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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Mais renda e menos desigualdade para os brasileiros

No último dia 8 de maio, o IBGE revelou ao país duas notícias contraditórias. A primeira: a renda média do brasileiro teve um significativo aumento, gerando entusiasmo e comemorações no alto escalão do governo e ganhando destaque na grande imprensa, sobretudo nas principais redes de TV. A segunda: a desigualdade voltou a crescer, evidenciando que as políticas públicas não tiveram êxito na distribuição de renda.   

De fato, a renda média domiciliar per capita em 2025 foi de R$ 2.264,06 (cerca de 1,5 salário-mínimo da época), representando um aumento real de 6,9% em relação ao ano anterior. Se considerada apenas a renda do trabalho, o crescimento foi de 5,5%, atingindo o valor de R$ 3.560,00/mês (cerca de 2,3 salários-mínimos).   

Isso seria motivo de comemoração real se tivesse vindo acompanhada de uma outra notícia anunciando melhor distribuição de renda. Foi, no entanto, justamente o contrário: o país registrou um decepcionante aumento da concentração de renda. Ou seja, as desigualdades sociais avançaram em ritmo mais acelerado do que o crescimento da renda média na nação. O contraste avançou e foi decorrente dos aumentos dos privilégios para os poderosos.    

O abismo da desigualdade, uma das maiores mazelas nacionais, está escancarada nos dados oficiais de 2025. Esses dados apontam que os 10% de brasileiros mais ricos tiveram crescimento de 8,7% em suas rendas, atingindo R$ 9.117,00/mês, o equivalente a 6 salários-mínimos, aproximadamente. Por outro lado, os 10% mais pobres tiveram um aumento diminuto, de 3,1%, com renda chegando a apenas R$ 268,00/mês. Triste realidade.   

Outro dado importante: os 40% mais pobres ficaram com a renda média per capita 13,8 vezes menor que a dos 10% mais ricos. Em valores nominais, a diferença é de R$ 661,00/mês para R$ 9.117,00/mês entre esses dois grupos.   

O reflexo imediato desses dados está no Coeficiente de Gini, indicador que reflete a desigualdade socioeconômica dos países, mensurando a distribuição de renda entre as populações. No Brasil, esse índice saltou de 0,504, em 2024, para 0,511 em 2025, evidenciando considerável aumento da concentração de renda. Mais uma evidência de que o governo fracassou.   

É importante também analisar o panorama internacional e histórico. Em maio de 2026, o Brasil — 10ª maior economia do mundo — ocupa a vergonhosa 5ª pior posição no ranking dos países mais desiguais do mundo, segundo o World Inequality Report 2026.   

O indicador de riqueza aponta que, no Brasil, pelos 10% mais ricos da população detêm 59,1% da renda nacional. Os 50% mais pobres detêm apenas 9,3%. Quando se trata da riqueza total (patrimônio/imóveis), a discrepância é ainda maior, pois os 10% mais ricos detêm 70% da fortuna da população nacional.  

Em termos de concentração de renda, o Brasil fica atrás apenas de nações com disparidades extremas, como África do Sul, Namíbia, Botsuana e Colômbia. Os indicadores revelam que os governos das últimas três décadas reeditaram as "Capitanias Hereditárias", criando uma divisão entre "donatários" (donos do poder e das riquezas) e "vassalos" (os 50% mais pobres, sem direitos, sobrevivendo com muito pouco).  Eis a prova de que as políticas econômicas das últimas três décadas fracassaram e os governantes – sem exceção – foram reprovados, merecendo cartão vermelho. 

O grande físico alemão Albert Einstein disse que “insanidade é fazer as mesmas coisas repetidamente e esperar resultados diferentes". Ele estava certo e sua teoria explica muito da situação vivida pelo Brasil.   

O desastre das últimas décadas é a consequência do gigantismo do Estado e da irresponsabilidade fiscal dos governantes, aprovada pelo Congresso e tolerada pelo Judiciário e pelo Tribunal de Contas da União, apesar da exclusão do arcabouço fiscal nos últimos 4,5 anos atingir R$ 170 bilhões. 

Os números não mentem. Os gastos primários da União representam 34% do Produto Interno Bruto (PIB). O déficit primário, permanente nos últimos três anos, chegou a r$ 61,7 bilhões no último ano e o déficit nominal já corresponde a quase 9% do PIB, superior a R$ 1,10 trilhão/ano. Além disso, o déficit previdenciário também é gigante e não para de subir.   

A consequência é o crescimento anual da dívida pública, já próxima de 80% do PIB, consumindo somente em juros (à taxa Selic de 14,5%) o equivalente ao montante superior a R$1,15 trilhão/ano. Este é o preço da irresponsabilidade fiscal.   

Com a máquina pública inchada – sem que isso corresponda à eficiência- os gastos com o funcionalismo equivalem a 13,5% do PIB (dado de 2025), muito acima da média da Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cujos países integrantes gastam menos de 10% do PIB com esse setor.  Some-se a isso a gestão desastrosa das estatais, nas quais há muito tempo vigora o critério partidário vale muito mais que a competência e experiência para a ocupação dos cargos diretivos.

Há que se considerar ainda a má gestão. Os cargos comissionados custam R$ 41,60 bilhões por ano e o Brasil tem 53.500 servidores recebendo acima do teto constitucional, ao custo anual de R$ 11,20 bilhões no total. O desperdício é estimado em 3,5% do PIB, o correspondente a R$ 445 bilhões/ano. Esse valor equivale a 2,5 vezes o orçamento anual do Sistema Único de Saúde (SUS).

 O cenário também é agravado pela corrupção e pela certeza da impunidade. O Brasil ocupa a 108ª posição no Ranking de Percepção da Corrupção, elaborado pela Transparência Internacional. Significa dizer que, hoje, 107 países têm setor público mais honesto do que o do Brasil, que perde com essa prática criminosa e recorrente o correspondente a 2,5 A 3% do PIB. algo em torno de R$ 325 bilhões a R$ 400 bilhões por ano. (suficiente para construção de mais de 1,0 milhão de unidades habitacionais anualmente). 

Para melhorar a distribuição de renda e alcançar justiça social o Brasil precisa adotar medidas drásticas que não podem mais ser adiadas, tamanho o estrago que vêm produzindo. Uma delas é implantar mecanismos eficazes de combate à corrupção, incluindo alterações legislativas para classificar como hediondos os crimes de corrupção, sem direito à progressão de pena e com prisão imediata após condenação em segunda instância.   

É igualmente fundamental cumprir a Emenda Constitucional n°109/2021, de 15/03/2023, a qual determina a redução das renúncias fiscais, limitando-as a 2% do PIB (hoje ultrapassa 5% do PIB), ou seja, a diferença de 3% do PIB é da ordem de R$ 390 bilhões/ano. Mas não é só. Essa medida precisa ser acompanhada do enxugamento do Estado brasileiro, para que ele volte a “caber no PIB”. A economia possível somando-se o combate à corrupção e a redução de desperdícios e do gigantismo da máquina somaria R$ 1,20 trilhão anualmente, o equivalente a quase 30% da arrecadação tributária nacional (mostrando que a carga tributária se eliminados esses privilégios, poderia ser reduzida a 24% ao invés de 34% do PIB (2025). 

Impõe-se, ainda, a revisão do salário-mínimo com a alteração da fórmula de reajuste para evitar perdas reais. Estima-se que 63 milhões de pessoas (aposentados, cidadãos que dependem do Benefício de Prestação Continuada e trabalhadores) perderam renda devido às políticas atuais. Também é preciso corrigir o valor do Bolsa Família pelo índice da inflação, pois a perda do período sem reajuste já soma 12,38%.   

Se permanecer buscando as mesmas soluções para os velhos problemas, o Brasil continuará servindo o “banquete estatístico”, metáfora criada pelo economista, professor e ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen (1935-1997). Dizia ele que se em um local há duas mesas gigantes, uma com 100 pessoas comendo caviar, escargot e filé mignon e bebendo vinho francês (tíquete de R$ 10.000,00) e outra com outras 100 pessoas comendo arroz com farinha (tíquete de R$ 10,00), a "média" indicará um belo banquete de R$ 5.005,00 para todos. Mas nessa situação hipotética, metade dos comensais sai da mesa com fome. 

  É uma bela lição para um país que, além de tudo, ainda tem 10 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever e 29% de analfabetos funcionais. São cidadãos que ninguém enxerga porque há outras preocupações maiores: a garantia de penduricalhos para engordar os holerites, driblando o teto constitucional, a farra das emendas parlamentares e a velha prática do tomalá-dá-cá para assegurar a reeleição. As narrativas cada vez mais se sobrepõem às verdades e a honestidade no poder passa ser raridade. 

A situação só se agrava porque o governo vem sistematicamente tirando renda da população, além de negar-lhe educação e segurança. O futuro é sombrio e a esperança vai-se esvaindo. Somente um estadista, com um novo olhar e um plano de metas equilibrado e viável, pode mudar o rumo desse país que, apesar do gigantesco potencial, continua patinando em velhas práticas, com resultados pífios para os cidadãos.    

 

Samuel Hanan - engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva” e “Caminhos para um país sem rumo”. Site: https://samuelhanan.com.br   

  

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