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| A exposição virtual pode ser vista aqui (imagem: Agência FAPESP) |
Iniciativa reúne documentos, fotos e entrevistas com cientistas que, desde 1962, com suas pesquisas fizeram avançar o conhecimento sobre biodiversidade, mudanças climáticas e comunidades tradicionais, entre outros temas
A Amazônia é alvo de interesse
científico desde o início do século 19, quando o naturalista alemão Alexander
von Humboldt descreveu as paisagens e espécies das “regiões equinociais da
América”. Desde essa época, pesquisadores do país e do exterior fizeram avançar
o conhecimento sobre os ecossistemas, a biodiversidade, as populações locais e
as relações natureza-sociedade na região que será um dos pontos centrais da
agenda de debates da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), entre 10 e 21 de novembro em
Belém.
A FAPESP apoia pesquisas na
Amazônia desde 1962, quando financiou uma das primeiras expedições de Paulo Vanzolini à
região. Ao longo de seis décadas, mais de 3 mil pesquisadores embrenharam-se na
floresta, desvendando sua biodiversidade, seu papel na provisão de produtos e
serviços ambientais, no ciclo do carbono e na regulação do clima – uma região
que ao mesmo tempo abriga mais de 30 milhões de brasileiros.
Boa parte desse trabalho de
pesquisa está documentada na exposição virtual Ciência na Amazônia: história, desafios e descobertas que o Centro de Memória FAPESP inaugura hoje (06/11), quando tem
início a Cúpula do Clima de Belém, que reúne chefes de Estado e de Governo,
ministros e dirigentes de organizações internacionais para discutir os
principais desafios e compromissos para o enfrentamento das mudanças
climáticas.
Paulo
Vanzolini e a zoologia na Amazônia
A exposição Ciência na
Amazônia está dividida em três capítulos. O primeiro documenta os
resultados do projeto Expedição Permanente à Amazônia (EPA), liderado por
Vanzolini. Com apoio da FAPESP, além de descrever várias novas espécies,
Vanzolini contribuiu para a formulação da Teoria dos Refúgios.
Frequentemente, Vanzolini
convidava artistas para participar da viagem, entre eles, José Cláudio da
Silva, que retratou a flora e fauna numa coleção de cem óleos sobre tela que
hoje integra o acervo do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. A exposição dá
acesso a documentos, fotos e imagens das expedições de Vanzolini, às obras de
José Cláudio da Silva e traz entrevistas com o zoólogo Miguel Trefaut Rodrigues sobre
a Teoria dos Refúgios.
Trefaut dirigiu o Museu de
Zoologia da Universidade de São Paulo (1997-2001) e trabalha em pesquisas na
Amazônia desde 1978. Realizou expedições à região por mais de 40 anos, também
com o apoio da FAPESP, várias delas documentadas na exposição.
A primeira parte traz ainda
entrevista com Naercio Menezes, especializado em ictiologia. Ele foi
estagiário no Museu de Zoologia sob a orientação de Vanzolini e participou das
primeiras pesquisas de campo, nos anos 1960.
Amazônia:
pesquisa acima do dossel da floresta
O segundo capítulo tem foco nas
pesquisas acima do dossel das árvores, que buscam entender o papel da floresta
no equilíbrio climático e os riscos que o desmatamento e emissões de dióxido de
carbono (CO2) trazem para a vida no planeta.
Carlos Nobre,
catedrático do Instituto de Estudos Avançados da USP e copresidente do Painel
Científico para a Amazônia, conta, em entrevista, a criação, em 1996, e os resultados
do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), que
envolveu pesquisadores brasileiros, norte-americanos e de cinco países
europeus. O objetivo foi estudar em profundidade o funcionamento e a interação
de todos os componentes do ecossistema amazônico – atmosfera, solos, rios,
flora, fauna e seres humanos. A geofísica Maria Assunção Faus da Silva Dias, pesquisadora da USP, que coordenou o Centro de Previsão de Tempo e
Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe),
descreve em entrevista – e mostra em fotos – o ambiente e os desafios de
campanhas de medições intensivas do programa LBA no Pará e em Rondônia.
No mesmo capítulo, Paulo Artaxo,
professor titular do Instituto de Física da USP e membro do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), lembra da campanha GOAmazon (Green Ocean Amazon), em 2013, dos primeiros
Projetos Temáticos da FAPESP de pesquisa na região, do desafio de reduzir
emissões de gases de efeito estufa e da urgência de se adotar uma economia de
baixo carbono para estabilizar a mudança climática (leia mais em: agencia.fapesp.br/18691).
David Lapola,
pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à
Agricultura da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), detalha o
experimento AmazonFACE, que investiga como o aumento de CO2 atmosférico
afeta a floresta amazônica, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que
ela fornece à humanidade. O experimento tem apoio do Reino Unido, do Ministério
da Ciência, Tecnologia e Inovação e da FAPESP (leia mais em: agencia.fapesp.br/32279).
Os impactos do desmatamento e
da mudança do clima são analisados por Thelma Krug, líder do Conselho Científico da COP30, e as estratégias de fomento da
FAPESP para a pesquisa na região são descritas por Marcio de Castro, diretor científico da Fundação.
A
transformação da floresta
O terceiro capítulo homenageia
o trabalho de pesquisadores pioneiros, como Luiz Hildebrando (1928-2014), Erney
Camargo (1935-2023), Bertha Becker (1930-2013) e Warwick Kerr (1922-2018), que
abriram caminho para o avanço do conhecimento e para a implementação de
políticas públicas na região, e se dedica às pesquisas mais recentes,
realizadas abaixo do dossel da floresta.
Eduardo Neves, diretor
do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, explica como a ciência e as novas
tecnologias – como o LiDAR (Light Detection and Ranging) – lançaram luz
no protagonismo dos povos da floresta, que, ao longo de milênios, criaram a
Amazônia que conhecemos atualmente.
O terceiro capítulo também
trata do avanço das pesquisas na área de geologia na Amazônia que, há 20 anos,
tinham foco na exploração econômica, com perfurações de solo em busca de
jazidas de gás e petróleo, na busca de reservas minerais e no potencial
hidrelétrico dos rios e que, mais recentemente, passaram a investigar a própria
formação de solos, rochas e rios da Amazônia e sua interação com o meio aéreo e
os seres vivos sob o ponto de vista ecológico.
Quem fala sobre essa mudança
é André Sawakuchi,
professor do Instituto de Geociências da USP, que trabalha no Projeto de
Perfuração Transamazônica (TADP, sigla para Trans-Amazon Drilling Project), um Temático da
FAPESP que tem como objetivo compreender como a formação geológica da Amazônia
contribuiu para que ela se tornasse o local com a maior biodiversidade do
mundo.
Carlos Américo Pacheco, que foi
diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, fala sobre
a Amazônia +10 – uma iniciativa proposta pela FAPESP e encampada pelo Conselho
Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e pelo Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que apoia projetos
de pesquisa em colaboração, voltados à conservação da biodiversidade e
adaptação às mudanças climáticas, à proteção de populações e comunidades
tradicionais, aos desafios urbanos e à bioeconomia como política de
desenvolvimento econômico para a região.
Em 2021, durante a COP26 de
Glasgow, a FAPESP anunciou a criação de um consórcio envolvendo o Estado de São
Paulo e os nove estados da Amazônia Legal (por isso, Amazônia+10) para a
realização de pesquisas científicas na região. Diante do sucesso, o programa
foi assumido pelo Confap e hoje conta com a participação das Fundações de
Amparo à Pesquisa (FAPs) de 25 unidades da Federação.
O terceiro capítulo trata,
ainda, da inclusão econômica dos povos da floresta e da complementaridade entre
saberes. A antropóloga Manoela Carneiro da Cunha, em
entrevista, alerta que a visão da ciência sobre a realidade da Amazônia não
pode prescindir do ponto de vista da população que nela vive, diálogo
necessário que traz novos e importantes desafios para o campo da pesquisa.
A exposição se encerra com as
expectativas de Krug e Nobre (leia entrevista nesta
edição de Agência FAPESP) sobre a COP30, de que os debates avancem das negociações formais para
ações efetivas, com protagonismo dos países em desenvolvimento.
A exposição virtual Ciência
na Amazônia: história, desafios e descobertas pode ser vista em: https://centrodememoria.fapesp.br/exposicoes/ciencia-na-amazonia/.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/centro-de-memoria-fapesp-lanca-exposicao-virtual-ciencia-na-amazonia-historia-desafios-e-descobertas/56379

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