
Estudo mostra que 7 em cada 10 adolescentes estão com déficit de sono;
especialistas advertem que dormir pouco traz consequências
negativas para a saúde e o aprendizado. Freepik
Privação
do sono traz consequências negativas para a saúde e o aprendizado; saiba os
perigos da “hiperconexão” noturna
Um estudo publicado pela revista científica Jama, realizado com 120 mil jovens americanos, revelou que 76,8% dos adolescentes sofrem de déficit de sono (dormem 7 horas ou menos por noite) e 25% dormem apenas 5 horas. Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) confirmam que metade dos jovens brasileiros também não atinge o descanso mínimo recomendado.
A pesquisa faz um alerta de que a falta
de sono na quantidade certa na adolescência tem se tornado o novo gatilho para
diferentes tipos de crises. O reflexo disso tem aparecido nos consultórios
médicos com problemas de saúde mental (aumento da ansiedade, irritabilidade,
tristeza e maior risco de depressão); cognição (dificuldade de atenção e
memória, queda no rendimento escolar) e saúde física (alterações no apetite,
risco aumentado de obesidade, doenças metabólicas e redução da imunidade).
Por que os jovens
estão dormindo menos?
Entre os principais fatores que levam os jovens a dormirem menos do que o necessário está o estilo de vida contemporâneo, que envolve o uso de telas e redes sociais à noite. Esses hábitos mantêm a atenção do usuário, estimulam o cérebro e dificultam o relaxamento necessário antes de dormir.
Rotinas intensas de estudos e
trabalhos, pressão acadêmica e social de estar sempre disponível e conectado,
falta de uma rotina estruturada, consumo de cafeína à noite, atividade física
no período noturno e a ausência de horários fixos para dormir e acordar também
contribuem para as poucas horas de descanso.
Falta de sono
desequilibra o “relógio biológico”
“De forma geral, adolescentes precisam de cerca de 8 horas de sono por noite, pois o sono é fundamental para o desenvolvimento psíquico saudável e para manter o bom funcionamento do organismo como um todo. Porém, não é só dormir, e sim ter condições de ter uma noite de sono de qualidade”, explica a coordenadora do curso de Psicologia do Centro Universitário Integrado de Campo Mourão (PR), Thais Carolina Ferreira.
A privação de sono desequilibra o ciclo circadiano, nosso “relógio biológico” interno que dura aproximadamente 24 horas e que “diz ao corpo” quando é o momento de dormir e acordar. Lilian Ferreira Shikasho, professora de Medicina da mesma instituição, detalha que esse ciclo coordena processos fisiológicos vitais, como a produção de hormônios (exemplo: melatonina para o sono e cortisol para o alerta), a temperatura corporal e a digestão.
Sincronizado principalmente pela luz solar, o ciclo circadiano, quando desalinhado, resulta em insônia, sonolência diurna excessiva, fadiga e prejuízo no aprendizado, já que o cérebro não consegue processar as informações recebidas durante o dia.
Problemas persistentes de sono devem ser
avaliados por um médico. A orientação profissional pode ajudar a identificar
causas e ajustar hábitos, geralmente sem necessidade de medicação, com foco em
mudanças comportamentais”, reforça Lilian.
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Como os pais podem ajudar
Para Marcela Ribeiro Antunes, coordenadora pedagógica do Ensino Médio e Ensino Bilíngue do Colégio Integrado, os pais e responsáveis devem ajudar os adolescentes a estabelecerem uma boa rotina, mas a abordagem não deve ser apenas proibitiva.
Ela explica que o adolescente ainda não possui maturidade cerebral plena para gerenciar suas escolhas de forma consistente, por isso os pais devem:
· Construir
acordos: Em vez de apenas impor regras, é importante conversar
e ouvir o que o jovem busca nas telas (afeto, pertencimento ou fuga).
· Dar o
exemplo: Adultos hiper conectados dificilmente conseguirão
convencer os filhos a se desligarem.
· Estabelecer
limites: Definir horários para o desligamento digital,
preferencialmente retirando os aparelhos do quarto durante a noite.
Guia da higiene do
sono em casa
Para melhorar a qualidade do descanso,
as três educadoras recomendam a “higiene do sono” residencial, um tipo de
checklist composto por um conjunto de hábitos que sinaliza ao cérebro que é
hora de repousar:
1) O ambiente
ideal
Conforto: O quarto deve ser escuro, silencioso e com temperatura
agradável.
Uso restrito: A cama deve ser usada apenas para dormir (evite estudar ou
ver TV).
Desligamento
digital: Celulares e tablets devem ficar fora
do quarto de 1 a 2 horas antes de deitar. Isso funciona como uma barreira de
autocontrole contra o impulso de usar o aparelho na madrugada.
2) O ritual de
desaceleração
Crie um hábito: Um banho morno, leitura de livro físico ou música calma
ajudam o corpo a reconhecer os sinais de descanso.
Regra dos 30
minutos: Se não conseguir pegar no sono em até
30 minutos, levante-se, vá para outro cômodo com luz baixa, faça uma atividade
relaxante e só volte para a cama quando o sono surgir.
3) Hábitos
noturnos (O que evitar)
Estimulantes: Evite café, chás pretos, refrigerantes e chocolate pelo
menos 6 horas antes de dormir.
Refeições pesadas: Prefira lanches leves para evitar desconforto digestivo.
Conteúdos densos: Evite filmes ou jogos que causem grande impacto emocional
antes de deitar.
4) Hábitos diurnos
(O que incentivar)
Luz solar: Exponha-se à luz do sol pela manhã para regular o ritmo
biológico.
Atividade física: Pratique exercícios, mas evite atividades intensas de 3 a
4 horas antes de deitar.
Cochilos: Se necessários, devem ser curtos (20 a 30 minutos).
Consistência: Dormir e acordar em horários semelhantes, inclusive nos
fins de semana.
“Mais do que proibir o uso de telas à
noite, o objetivo é ensinar o adolescente a entender que o sono é vital para a
saúde. Dormir bem é parte do desenvolvimento, da aprendizagem e do equilíbrio
emocional”, conclui Marcela Ribeiro Antunes.

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