Com
três milhões de alunos, entre quatro e 17 anos, fora das escolas, o Brasil
dificilmente cumprirá a meta do Plano Nacional de Educação (PNE), definido na
Lei nº 13.005/2014, cujo prazo expira este ano, de universalizar o ensino nessa
faixa etária, conforme determina a Constituição. Como já não cumpriu o anterior
PNE (2001/2011), o problema, ao lado da caótica situação da saúde, é o mais
grave dentre os casos de desrespeito à Carta Magna, pois tem impacto direto no
futuro da infância e da juventude.
O
recém-divulgado Censo Escolar de 2015, ao revelar tais estatísticas, desmascara
o mito do “ensino para todos” e da “Pátria Educadora”, tema recorrente das campanhas
eleitorais. Analisando-se os dados, verifica-se que, dentre as causas da queda
do número de alunos no ano passado em relação ao anterior, não está apenas a
diminuição populacional de crianças e adolescentes, mas também o déficit de
matrículas e o abandono dos estudos.
A
situação é mais grave na Educação Infantil, na qual há 690 mil alunos
potenciais não atendidos, e no Ensino Médio, no qual 932 mil estudantes
deixaram os estudos. Isso mostra haver uma grande distância entre a realidade e
o discurso de que “existem vagas para todos” nas redes públicas. Não basta
construir escolas. É preciso propiciar boa formação e remunerar bem os
professores, qualificar os conteúdos e métodos e oferecer condições que
estimulem a matrícula e a frequência, como uma boa e nutritiva merenda, por
exemplo.
A
quantidade de crianças fora da Educação Infantil é um desafio para os prefeitos
que serão eleitos ou reeleitos nas eleições deste ano, considerando que essa
etapa escolar é fortemente atrelada à atribuição das prefeituras (senhores
prefeitos, lembrem-se das escoas de tempo integral). Os governos estaduais
devem olhar com mais atenção para a evasão acentuada no Ensino Médio, sob sua
responsabilidade. À União, conforme consta na Lei de Diretrizes e Bases,
compete, dentre outros compromissos, prestar assistência técnica e financeira
às demais unidades federativas para o atendimento prioritário à escolaridade
obrigatória.
Se
levarmos em conta, além do elevado número de crianças e adolescentes fora das
salas de aula, a questão da má qualidade da Educação Infantil, do Ensino
Fundamental e do Médio, veremos que o País relega o setor a segundo plano. Tal
negligência tem um alto e amargo preço, pois adia o nosso desenvolvimento e a
ascensão ao patamar de economia de renda elevada. Sem escolas boas para todos,
não há qualquer chance de darmos esse salto histórico.
A
precariedade da Educação Infantil reflete-se em toda a vida escolar, pois gera
déficit de aprendizado que se acumula no Ensino Fundamental e no Médio,
agravado pela qualidade baixa em todas as etapas e pela evasão. O problema
chega à universidade, na qual as lacunas no aprendizado prejudicam numerosos
alunos. Foi por isso que, como gestor de instituições privadas de Ensino
Superior, implantei modelo no qual, no início dos cursos, resgata-se o
conhecimento básico perdido ou mal assimilado nas fases anteriores.
Mesmo
em meio à grave crise político-econômica enfrentada pelo Brasil, cujas causas
são péssimos exemplos para a juventude, a melhoria radical da qualidade da Educação
Básica não deve mais ser adiada. Nossas crianças e jovens não podem continuar
reféns da paralisia do Estado e de promessas eleitorais descumpridas.
Antonio Carbonari Netto -
matemático pela PUC-Campinas, MBA em Gestão Universitária e Mestre em Administração,
Educação e Comunicação pela Universidade São Marcos, membro da Academia
Brasileira de Ciências da Administração e vice-presidente do Sindicato das
Entidades Mantenedoras de Ensino Superior do Estado de S. Paulo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário