Preconceito e saúde mental masculina são barreiras na
busca por diagnóstico e tratamento de câncer de próstata
Campanha Novembro Azul leva
conscientização sobre câncer de próstata e cuidados de saúde do homem
O preconceito e a falta de cuidados com a saúde mental estão entre
as principais barreiras para que homens busquem diagnóstico e tratamento para
doenças que acometem esse público, como o câncer de próstata. Acompanhamento
psicológico e psiquiátrico e incentivos para que os mais jovens se habituem a
procurar ajuda médica mais cedo estão entre as ações elencadas por
especialistas que podem ajudar a mudar esse cenário.
O tumor de próstata é o tipo de câncer que mais causa a morte de
homens no país -- são cerca de 16 mil óbitos por ano, segundo dados do Inca
(Instituto Nacional do Câncer). Estimativas da instituição apontam o surgimento
de aproximadamente 72 mil novos casos da doença por anos em 2024 e 2025.
Os números, porém, podem não contar a história completa da doença
no Brasil, uma vez que há muita subnotificação, dizem especialistas do Hospital
Alemão Oswaldo Cruz.
“O preconceito está atrelado a características específicas da própria
investigação do quadro, como o exame de toque retal”, diz o Dr. Alaor Carlos de
Oliveira Neto, coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo
Cruz. Para ele, o exame, que permite detectar alterações na próstata, causa
rejeição por levantar questionamentos sobre virilidade e masculinidade.
“De uma maneira geral, estamos, hoje, muito menos machistas e
preconceituosos com relação à sexualidade masculina do que já fomos, mas ainda
há comportamentos que refletem o preconceito”, acrescenta.
As consequências do tratamento, como as possíveis implicações
sexuais, também colaboram para essa reação negativa.
Para o psiquiatra, campanhas de conscientização, como o Novembro Azul,
que mobiliza organizações de diversos segmentos para sensibilizar a população
com relação ao câncer de próstata e aos cuidados da saúde masculina, ajudaram a
diminuir a recusa pelo exame de toque e pela busca de outros cuidados médicos
nos últimos anos.
“Mas ainda há um impacto significativo desse preconceito em
pessoas mais velhas, que é o grupo de risco para o câncer de próstata”, afirma
Oliveira Neto. Para evitar o mesmo problema com as novas gerações, o médico diz
que educar os mais jovens a entrar em contato com os médicos mais cedo,
levando-os a cuidarem mais ativamente da própria saúde, pode ajudar a prevenir
problemas graves no futuro.
Outra causa apontada pelos especialistas para essa rejeição é que,
no passado, os procedimentos eram mais invasivos e os efeitos colaterais eram
mais prevalentes. Hoje, novas técnicas, como a cirurgia robótica, ajudaram a
diminuir o desconforto do tratamento e a aumentar a qualidade de vida dos
pacientes em recuperação, ressalta o médico.
Segundo o Dr. Carlo Passerotti, urologista e cirurgião do Centro
Especializado em Urologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o uso da cirurgia
robótica na especialidade trouxe benefícios como diminuição de incontinência
urinária e impotência sexual, além de uma recuperação mais rápida após o
procedimento.
O receio que muitos homens têm do resultado de uma consulta ou um
exame é outro fator que pode gerar sofrimento e que faz com que muitos diagnósticos
sejam feitos tardiamente, diz o Dr. Ariel Kann, head do Centro Especializado em
Oncologia Clínica no Hospital Alemão Oswaldo Cruz. A descoberta do tumor feita
em estágios mais avançados diminui as chances de sucesso de tratamento.
“O homem tende a negligenciar um pouco a saúde e, muitas vezes, a
mulher ou as filhas atuam como sentinelas, contando ao médico os sinais que
percebem, como a urina fora do vaso ou mudanças na forma de andar e se sentar.
Como médicos, prestamos atenção ao que elas falam”, conta o médico.
“Percebemos que este homem é o líder da família, tenta não
demonstrar fraqueza e pensa que precisa estar sempre forte. Assim, a revelação
vem por uma filha ou pela esposa”, acrescenta. “A primeira mensagem é: não
espere ter sintomas para ter um diagnóstico de câncer de próstata. Quando
surgem sintomas, a situação é mais grave”, completa.
Para possibilitar a detecção precoce, a recomendação é que homens
de 50 anos ou mais façam todos os anos os exames de toque retal e PSA – teste
de sangue que pode detectar alterações na próstata. Homens de algum grupo de
risco, como os que têm histórico familiar da doença e pessoas negras, devem
iniciar o rastreio aos 45 anos, explica Passerotti.
Quando o diagnóstico é feito ainda nos estágios iniciais da
doença, as chances de cura chegam a 90%.
Durante o tratamento, um cuidado multidisciplinar, que conta com
profissionais como psicólogos, psiquiatras e fisioterapeutas, pode aliviar o
sofrimento do paciente e garantir maior qualidade de vida.
“É muito comum o desenvolvimento do transtorno de ajustamento, ou
de adaptação, em um quadro oncológico. Diante de uma nova realidade imposta,
não desejada, as repercussões em relação ao futuro, à finitude, impactam
diretamente a saúde mental do indivíduo”, afirma Oliveira Neto. Assim,
exacerbação de sintomas de humor e ansiedade podem aparecer.
“Essa população tem um risco maior de surgimento de
desenvolvimento de quadros psíquicos. Isso deve ser acompanhado, porque
prejudica diretamente o tratamento clínico. Pacientes com depressão tendem a
ficar mais tempo em internação em decorrência do câncer”, conclui.
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
Link