Nas últimas semanas, o Oriente Médio tornou-se o foco da atenção internacional em função dos ataques terrorista do Hamas à Israel, provocando um conflito de grandes proporções com potencial impacto em importantes atores no mercado mundial de petróleo.
Embora qualquer guerra no Oriente Médio seja uma
ameaça potencial à segurança do abastecimento de petróleo, uma guerra que
envolva um produtor da dimensão do Irã e/ou países do Golfo Pérsico, poderá ter
implicações ainda mais profundas para o mercado global de petróleo. Certamente,
nenhuma dessas implicações é positiva.
De fato, o setor pode enfrentar um risco
significativo na oferta a depender da escalada dos conflitos. Entretanto, pelo
menos por hora, em função dos recentes cortes na produção para manutenção dos
preços de petróleo em patamares desejáveis pela OPEP+ (Organização dos Países
Exportadores de Petróleo e aliados liderados pela Rússia) – na faixa de US$ 80
a US$ 90 – os principais produtores do grupo parecem estar mais bem equipados
para resistir ao choque, se comparado com crises anteriores.
Desta forma, depois de reduzir a produção de
petróleo para sustentar os preços, a Arábia Saudita e os seus aliados da OPEP+
dispõe de uma elevada reserva técnica de capacidade de produção de petróleo. De
acordo com a EIA (US Energy Information Administration) é a maior capacidade
ociosa em mais de uma década, estimada em cerca de 4 MM bpd (milhões de barris
por dia), ou seja, aproximadamente 4% da oferta global.
Portanto, os países da OPEP+ buscam manter a
produção de petróleo abaixo do consumo global. Com isto, esperam obter uma
pressão ascendente sobre os preços, com o objetivo de aumentar a média para
cerca de US$ 95 por barril em 2024. Isto posto, importante considerar que a
guerra pode alterar significativamente as condições de oferta a depender da
amplitude e duração do conflito – tudo indica que deve continuar intenso e,
possivelmente, se agravar dependendo do envolvimento de outros países.
No momento, o principal ponto a observar é se o Irã
vai se envolver direta ou indiretamente, especialmente em razão de o país deter
o controle do chamado Estreito de Ormuz que, diariamente, escoa cerca de 17 MM
bpd, o que representa 17% da demanda global (projeção OPEP 2023: 102 MM bpd) e
cerca de 90% do petróleo do Oriente Médio que transita no Golfo Pérsico.
Outro acontecimento importante e que pode
influenciar a oferta no médio/longo prazo, é que os EUA levantaram a maioria
das sanções ao setor energético da Venezuela durante seis meses, abrindo,
assim, caminho para exportações adicionais de petróleo bruto pesado que o país
produz. Entretando, no curto prazo, em função de anos de subinvestimento e má
gestão do setor no país, devem limitar o crescimento da produção de petróleo
bruto a menos de 200 mil barris por dia (mbd) até ao final de 2024, exigindo
mais tempo e investimento para crescimento adicional da oferta.
As importações de petróleo bruto dos EUA
provenientes da Venezuela pararam pouco depois de janeiro de 2019, quando os
Estados Unidos impuseram sanções à empresa petrolífera estatal Petróleos de
Venezuela SA (PdVSA). Os EUA aliviaram essas sanções no fim do ano passado,
proporcionando isenções à Chevron para que esta pudesse retomar a exportação de
petróleo bruto das suas operações de joint venture na Venezuela para as
refinarias da Costa do Golfo dos EUA, que foram reiniciadas no início de 2023.
Neste contexto, o mercado global de petróleo deverá
permanecer extremamente tensionado, e ainda mais incerto em função dos
conflitos no Oriente Médio. Espera-se que a Arábia Saudita cumpra as quotas de
produção reduzidas que acordou com os seus parceiros do grupo OPEP+, pelo menos
até o final do primeiro trimestre de 2024. Portanto, é pouco provável que OPEP+
aumente a produção de forma acentuada durante o resto do ano. Além disso, o
mercado espera atingir um patamar de produção histórico, estimado em 102
milhões de barris/dia em 2023, e a procura global de petróleo deverá aumentar
em cerca de mais 1,3 milhões de barris/dia em 2024.
O mundo já vinha enfrentando uma crise energética
de grandes proporções, especialmente em função da guerra entre Rússia e
Ucrania, desafios no controle da inflação e elevados preços da energia
pós-pandemia com repercussão relevante na segurança e transição energética dos
países. E, para agravar ainda mais, surge a guerra no Oriente Médio que está
limitada a Israel, Faixa de Gaza e sul do Libano, ainda sem impacto direto na
oferta de petróleo. Contudo, pode haver maior amplitude na região, afetando de
forma significativa o mercado de energia no mundo.
Assim, pelo menos por enquanto, as principais
agências de informações do setor esperam que os preços do barril de petróleo
fiquem na faixa de US$ 80-100/barril com volatilidade elevada. Porém, se a
guerra Israel-Hamas se transformar em um conflito regional e/ou ameaçar o escoamento
do petróleo pelo Golfo Pérsico, o mercado deverá enfrentar uma jornada bem mais
difícil, com muita volatilidade e forte elevação dos preços.
Em meio a tantas adversidades externas, o Brasil se
encontra numa posição favorável para enfrentar os desafios do momento.
Primeiro, por estar longe da região de conflito; segundo, por ser um exportador
de petróleo em ascensão e com grande potencial de estar entre os cinco maiores
produtores até 2030.
Somado a isso, o país possui uma enorme diversidade
de fontes de energia renováveis e abundância de recursos naturais. Desta forma,
o Brasil reúne muitos elementos que propiciam uma maior resiliência em relação
aos impactos resultantes das guerras na Europa e no Oriente Médio no
médio/longo prazo e, mais importante, pode contribuir para amenizar os efeitos
da crise energética no mundo.
No entanto, no curto prazo, especialmente na
hipótese de uma escalada nos conflitos, o Brasil, por ser importador líquido de
derivados (principalmente diesel, gasolina, nafta, QAV e GLP), pode sofrer os
efeitos adversos e indesejáveis, resultado de uma grande elevação dos preços do
petróleo.
O momento requer cautela e urge uma compreensão
mais ampla dos efeitos da crise, com a necessidade eminente em se estabelecer
um plano de contingência nacional, evitando potenciais descontinuidade no
suprimento de combustível e mitigando os efeitos das variações nos preços para
o setor produtivo e para a sociedade. A grande pergunta é: estamos preparados?
O governo, agências reguladoras e a Petrobras precisam assumir a liderança para
garantir o abastecimento nacional, ampliando assim a segurança energética no
país.
Nenhum comentário:
Postar um comentário