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| O rio Negro registrou este mês o nível mais baixo da história (foto: Alex Pazuello/Secom) |
Região Norte do Brasil tem a pior estiagem do século, com sérios impactos climáticos, econômicos e sociais. Tema foi debatido em evento promovido pela FAPESP no dia 17 de outubro
A situação da Amazônia é
crítica: os Estados do Acre, Amapá, Amazonas e Pará tiveram os menores índices
de chuva desde 1980 entre os meses de julho e setembro. E o rio Negro registrou
este mês o nível mais baixo de água desde 1902, quando teve início a medição. A
mais intensa seca na região em cem anos é consequência da influência do
fenômeno El Niño, mas também há indícios de estar associada às mudanças
climáticas. A avaliação foi feita por especialistas que participaram do
webinário “Eventos Climáticos Extremos em Ano de El Niño”, promovido pela
FAPESP em 17 de outubro.
O El Niño é um fenômeno que
envolve alterações na temperatura do oceano Pacífico Tropical e no comportamento
da atmosfera e contribui para alterações nos ventos e na precipitação em várias
áreas do planeta. De modo geral, modifica o comportamento dos sistemas frontais
(sucessões de frentes), que se tornam mais frequentes e persistentes sobre a
região Sul, provocando ali um aumento das precipitações e diminuição das chuvas
nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.
“Em anos de El Niño, portanto,
o fenômeno costuma provocar chuvas abaixo da média na região da Amazônia, não
apenas no Amazonas, mas também nos outros Estados da região Norte, bem como na
região Nordeste”, explicou Regina Alvalá,
diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais
(Cemaden). “Neste ano, observamos ainda que os impactos do El Niño podem estar
combinados com a situação do oceano Atlântico Tropical Norte, que influencia no
aumento das chuvas acima do Equador, mas diminui ainda mais as precipitações na
Amazônia. Portanto, precisamos aprofundar os estudos para avaliar a associação
com as mudanças climáticas. A situação da escassez de chuvas precisa ser
acompanhada mês a mês, inclusive para subsidiar a adoção de ações adequadas
para mitigar os seus impactos.”
Regina Rodrigues, professora da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destacou um estudo recente que
estima perdas econômicas globais – considerando o Produto Interno Bruto (PIB)
de diversos países – de aproximadamente US$ 5 trilhões ao ano relacionadas aos
El Niños de 1982-1983 e 1997-1998, com efeitos que duram até cinco anos.
“Estamos caminhando para outro
evento desse porte”, alertou. “É importantíssimo frisar que, embora seja um
fenômeno natural do sistema climático, as mudanças climáticas decorrentes de
atividades humanas alteram sua frequência e intensidade. Estudos trazem
evidências de que haverá um aumento na magnitude dos El Niños”, disse
Rodrigues.
Na avaliação de Gilvan Sampaio,
coordenador-geral de Ciências da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe), há uma tendência bastante clara de os eventos extremos se
tornarem cada vez mais frequentes e intensos. “Estudos indicam que, até o fim
do século, viveremos em um clima de El Niño semipermanente”, afirmou.
“Estudos mostram que o
aquecimento da atmosfera se expande da região tropical para médias latitudes,
impactando o regime de chuvas”, reforçou Tércio Ambrizzi, coordenador do Grupo de
Estudos do Clima do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
da Universidade de São Paulo (IAG-USP).
O desmatamento da Amazônia
também agrava a seca, já que diminui a evapotranspiração, isto é, a emissão de
vapor d’água pela floresta, que forma as chuvas.
Outros aspectos importantes que
merecem atenção este ano na avaliação dos especialistas: antecipação da estação
seca, que costuma ocorrer entre novembro e março, para abril a outubro; excesso
de chuvas na região Sul, especialmente nos Estados do Rio Grande do Sul e de
Santa Catarina; e temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil.
Impactos
sociais e econômicos
A seca já impacta a população
local na Amazônia: comunidades ribeirinhas ficam isoladas por conta da
diminuição dos níveis dos rios; botos e peixes morrem em razão da temperatura
mais alta da água; a produção de energia elétrica é comprometida; e queimadas
prejudicam a qualidade do ar.
Embora as consequências
econômicas possam durar anos e se complicarem num futuro próximo, alguns
problemas são sentidos desde agora: em setembro, 79 municípios da região Norte
tiveram mais de 80% de suas áreas agrícolas afetadas, de acordo com o Cemaden.
Alvalá reforça também que a
navegabilidade dos rios vem sendo afetada, causando transtornos em uma região
que depende de navegabilidade para transporte de diversos insumos. Fabricantes
da Zona Franca de Manaus enfrentam dificuldades para receber componentes para a
produção e distribuição de produtos para o resto do país.
“Como não é possível garantir
que as chuvas voltarão a níveis normais, é preciso atuar na gestão da crise
imposta pela seca para diminuir seus impactos”, ponderou Alvalá. “Designar
equipes para a fiscalização das queimadas e o combate ao fogo contribui para
reduzir a poluição atmosférica que impacta a saúde das pessoas e,
consequentemente, reduz a demanda por insumos importantes para a área de
saúde”, exemplificou.
Embora esse tipo de ação
imediata pareça trivial, vale lembrar que a região da Amazônia se insere em uma
área de mais de 3 milhões de quilômetros quadrados, o que demanda ações
coordenadas envolvendo diversos órgãos e atores. Nesse sentido, Alvalá destacou
os esforços do governo federal, que tem organizado reuniões periódicas para
monitoramento da seca na região Norte e articulação e ações no âmbito do poder
executivo federal.
Os pesquisadores apontam a
necessidade de intensificar as estratégias de planejamento: “Temos um
conhecimento muito claro dos impactos climáticos e do ônus que o El Niño
ocasiona”, afirmou Ambrizzi. “Portanto, é possível se preparar com antecedência
de três a seis meses, especialmente no caso das defesas civis.”
Os cientistas ressaltaram a
importância de estratégias focadas no planejamento urbano, com planos diretores
mais eficientes, para que a população possa conviver com o clima mais seco nos
próximos anos.
Sampaio citou, por exemplo,
possíveis alterações nas variedades agrícolas cultivadas. “O plantio de milho e
feijão no Nordeste, que demanda quantidade considerável de água, provavelmente
precisará ser substituído.”
Difusão do
conhecimento
Promovido pela equipe do
Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG
https://mudancasclimaticas.fapesp.br/), o webinário analisou a intensificação
dos eventos climáticos extremos nas últimas décadas e sua associação com
fenômenos meteorológicos recorrentes, entre eles o El Niño.
Apresentado por Maria de Fátima Andrade,
membro da coordenação do PFPMCG, e moderado por Ambrizzi, o evento foi
transmitido pelo canal da Agência
FAPESP no YouTube.
Em sua apresentação, o
professor do IAG-USP Ricardo Trindade destacou
a importância estratégica do PFPMCG, que, há 15 anos, busca entender como as
alterações climáticas acontecem, como mitigá-las e qual é o papel do ser humano
nos eventos relacionados.
Outros palestrantes, além dos
já mencionados, foram Renata Tedeschi Coutinho,
pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale; e Marcelo Romero,
professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e membro do
Comitê de Mudanças Climáticas da Prefeitura do Município de São Paulo.
Eventos
extremos no Brasil e o impacto nas cidades
Gilvan Sampaio, que é autor de
uma série de livros sobre mudanças climáticas, e Renata Coutinho, que desde
2002 estuda a influência dos fenômenos El Niño e La Niña sobre a precipitação e
seus extremos na América do Sul, dividiram a apresentação, que comentou estudos
recentes sobre a importância do El Niño na situação climática extrema atual.
Trataram ainda do fenômeno chamado de “Super El Niño”, que deve ser o caso
deste ano, com anomalias da temperatura da superfície do mar acima de 2° C ou
mais.
Na sequência, Romero expôs o
painel “Medidas de mitigação e resposta a eventos extremos nas cidades”: “As
cidades são o local escolhido pela maior parte da população mundial para viver,
e essa tendência vem aumentando”, afirmou.
Romero chamou atenção para dois
relatórios elaborados pelo United Nations Environment Programme (Unep), o
programa para o meio ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU): o
primeiro sobre tendências do clima e medidas de mitigação, com destaque para
aspectos como energias renováveis (indústria, transporte, edifícios); e o
segundo sobre medidas de adaptação para tornar as mudanças climáticas menos
agressivas, sobretudo nos ambientes urbanos. E, considerando que o Acordo de
Paris dificilmente será cumprido, destacou a importância de medidas de crosscutting,
ou seja, que unem estratégias de mitigação e adaptação, como é o caso do
plantio de áreas verdes, restauração de rios e agricultura urbana.
Coube a Regina Alvalá
apresentar um panorama dos impactos dos eventos extremos mais recentes,
associados ao El Niño atualmente em curso. A pesquisadora citou números
alarmantes: “Entre os dias 1 e 4 de setembro, foram registrados aproximadamente
300 milímetros de chuvas, que impactaram 103 cidades da região do Rio Grande do
Sul. Isso é praticamente o dobro da média climatológica esperada para o mês de
setembro”.
Além disso, o Cemaden emitiu
para o mês de setembro 173 alertas, 75% deles para municípios da região Sul, e
registrou 194 eventos, dos quais 87% estavam associados a inundações e
deslizamentos de terra.
Alvalá trouxe ainda dados sobre
o monitoramento das condições atuais de seca, e sobre o risco de seca na
agricultura familiar, este incluindo a severidade e a vulnerabilidade
socioeconômica que varia de região para região (apesar de ser mais impactante
no Nordeste, também é significativa no Norte, mas menos expressiva no Sul);
sobre o volume de energia armazenada para diferentes sistemas de reservatórios
(diminuição do volume de energia armazenada nas regiões Norte e Nordeste e
aumento na região Sul); e sobre o risco de fogo, com mais de 340 municípios com
níveis de alerta alto.
O webinário Eventos
Climáticos Extremos em Ano de El Niño está disponível na íntegra
em: www.youtube.com/watch?v=_1ddjHDQhNk.
Julia Moióli
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/el-nino-mudancas-climaticas-e-desmatamento-cientistas-explicam-o-que-pode-estar-por-tras-da-seca-da-amazonia/50082

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