Efeitos colaterais
podem incluir problemas neuropsiquiátricos e aumento de risco de tentativa de
suicídio
Manuela Merolli
Desde sua introdução revolucionária em 1950, a
pílula anticoncepcional oral combinada tornou-se uma opção de contracepção
amplamente utilizada por inúmeras mulheres em todo o mundo. Além de fornecer um
método eficaz para evitar uma gravidez indesejada, os contraceptivos hormonais
oferecem uma variedade de benefícios, incluindo o tratamento de condições
ginecológicas, como endometriose, adenomiose, síndrome dos ovários policísticos
e distúrbios menstruais. No entanto, os recentes estudos levantam preocupações
sobre os efeitos neuropsiquiátricos associados aos medicamentos, revelando que
podem ser mais comuns do que se imaginava.
A associação entre o uso da pílula e os efeitos no
humor tem sido um tópico controverso e de interesse crescente. Enquanto
pesquisas anteriores não encontraram evidências claras de um impacto
significativo no bem-estar geral ou na depressão em mulheres que usam
contraceptivos orais combinados, novas investigações destacam a possível
ligação entre os anticoncepcionais hormonais e problemas neuropsiquiátricos.
“A relação exata dos contraceptivos com transtornos
de humor ainda é incerta, porém, atualmente alguns estudos têm apontado que a
incidência de problemas como depressão e ansiedade é maior em usuárias de
métodos contraceptivos hormonais”, explica Alexandra Ongaratto, médica
ginecologista, especializada em ginecologia endócrina e climatério, e Diretora
Técnica do primeiro Centro Clínico Ginecológico do Brasil, o Instituto GRIS.
“Tudo indica também que existe uma relação de dose/dependência do efeito”,
complementa.
Contracepção hormonal e
depressão
Uma pesquisa dinamarquesa publicada no JAMA
Psychiatry, que incluiu mais de 1 milhão de mulheres, encontrou uma associação
significativa entre o uso de contracepção hormonal e o uso de antidepressivos,
bem como o primeiro diagnóstico de depressão. Além disso, observou-se que os
adolescentes tinham uma taxa mais alta de primeiro diagnóstico de depressão e
uso de antidepressivos em comparação com mulheres de 20 a 30 anos.
Outras análises também identificaram preocupações sobre o uso prolongado de levonorgestrel – hormônio presente em muitos contraceptivos. A exposição prolongada ao hormônio foi significativamente associada à ansiedade e a problemas de sono, mesmo em mulheres sem histórico de problemas relacionados.
Risco de suícidio triplicado
Outro estudo, publicado no American Journal of
Psychiatry, encontrou um risco quase duas vezes maior de tentativa de suicídio
e mais de três vezes o risco de suicídio entre mulheres que tomam
contraceptivos hormonais em comparação com mulheres que nunca receberam esses
medicamentos.
No entanto, Alexandra adverte que ainda há lacunas
de conhecimento significativas nessa área, o que dificulta tirar orientações
definitivas. Segundo ela, as informações mais recentes sobre o uso de
medicamentos antidepressivos e ansiolíticos em mulheres em idade reprodutiva
são escassas e, em alguns casos, desatualizadas.
“A anticoncepção é uma grande aliada na vida da
mulher. Cabe ao médico responsável pelo tratamento ter sensibilidade de
individualizar a escolha do método mais adequado para cada paciente, pois um
hormônio ou tratamento que não é bom para um, pode ser ótimo para outro”,
ressalta a ginecologista.
Em meio a essas descobertas, é fundamental que as
mulheres tenham conhecimento dos possíveis efeitos neuropsiquiátricos ao
considerar o uso de contraceptivos hormonais, portanto, consultar um
profissional de saúde e tomar decisões informadas sobre a contracepção é
crucial para garantir a saúde e o bem-estar geral das mulheres.
“A pesquisa sobre o tema continua evoluindo, e é
essencial que a comunidade médica e científica continue investigando os riscos
e benefícios dos anticoncepcionais hormonais, fornecendo informações cada vez
mais precisas e desenvolvidas para ajudar as mulheres a tomarem decisões
assertivas sobre sua saúde reprodutiva”, finaliza Alexandra.
Instituto GRIS
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