Infectologista Dra. Jessica Ramos apresenta orientações práticas para reduzir infecções em transplantados, pacientes oncológicos e pessoas com imunidade comprometida, preservando a qualidade de vida
Viver com imunossupressão exige atenção redobrada,
mas não precisa significar isolamento. À medida que avançam os transplantes e
as terapias oncológicas, cresce o número de brasileiros que precisam conviver
com maior vulnerabilidade a vírus, bactérias e fungos no cotidiano.
Nesse contexto, a infectologista Dra. Jessica Ramos apresenta um conjunto de
recomendações de fácil implementação em casa, no trabalho e em viagens para
reduzir o risco de infecções sem comprometer a rotina. “Prevenção eficaz é
gestão de risco, não vida de restrições. Quando priorizamos medidas de alto
impacto e desenhamos um plano com a equipe assistente, os sustos diminuem e a
autonomia aumenta”, afirma a médica.
As orientações partem de três frentes que se
complementam ao longo da jornada de cuidado: cuidado com o ambiente, proteção
das pessoas ao redor e planejamento. Em casa, vale padronizar a higiene das
mãos nos momentos críticos, reforçar a segurança dos alimentos (incluindo boa
higienização de frutas e verduras e cozimento adequado de ovos e carnes),
manter a geladeira na temperatura correta e evitar a contaminação cruzada de
superfícies.
Animais de estimação são compatíveis com o tratamento, desde que as tarefas de
limpeza, como a caixa de areia e o manejo de fezes, sejam preferencialmente
realizadas por outrem. Feridas e cateteres devem permanecer íntegros, limpos e
protegidos; dor, vermelhidão ou secreção exigem avaliação médica.
No trajeto e no ambiente de trabalho, a
recomendação é privilegiar locais ventilados e retomar o uso de máscara bem
ajustada em situações de maior risco, como espaços fechados e cheios,
especialmente na sazonalidade de vírus respiratórios. Consultas e exames
preferencialmente nos primeiros horários ajudam a evitar salas de espera
lotadas. Para deslocamentos, álcool em gel à mão e o cuidado de não levar as
mãos aos olhos, nariz e boca continuam sendo hábitos custo-efetivos.
A vacinação de conviventes, sejam pais, parceiros,
cuidadores e pessoas do mesmo domicílio, é peça central da estratégia conhecida
como cocooning. “Nem toda vacina é indicada para quem está
imunossuprimido, principalmente as vacinas vivas atenuadas; já nos conviventes,
a carteirinha em dia funciona como barreira adicional. É um gesto de proteção
coletiva que reduz a circulação de patógenos dentro de casa”, reforça a Dra.
Jessica. Para o paciente, a indicação de vacinas inativadas e o melhor timing
variam conforme a condição clínica, o tipo de tratamento e a fase do seu
tratamento imunossupressor; por isso, o calendário deve ser individualizado em
consulta.
Viagens demandam um breve check-up
operacional: checar com antecedência as vacinas indicadas (e as
contraindicadas), levar receitas atualizadas, manter uma reserva dos
medicamentos de uso contínuo, contratar seguro-saúde e listar unidades de
referência no destino. “Um plano A/B pactuado antes do embarque evita decisões
por impulso e reduz idas desnecessárias ao pronto atendimento”, diz a
especialista.
Por fim, reconhecer sinais de alarme e ter um
caminho de acesso rápido à equipe assistente faz diferença nos desfechos. Febre
persistente a partir de 38 °C, calafrios intensos, falta de ar, vômitos ou
diarreia com sinais de desidratação, dor ou secreção em feridas e cateteres,
confusão mental, dor de cabeça muito intensa e rigidez de nuca são exemplos que
exigem avaliação imediata. “Informação qualificada, combinada com rotinas
simples e previsíveis, é o que mais reduz risco e ansiedade para o paciente e
para a família. O objetivo é preservar saúde e, também, qualidade de vida”,
conclui.
Dra. Jessica Fernandes Ramos - graduada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Infectologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e doutorado em Ciências pela USP. Atualmente, a Dra. Jessica integra o Núcleo de Infectologia do Hospital Sírio-Libanês e é membro de importantes comitês de doenças infecciosas, como os da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH) e da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). Além disso, possui especializações em docência no ensino superior para Ciências da Saúde e diversos cursos de extensão, incluindo formações pela Harvard Medical School.
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