O
Gartner IT Symposium deste ano cravou o novo jargão do mercado: a IA não é mais
sobre produtividade, é sobre valor sustentável. Essa transição — da ambição do
CIO em 2023, passando pelo 'stack' tecnológico de 2024, até a busca por ROI em
2025 — expõe a falha central na estratégia da maioria das empresas. Estamos
obcecados em plugar a IA na operação para 'capturar valor', mas estamos
falhando em redesenhar a organização em torno dela. E é essa falha que
transforma a pergunta 'o que restará para os humanos?' no maior desafio de
business da próxima década.
Essa falha
de business que apontei fica explícita quando analisamos os debates que
dominaram o evento. O alardeado descompasso entre a prontidão da IA e a
capacidade humana de captar valor não é um gap de treinamento, é um gap de
estrutura. As discussões sobre governança, custos ocultos e ROI negativo são
apenas os sintomas dessa doença organizacional. Não me surpreende que 72% dos
CIOs tenham perdido dinheiro com IA, ou que apenas 11% dos CFOs vejam um ROI
claro. Estamos tentando encaixar uma força transformadora em caixas
organizacionais obsoletas e medindo seu sucesso com os KPIs de eficiência do
passado.
Essa
falha estrutural alimenta diretamente a principal angústia dos líderes: 71% dos
CIOs sentem que suas equipes não estão prontas para a IA. O mercado, então,
corre para a solução mais óbvia: o letramento corporativo. Claro que
treinamentos são relevantes, mas isso é tratar apenas o sintoma, não a causa. A
preocupação com a 'atrofia de habilidades' é real, mas ela surge porque estamos
tentando plugar IA em cargos e processos do passado.
Isso
nos leva de volta à questão central: o que restará para os humanos?. A resposta
que domina o mercado em geral é perigosamente simplista: o trabalho estratégico
e criativo. Existe essa ideia de que basta a máquina assumir o operacional para
que os humanos magicamente assumam a estratégia. Mas esse lugar estratégico não
é um porto seguro. A mesma IA que hoje executa tarefas operacionais está
rapidamente se tornando uma poderosa ferramenta de análise e recomendação
estratégica. A atrofia de habilidades que deveríamos temer não é apenas da
operação, como também da própria estratégia.
O Gartner
também trouxe projeções importantes, como a estimativa de que 75% do trabalho
de TI será aumentado por IA até 2030, ou de que 500 milhões de novos empregos
líquidos podem surgir até 2036. Esses dados nos oferecem um horizonte otimista.
O risco, no entanto, é interpretar esse cenário como uma simples demanda por
desenvolvimento de habilidades — o que, como vimos, é tratar o sintoma, não a causa.
O verdadeiro desafio estratégico é outro: esses 500 milhões de novos cargos não
se encaixarão nos organogramas que temos hoje. O 'humano aumentado' não precisa
apenas de letramento, precisa de um novo design de cargo, de métricas de
performance redefinidas e de ecossistemas de decisão adaptados a essa nova
colaboração entre humano e máquina.
O
grande debate do Gartner neste ano foi que os CIOs precisam de estratégias para
lidar com a mudança fundamental na forma como humanos e IA trabalharão juntos
até 2030, enfrentando o "paradoxo da capacidade extra" e garantindo
que o valor seja demonstrado. Neste caso, então, o que restará para os humanos?
A resposta não é, como o consenso sugere, apenas a 'conectividade humana' ou a
'narrativa'. O que resta para nós é o papel mais complexo e essencial: o de
arquiteto do ecossistema de negócios.
Enquanto
a IA assume a execução — da operação e, como vimos, de partes da própria
estratégia — o valor humano se desloca para o design desse sistema. O que resta
é definir as métricas de sucesso que ainda não existem, questionar os modelos
de decisão da IA e, acima de tudo, redesenhar cargos, processos e estruturas
para alavancar um 'humano aumentado' que ainda nem conseguimos definir.
Portanto, a pergunta que o Gartner inspira não é 'o que vai sobrar para nós?'.
A verdadeira questão estratégica é: quem terá a coragem de redesenhar a organização
primeiro?
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