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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O que acontece no seu cérebro quando você sente gratidão e por que a ciência está tão interessada nisso

A gratidão parece simples demais para justificar tanta atenção científica. No entanto, quando observamos seus efeitos no cérebro, percebemos que ela está longe de ser apenas um gesto simbólico. “A literatura dos últimos anos mostra que a gratidão é uma das práticas psicológicas mais consistentes para promover regulação emocional, estabilidade mental e bem-estar sustentado. Direcionar a atenção para experiências positivas, mesmo que discretas, modifica circuitos neurais envolvidos em percepção de valor, motivação e conexão social”, diz a neurocientista Daiana Petry. 

Embora historicamente vinculada a tradições filosóficas e religiosas – como o Dia de Reis 06 de janeiro - a gratidão passou a ser investigada pela neurociência com métodos modernos, como a ressonância magnética funcional (fMRI). “Esses estudos revelam que a experiência da gratidão recruta redes cerebrais específicas. Entre as regiões mais frequentemente ativadas está o córtex pré-frontal medial, responsável por processos como avaliação moral, percepção de significado e construção da identidade. Outra área-chave é o córtex cingulado anterior, que participa do monitoramento de conflitos internos e da regulação emocional. Essa combinação sugere que a gratidão não se limita a uma resposta emocional agradável, mas envolve reconhecimento de vínculos e interpretação social, componentes importantes para a saúde mental”, fala a especialista.

Os efeitos não são apenas momentâneos. Ensaios longitudinais mostram que práticas regulares, como escrever listas ou cartas de gratidão, continuam produzindo redução de estresse, ansiedade e sensação de isolamento semanas após o exercício. Esses resultados se alinham ao que observamos bioquimicamente: a gratidão estimula a liberação de dopamina e serotonina, neurotransmissores associados à motivação e equilíbrio emocional, ao mesmo tempo em que reduz a ativação da amígdala e a produção de cortisol, hormônio relacionado ao estresse crônico.

É importante notar o contraste: estados como preocupação, medo e autocrítica tendem a hiperativar sistemas de vigilância neural. “A gratidão, por sua vez, ativa um circuito antagônico, fortalecendo regiões do córtex pré-frontal envolvidas em tomada de decisão, controle inibitório e organização cognitiva. Com a prática repetida, o cérebro passa a interpretar experiências com mais flexibilidade e menos reatividade, um exemplo concreto de neuroplasticidade aplicada ao cotidiano”, fala Daiana.
 

Onde entra o olfato e por que ele potencializa estados como a gratidão

Para a neurociência, o olfato ocupa um lugar particular. Diferentemente de outros sentidos, a informação olfativa alcança diretamente estruturas límbicas, como a amígdala, o hipocampo, cingulado anterior e regiões do córtex pré-frontal, sem passar pelos filtros do tálamo. Isso confere aos aromas a capacidade de modular, em poucos segundos, estados emocionais, níveis de atenção e padrões autonômicos.

Pesquisas utilizando EEG e outros marcadores psicofisiológicos indicam que odores naturais como lavanda, sândalo e limão podem alterar padrões de ondas cerebrais relacionados a alerta, relaxamento e foco cognitivo. Essas mudanças ocorrem nas mesmas redes que participam dos processos envolvidos na gratidão, como regulação emocional, percepção de valor e integração sensório-afetiva.

“Em termos práticos, a aromaterapia não “produz” gratidão. Mas ela pode facilitar o estado interno necessário para que práticas de gratidão sejam mais acessíveis: maior presença, redução da hiper-reatividade emocional, sensação de segurança e abertura para reconhecer aspectos positivos já presentes na experiência”, fala a aromaterapeuta Daiana Petry.

Mais do que alterar o ambiente externo, a gratidão modifica a forma como o cérebro interpreta e responde ao mundo. Em um contexto cotidiano marcado por excesso de estímulos, comparações constantes e instabilidade, cultivar a gratidão e utilizar ferramentas sensoriais que favorecem estados de regulação emocional pode ser uma das estratégias mais acessíveis e sustentáveis para promover saúde mental de longo prazo.

 

 



Daiana Petry @daianagpetry - Aromaterapeuta, perfumista botânica, naturóloga e especialista em neurociência. Professora dos cursos de formação em aromaterapia, perfumaria botânica e psicoaromaterapia. Autora dos livros: Psicoaromaterapia, Cosméticos sólidos e Maquiagem ecoessencial. 
Fundadora da Harmonie Aromaterapia.
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Referências:

Fox GR, Kaplan J, Damasio H, Damasio A. Neural correlates of gratitude. Front Psychol. 2015 Sep 30;6:1491. doi: 10.3389/fpsyg.2015.01491. PMID: 26483740; PMCID: PMC4588123.

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Kupers R, Dousteyssier O, Delforge J, Gonnot V, Kantono K, Blerot B, Pêtre A, Dricot L, Heinecke A. Long-lasting effects of lavender exposure on brain resting-state networks in healthy women. Front Neurosci. 2025 Jun 10;19:1555922. doi: 10.3389/fnins.2025.1555922. PMID: 40556871; PMCID: PMC12186306.


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