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| Floresta intacta no Estado do Amazonas: áreas desse tipo são as maiores provedoras de serviços ecossistêmicos na Amazônia (foto: Cássio Alencar Nunes/Lancaster University) |
Florestas
primárias, que nunca foram desmatadas, são as principais guardiãs da
biodiversidade amazônica, mesmo que já tenham sido afetadas por queimadas ou
corte seletivo de árvores, segundo um estudo conduzido por pesquisadores do
Brasil e do Reino Unido. Os cientistas compararam o impacto de atividades
humanas sobre a diversidade de plantas de diferentes composições florestais ao
longo do tempo na Amazônia e concluíram que as florestas primárias sempre
abrigam uma quantidade maior de espécies do que aquelas que se regeneraram
depois de terem sido derrubadas no passado.
O estudo reforça a importância
de se frear o avanço do desmatamento na Amazônia – ao mesmo tempo em que se
incentiva a regeneração de áreas anteriormente desmatadas –, já que as
florestas secundárias não chegam a repor por completo a biodiversidade das
matas originais que foram perdidas, segundo os pesquisadores. Os resultados
foram divulgados na revista Global Change Biology.
Os pesquisadores catalogaram
cerca de 55 mil árvores em duas regiões do Pará, situadas nos municípios de
Paragominas e Santarém, representando quatro tipos de florestas: 1) primárias
que não sofreram distúrbios; 2) primárias que tiveram corte seletivo de árvores
(quando são retiradas apenas espécies de maior valor comercial); 3)
primárias que sofreram corte seletivo e queimadas; e 4) florestas secundárias,
resultantes da regeneração natural de uma área que sofreu corte raso – ou seja,
que foi totalmente desmatada anteriormente.
Os cientistas mediram a
diversidade das árvores de três formas diferentes: focando nas espécies, nos
grupos funcionais – mensurando características como espessura da casca,
densidade da madeira e tamanho da folha – e nas linhagens evolutivas. Além
disso, avaliaram a diversidade separando as árvores em grandes e pequenas.
Quando comparados os dados
entre as áreas, conclui-se que as modificações humanas explicam 55% da variação
na diversidade de espécies e 42% da diferença na composição das comunidades de
árvores. A forma como se mede a diversidade (espécies, grupos funcionais ou
linhagens evolutivas) e o tamanho das árvores explicam apenas cerca de 5% das
diferenças entre florestas.
“Por mais que as florestas primárias
degradadas sejam menos diversas e tenham um apanhado de espécies diferentes
daquelas que não sofreram impactos, elas são muito mais diversas do que as
florestas secundárias. Estas vão demorar séculos para ter árvores de grande
porte e os serviços ecossistêmicos fornecidos por essas espécies”,
explica Cássio Alencar Nunes, pesquisador da Universidade de
Lancaster, no Reino Unido, e da Universidade Federal de Lavras (UFLA).
A Amazônia abriga até 16 mil
espécies de árvores. Um único hectare frequentemente contém mais de 300. Em
comparação, toda a Europa tem cerca de 450 espécies nativas de árvores.
Nunes coordenou o trabalho com
outra cientista brasileira no Reino Unido, Erika Berenguer,
pesquisadora das universidades de Lancaster e de Oxford. Berenguer monitora as
áreas analisadas no estudo desde 2010.
“Nossos resultados mostram que,
quando se trata de compreender as influências humanas sobre as florestas
tropicais, não importa se a abordagem é para medir perda de espécies, de
funções ecológicas ou linhagens evolutivas. As influências humanas são tão
profundas que todas essas medidas estão mudando”, explica Berenguer em um
comunicado da Universidade de Lancaster.
O trabalho teve apoio da FAPESP
por meio do projeto “ECOFOR: Biodiversidade e funcionamento de ecossistemas em áreas alteradas
pelo homem nas Florestas Amazônica e Atlântica”, no âmbito do
Programa BIOTA.
“O estudo demonstra que é
preciso continuar investindo em restauração e na proteção das florestas secundárias,
uma vez que qualquer área com remanescentes florestais contribui muito mais com
os serviços ecossistêmicos do que áreas sem floresta. No entanto, os resultados
mostram com bastante clareza que as florestas primárias são imprescindíveis e
precisam ser conservadas, mesmo que já tenham sofrido distúrbios”, avalia Carlos Joly,
professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador
do projeto e coautor do estudo.
Florestas
para sempre
Durante a Conferência do Clima
da Organização das Nações Unidas (COP30) ocorrida em Belém, em novembro de 2025,
estabeleceu-se o TFFF,
um fundo global para o financiamento da conservação das florestas tropicais.
Para os autores do estudo, mecanismos do tipo são essenciais para oferecer
condições para que as florestas sejam conservadas em vez de derrubadas para a
exploração de atividades econômicas que contribuem para o agravamento das
crises climática e da biodiversidade.
A comparação entre florestas
intocadas e que sofreram distúrbios realizada no estudo aponta que mesmo a
exploração seletiva de madeira, tida como uma forma de manejo sustentável, tem
impactos profundos na diversidade das árvores.
Assim, mecanismos como o TFFF
são importantes para garantir a conservação, independentemente de ganhos
econômicos possíveis nessas áreas, ainda que ditos sustentáveis, segundo
Berenguer.
“Embora o foco da COP30 tenha
sido principalmente o carbono, é essencial vincular as discussões climáticas à
biodiversidade se quisermos superar as crises climática e de biodiversidade. Em
última instância, é a biodiversidade que garante a provisão de serviços
ecossistêmicos, inclusive o sequestro e o armazenamento de carbono”, afirma a
pesquisadora.
O artigo Multifaceted
assessment of amazonian tree diversity reveals pervasive impacts of human
modification pode ser lido em: onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/gcb.70595.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/mesmo-impactadas-florestas-primarias-ainda-sao-principal-fonte-de-biodiversidade-na-amazonia/58170

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