Resultados de pesquisa mostram
que o delta glicêmico está associado à magnitude do ataque cardíaco e à perda
de força de contração do coração. O infarto agudo do miocárdio é a maior causa
de mortes no Brasil
Pesquisa avaliou 244 indivíduos atendidos no Hospital São Paulo
Brgfx/Freepik
Níveis elevados de glicose
podem funcionar como um biomarcador para indicar um pior desfecho em pacientes
que tiveram o primeiro infarto agudo do miocárdio, aponta pesquisa realizada
por cientistas brasileiros.
O estudo demonstrou que a
variabilidade glicêmica, particularmente o delta glicêmico, está associada ao
tamanho do infarto e à redução da fração de ejeção do ventrículo esquerdo
(FEVE). Essa fração mostra a força de contração do coração – reduzida, leva à
insuficiência cardíaca.
Com base em uma amostra de 244
indivíduos atendidos no Hospital São Paulo, o trabalho concluiu que quanto
maior o delta glicêmico, pior o dano miocárdico, independentemente de o
paciente ter diabetes ou não. O delta é obtido a partir do cálculo da glicemia
de admissão – medida na chegada ao hospital – menos a glicemia média estimada
dos últimos meses, baseada na hemoglobina glicada obtida por meio de exame de
sangue.
Para avaliar a perda de músculo
e danos no coração foi realizada ressonância nuclear magnética 30 dias após o
infarto. Fazem parte do grupo de estudo cientistas do Departamento de Medicina
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do Instituto Dante Pazzanese,
do Hospital Israelita Albert Einstein e da Université Laval (Québec). Os
resultados do trabalho foram publicados na revista Diabetology &
Metabolic Syndrome.
“Os achados nos surpreenderam
e, pelo que pesquisamos na literatura, foram inéditos. Eles abrem uma série de
portas para estudarmos mais a fisiopatologia dos pacientes que tiveram infarto
do miocárdio”, afirma à Agência FAPESP o cardiologista
Henrique Tria Bianco, professor da Unifesp e autor correspondente do artigo.
O trabalho recebeu apoio da
FAPESP por meio de um Projeto Temático (12/51692–7), sob orientação do professor da Unifesp Francisco Antonio Fonseca com a participação da pesquisadora Maria Cristina Izar. Ambos também assinam o artigo.
“Por meio de um exame simples,
barato e que quase todos os pacientes fazem, que é a hemoglobina glicada para
admissão hospitalar, acabamos tendo um biomarcador fácil de se obter e com
implicações importantes. Ou seja, o paciente que tem um delta maior apresentará
maior massa infartada e vai precisar de uma proteção miocárdica – tanto em
relação à glicemia como, por exemplo, ao uso de betabloqueadores – para
melhorar o prognóstico”, diz Fonseca.
O infarto agudo do miocárdio é
a maior causa de mortes no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde,
estima-se de 300 mil a 400 mil casos anuais, sendo que de cada cinco a sete
registros ocorre um óbito. Também conhecido como ataque cardíaco, é
caracterizado pela morte de células do músculo do coração por causa da formação
de coágulos que interrompem o fluxo sanguíneo de forma súbita e intensa. Entre
os sintomas estão dor ou desconforto no peito, podendo irradiar para as costas,
rosto e braço (mais comum para o esquerdo). A dor costuma ser intensa e
prolongada, acompanhada de sensação de peso ou aperto sobre o tórax, provocando
suor, palidez, falta de ar e sensação de desmaio. Para diminuir o risco de
morte, o atendimento precisa ser feito nos primeiros minutos.
“Padrão-ouro”
A amostra incluiu pacientes
maiores de 18 anos que receberam fibrinolítico (medicamento para dissolver
o trombo que está causando infarto) em até seis horas do início dos sintomas.
Eles foram atendidos em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) que fazem
parte da rede desse tipo de tratamento e depois transferidos para o Hospital
São Paulo, da Unifesp. Havia indivíduos com diabetes, com pré-diabetes e sem
diabetes.
O tratamento considerado
“padrão-ouro” para o infarto inclui, em um primeiro momento, uma angioplastia
primária e a indução de fibrinólise.
Entre os submetidos ao
tratamento farmacoinvasivo, o delta glicêmico mais alto foi associado a um
infarto de maior tamanho e menor FEVE. “Temos agora um caminho a percorrer para
validar esses resultados em outras populações e verificar quanto impacta a
saúde do paciente”, explica Bianco.
Segundo os pesquisadores,
investigações futuras devem elucidar as vias moleculares e os mecanismos
celulares envolvidos nesse processo, além de buscar intervenções terapêuticas
direcionadas para mitigar os desfechos adversos em populações de alto risco.
Iniciado há dez anos, o estudo
analisou ainda dados relacionados à mortalidade dos pacientes. Os resultados
serão publicados futuramente.
O artigo Impact of
elevated glucose levels on cardiac function in STEMI patients: glucose delta as
a prognostic biomarker pode ser lido em https://dmsjournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13098-025-01738-0.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/variacoes-dos-niveis-de-glicose-podem-indicar-gravidade-de-dano-apos-infarto/55491
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