Especialista explica os impactos econômicos e fiscais
A captura do
presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças ligadas
ao governo dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald
Trump, inaugura um novo capítulo de instabilidade geopolítica
na América do Sul, om reflexos que vão muito além das fronteiras da Venezuela.
Para o Brasil, os impactos econômicos podem não ser imediatos em termos de PIB,
mas são relevantes quando observados pelos canais de energia, comércio
exterior, migração, câmbio e risco institucional.
Embora a
Venezuela não seja hoje um dos principais parceiros comerciais brasileiros, o
episódio eleva o grau de incerteza regional e exige atenção do governo, das
empresas e dos investidores.
Petróleo,
inflação e o risco de volatilidade
O primeiro canal
de transmissão econômica é o energético. A Venezuela possui uma das maiores
reservas de petróleo do mundo, mas sua produção vem sendo limitada por sanções,
falta de investimentos e deterioração da infraestrutura.
No curto prazo,
a captura de Maduro tende a elevar o prêmio de risco no mercado internacional
de petróleo. “Mesmo que a produção venezuelana atual seja relativamente baixa,
qualquer evento que gere instabilidade em países produtores afeta expectativas
e contratos futuros”, explica André Charone, professor
universitário e mestre em Negócios Internacionais.
Para o Brasil,
isso pode significar pressão adicional sobre os preços dos combustíveis, com
reflexos diretos na inflação e, indiretamente, na política monetária. “Em um
país onde logística e transporte têm peso relevante nos custos, a volatilidade
do petróleo sempre chega ao consumidor final”, destaca Charone.
No médio prazo,
o cenário se bifurca: uma eventual transição política com reabertura econômica
pode atrair investimentos internacionais e aumentar a oferta global de
petróleo, ajudando a reduzir preços. Já uma escalada de conflitos internos ou
novas sanções pode produzir o efeito contrário.
Comércio
bilateral: impacto concentrado, mas sensível
Do ponto de
vista do comércio exterior, a Venezuela representa uma parcela pequena da
corrente total brasileira, mas é estratégica para estados do Norte, como
Roraima e Amazonas. Exportações brasileiras de alimentos, produtos
industrializados leves e bens de consumo dependem fortemente da estabilidade
logística e institucional venezuelana.
“A instabilidade
política tende a afetar pagamentos, seguros, transporte e contratos”, afirma
Charone. “Para grandes números macroeconômicos, o impacto é limitado, mas para
empresas regionais pode ser significativo.”
Em um cenário de
normalização política, o Brasil poderia inclusive ampliar exportações para
suprir déficits internos venezuelanos. No entanto, esse é um movimento que
exige previsibilidade jurídica, algo ausente em momentos de ruptura
institucional.
Migração
e custos fiscais
Um dos efeitos
mais diretos para o Brasil está no fluxo migratório. A intensificação da crise
venezuelana pode aumentar a entrada de refugiados pelo Norte do país,
pressionando sistemas de saúde, assistência social, educação e segurança
pública.
“O custo fiscal
não aparece imediatamente no PIB, mas pesa nos orçamentos locais e federais”,
observa Charone. Ao mesmo tempo, ele pondera que, com políticas adequadas de
interiorização e integração ao mercado de trabalho, parte desse impacto pode
ser revertida em dinamização econômica no médio prazo.
Câmbio,
investimentos e percepção de risco
A captura de um
chefe de Estado em exercício também acende alertas nos mercados financeiros
globais. Em momentos assim, investidores tendem a reduzir exposição a ativos de
países emergentes, buscando proteção em moedas fortes e títulos considerados
seguros.
Para o Brasil,
isso pode se traduzir em pressão temporária sobre o câmbio, aumento do custo de
capital e maior cautela em investimentos estrangeiros diretos, especialmente
aqueles voltados à América do Sul.
“Não é um choque
estrutural para o Brasil, mas eleva o ruído em um momento em que o país busca
atrair capital e consolidar credibilidade fiscal”, avalia Charone.
Um
choque mais político do que econômico, por enquanto
Na avaliação
geral, a captura de Maduro representa um evento de alto impacto político e
simbólico, com efeitos econômicos indiretos para o Brasil. O tamanho desses
efeitos dependerá menos do episódio em si e mais do que vem depois: transição
negociada, escalada de conflitos ou prolongamento da instabilidade.
“O Brasil não é
protagonista direto desse episódio, mas está na zona de influência”, conclui
André Charone. “Em um mundo cada vez mais interconectado, choques políticos
regionais rapidamente se transformam em variáveis econômicas que precisam ser
monitoradas.”
Para empresas,
investidores e formuladores de política pública, o recado é claro: o caso
Venezuela voltou ao radar, e seus desdobramentos podem custar caro se forem
subestimados.
André Charone - contador, professor universitário, Mestre em Negócios Internacionais pela Must University (Flórida-EUA), possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV (São Paulo – Brasil) e certificação internacional pela Universidade de Harvard (Massachusetts-EUA) e Disney Institute (Flórida-EUA). É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional. Seu mais recente trabalho é o livro "Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática", em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional.
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e digital: https://play.google.com/store/books/details?id=nAB5EQAAQBAJ&pli=1
Instagram: @andrecharone
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