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terça-feira, 26 de maio de 2026

O Brasil está pronto para a inclusão de riscos psicossociais na NR-1?

Com vigência a partir de maio de 2026, as novas atualizações da Norma Regulamentadora nº1 (NR-1) exigem a inclusão dos fatores de riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais. Essa alteração impactará significativamente o planejamento das empresas, visto que apenas 44% das organizações afirmam já ter realizado esse mapeamento, como aponta a Pesquisa Nacional sobre a Maturidade no Combate ao Assédio no Brasil – Panorama 2026.

 

Em um cenário global, a legislação trabalhista brasileira demonstra grande maturidade no plano de gerenciamento de riscos biológicos, inclusive superior à de muitos países do hemisfério norte. No entanto, foi apenas com a atualização da NR-1 que o Brasil se aproximou de regulamentações psicossociais de nações com legislações mais robustas e abrangentes sobre saúde e bem-estar dos colaboradores.
 

Mapeamento de riscos psicossociais

A NR-1 é a principal norma brasileira que serve como referencial para as regras de segurança e saúde no trabalho, direcionando o planejamento de um ambiente empresarial seguro para os colaboradores. A diretriz consiste em passos de identificação e avaliação de riscos para planejamento de ações preventivas e de mitigação, registradas por meio do do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), documento que formaliza a gestão de riscos ocupacionais. 

Com a inclusão do mapeamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho, a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego vai exigir um registro documentado de análise e gerenciamento desses riscos aos quais os colaboradores estão expostos. Em um primeiro momento, as sanções para as empresas consideradas irregulares poderão ser mais brandas. 

Contudo, as auditorias ficarão mais minuciosas e podem gerar aumentar o grau das penalidades, inclusive acarretando na inviabilização da operação em casos graves. Além das consequências operacionais e eventuais multas, a inclusão de fatores psicossociais afeta a variação do fator acidentário de prevenção, medido de acordo com o nível de incidentes e adoecimento da empresa, impactando os custos das organizações.
 

Maturidade das empresas brasileiras

A atualização da NR-1 aumentou a atenção para o tema e destacou uma lacuna importante de gestão dentro das companhias, segundo a 8ª edição da Pesquisa Inteligência Emocional e Saúde Mental no Ambiente de Trabalho, realizada pela The School of Life Brasil em parceria com a Robert Half, 35% dos líderes não têm conhecimento básico para apoiar as empresas no cumprimento das novas exigências. 

Atualmente, uma das maiores dificuldades de adaptação das organizações está na compreensão do que caracteriza um risco psicossocial e como mensurá-lo da maneira adequada. Muitas vezes, o conceito é confundido com suas próprias consequências, associando-se diretamente com burnout e ansiedade, que, na realidade, são desdobramentos de riscos que deveriam ter sido identificados e tratados anteriormente. 

A principal diferença entre empresas maduras e reativas consiste na maneira como a saúde ocupacional é incorporada à organização. Enquanto empresas mais maduras adotam uma abordagem integrada e contínua, alinhada à cultura organizacional e à saúde holística, empresas reativas tendem a trabalhar a questão em formatos mais fragmentados. 

Embora a legislação brasileira seja robusta, sua estrutura trata separadamente cada cenário, assumindo riscos e desfechos fixos e contínuos. Com a atualização da NR-1 e a inclusão da saúde mental, esse modelo passa a exigir das companhias maior integração entre indicadores e estratégias de gestão para alinhar-se à complexidade dos riscos psicossociais. 

Esta readequação demanda um trabalho de base de formação de gestores e colaboradores para compreensão da gestão da saúde ocupacional a partir desta nova perspectiva. O estudo conduzido pela The School of Life Brasil indica, ainda, que apenas 27% dos gestores afirmaram acreditar que as companhias em que atuam estão “bem” ou “totalmente” preparadas e estruturadas para lidar com o tema. 

Nesse contexto, as empresas precisam acelerar essa inserção de práticas e processos que já deveriam fazer parte da sua cultura organizacional. No entanto, essa transformação não ocorre de imediato, exige-se um planejamento de integração contínua entre diferentes áreas e níveis das organizações.
 

Integração entre setores

Levando em consideração as demandas criadas com as recentes mudanças regulatórias, os setores de Recursos Humanos e Segurança do Trabalho vão protagonizar o processo de adaptação das companhias, além de serem responsáveis por comunicar e inserir todas as partes envolvidas na transição. 

Aplicando métricas adequadas e realizando as mensurações corretamente, as novas diretrizes permitem a esses profissionais reimaginar os fluxos de trabalho, ampliando significativamente o potencial de inovação das áreas. 

Em muitos casos, estes departamentos atuam em modelo protocolar. Entretanto, a implementação das novas estruturas, aliada à coleta e à análise dos dados, exigirá uma adaptação operacional relevante, na qual as áreas precisarão desempenhar um papel mais ativo na condução da transição, atuando como agentes de integração, mediação e direcionamento estratégico. 

Em paralelo à mobilização do RH e da segurança do trabalho, a liderança possui o papel de assegurar a adaptação da cultura organizacional com sensibilização entre todos os elos da cadeia e permitir atualizações orçamentárias para reorganização e aprimoramento de fluxos de trabalho.
 

Processo de conformidade

Entre os principais obstáculos encontrados no processo de adequação das novas exigências, destaca-se o diagnóstico dos riscos psicossociais, uma vez que não é possível gerenciar aquilo que não se consegue medir. Há, ainda, uma dificuldade na diferenciação de fatores de saúde mental relacionados às esferas pessoal e profissional. 

Mesmo que esta primeira barreira seja superada, é necessário compreender como administrar e traduzir os dados recolhidos para gestão de projetos de intervenção ou adaptação de operações. Esse cenário de necessidade pode gerar tokenismo, prática superficial de coleta e mensuração de dados, apresentando um compliance adequado para vistorias, mas que, na realidade, não gera resultados palpáveis e não é, de fato, internalizado na cultura organizacional da empresa. 

Sendo assim, apenas uma adoção transversal de identificação e medidas práticas entre todas as áreas e hierarquias promoverá uma adaptação ética e em compliance com a legislação, impactando, inclusive, indicadores financeiros. 

Nesse sentido, parâmetros de felicidade no trabalho estão diretamente relacionados à produtividade e ao valuation da empresa. Companhias do S&P 500 que estão entre as 20% com maior nível de felicidade dos funcionários superaram aquelas nos 20% inferiores em quase 6% no desempenho das ações ao longo de um período de 11 anos, como aponta estudo da Irrational Capital

A fim de evitar tokenismo e promover uma adaptação consistente às novas exigências da NR-1 relacionadas a riscos psicossociais, as organizações podem contar com mecanismos de suporte nesse processo, como consultorias especializadas e softwares e ferramentas de gestão de dados. Esses recursos auxiliam na tomada de decisão, fortalecem a conformidade com a norma e contribuem para a adoção de práticas alinhadas aos pilares Social e de Governança do ESG, além de favorecerem a promoção da saúde e do bem-estar dos colaboradores.

 

Helyn Thami - CEO da HT Consultoria, empresa que transforma a cultura de saúde e bem-estar no maior propulsor dos negócios, utilizando tecnologia, metodologias ágeis e inteligência de dados.


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