Saúde mental é um fenômeno multifatorial, atravessado por
dimensões sociais, emocionais, econômicas e relacionais. Ainda assim, 30% dos
brasileiros afirmam não adotar nenhuma iniciativa para cuidar do próprio
equilíbrio psíquico, segundo o Check-up de Bem-Estar 2025, levantamento
conduzido pela Vidalink. Apesar da relevância do tema, o debate público costuma
se concentrar em sintomas, diagnósticos e estratégias de enfrentamento
emocional. Este artigo propõe ampliar essa abordagem ao destacar uma dimensão pouco
nomeada: a saúde cognitiva como base invisível da saúde mental no trabalho e na
aprendizagem.
No cotidiano profissional contemporâneo, um elemento silencioso
tem intensificado o mal-estar: o desgaste provocado por ambientes de excesso.
Não se trata apenas de exaustão emocional. Observa-se sobrecarga mental
persistente, decisões tomadas de forma automática e experiências de
aprendizagem que não se transformam em compreensão. A produção segue, mas à
custa de um funcionamento mental tensionado e pouco sustentável.
A análise parte do campo da aprendizagem, do trabalho do
conhecimento e do desenho de contextos que exigem pensamento, escolha e
adaptação contínuos. Não se trata de uma leitura clínica ou terapêutica. O foco
está em compreender como organizações mal estruturadas, associadas ao uso pouco
reflexivo da tecnologia, comprometem o funcionamento cognitivo e, por
consequência, fragilizam o equilíbrio psíquico no dia a dia profissional.
A neurociência contribui para esse entendimento ao demonstrar que
o cérebro humano não foi projetado para operar sob fragmentação permanente.
Atenção é um recurso finito, decisões sucessivas consomem energia mental e
aprender exige tempo para consolidação. Quando esses limites são
desconsiderados, até pessoas qualificadas, engajadas e resilientes entram em
estado de esgotamento. Nesse contexto, mais relevante do que acumular
competências rapidamente superadas é investir naquelas que permanecem ao longo
do tempo: pensamento crítico, capacidade decisória e, sobretudo, metacognição,
a habilidade de reconhecer como se pensa, aprende e escolhe. Essas capacidades
não eliminam todos os fatores que impactam o bem-estar psicológico, mas
preservam algo essencial: autonomia no uso das próprias faculdades mentais.
Atualizar-se é necessário. Aprimorar a forma de pensar é
estratégico. Nesse sentido, valorizar fortalezas individuais não se confunde
com discursos simplificadores de positividade ou autoajuda. Trata-se de uma
estratégia cognitiva objetiva. Atuar a partir dos próprios pontos fortes reduz
atrito mental, evita esforço desnecessário e amplia a percepção de competência
e controle. Em contextos complexos, alinhar o modo de funcionamento mental às
exigências do trabalho pode ser determinante para sustentar aprendizado,
desempenho e bem-estar ao longo do tempo.
O Janeiro Branco pode, portanto, ser também um convite à
consciência sobre como a mente é utilizada. Cuidar do equilíbrio psicológico
envolve diversas frentes, e uma delas passa por gerir melhor a atenção,
qualificar processos decisórios e estruturar contextos de trabalho e
aprendizagem compatíveis com os limites cognitivos humanos. Não se trata de
silenciar o cérebro, mas de acioná-lo com mais intenção, um cuidado discreto,
porém estruturante, para atravessar tempos de excesso sem perder o essencial.
A seguir, alguns exemplos cotidianos de como escolhas
aparentemente banais impactam o bem-estar no trabalho e nos processos de
aprender:
- Iniciar o dia reagindo a e-mails e mensagens, acumulando
desgaste sem avançar no que é prioritário;
- Participar de reuniões extensas em que decisões relevantes
ficam para o final, quando a atenção já se encontra comprometida;
- Consumir cursos, podcasts e conteúdos curtos de forma
contínua, resultando em saturação, não em assimilação;
- Tomar decisões rápidas e sucessivas guiadas pela urgência,
acumulando fadiga decisória;
- Atuar fora das próprias fortalezas cognitivas, com alto gasto
de energia e baixo impacto;
- Manter a atenção fragmentada por notificações e múltiplas
abas abertas, elevando o custo mental das tarefas.
No contexto da educação e da aprendizagem organizacional, aprender
vai além do simples acesso a conteúdos, uma vez que exige intenção. Diante de
rotinas marcadas pelo excesso de estímulos e pela pressa, torna-se fundamental
adotar pequenos ajustes, como foco, pausas e encerramento consciente de
aprendizados, que preservam a intencionalidade no uso da mente e ajudam a
integrar o cuidado com o bem-estar no trabalho, em sintonia com a proposta do
Janeiro Branco.
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