazer as mesmas
envolvidas na compulsão alimentar e no abuso de substâncias. “Estamos diante de
uma mudança de paradigma. Pela primeira vez, temos uma medicação que age tanto
no metabolismo hepático quanto no comportamento de busca por prazer. O GLP-1
conversa com o fígado e com o cérebro, ajudando o corpo a metabolizar melhor e
a mente a desejar menos o que o destrói”, explica a Dra. Patrícia Almeida,
hepatologista pela Sociedade Brasileira de Hepatologia e doutora pela USP.
A
especialista destaca que os achados têm implicações importantes não apenas para
o tratamento da obesidade e do diabetes, mas também para doenças hepáticas como
a esteatose metabólica (MASLD) e a doença hepática alcoólica (ALD),
responsáveis por milhões de mortes anuais em todo o mundo.
“O
excesso de álcool e a má alimentação são os dois maiores inimigos do fígado
moderno. E as incretinas surgem como uma ponte entre esses dois mundos, atuando
na raiz do problema: o descontrole do desejo”, acrescenta a médica.
O
estudo americano é o primeiro ensaio clínico randomizado a demonstrar, com base
científica, que a semaglutida pode reduzir o impulso e o consumo de álcool. Os
autores sugerem que essa linha de pesquisa abra caminho para novos usos
terapêuticos dos agonistas de GLP-1 um grupo de medicamentos já considerado
revolucionário no tratamento da obesidade e da síndrome metabólica.
“Pesquisas
como essa mostram que a hepatologia moderna vai muito além do fígado. Envolve
compreender o cérebro, o comportamento e as emoções ligadas ao prazer. É uma
nova fronteira no cuidado das doenças hepáticas”, finaliza Dra. Patrícia
Almeida.
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