Paciente de 33 anos ignorou dor no quadril considerada passageira; a importância de consultar um especialista reforça o alerta sobre problemas de mobilidade em pessoas jovens, suas múltiplas causas e a necessidade de prevenção e tratamento precoce
Mesmo após o fim da fase mais aguda da pandemia, os impactos
indiretos da Covid-19 continuam a afetar a saúde das pessoas. Um deles é o
aumento de casos de osteonecrose da cabeça femoral, uma doença causada pela
morte do tecido ósseo devido à interrupção do fluxo sanguíneo na região. A
doença acomete mais frequentemente adultos entre 20 e 50[1] anos e tem como
manifestação mais comum a queixa de dor na região do quadril associado a
dificuldades de locomoção, sintomas até então mais associados ao
envelhecimento.
O uso prolongado de corticoide - amplamente
administrados durante a pandemia para o controle de processos inflamatórios -
tem sido apontado como um dos fatores que favorecem o surgimento da
osteonecrose[2,3~],. Além disso, a própria Covid-19, por seu potencial
pró-trombótico, pode contribuir para a formação de coágulos e obstrução dos
pequenos vasos sanguíneos que irrigam o osso.
Esse cenário é ilustrado pela história do anestesista
Robert Pouchain, de 33 anos. Em agosto de 2024, durante
um treino na academia, Robert começou a sentir dores no quadril que,
inicialmente, atribuiu à sobrecarga muscular. “A dor começou na academia, mas
depois apareceu também quando eu tocava bateria. Com o tempo, foi ficando
constante, principalmente à noite, a ponto de me acordar várias vezes”, conta.
Na tentativa de aliviar o desconforto, o médico utilizou analgésicos e
anti-inflamatórios, além de infiltrações no quadril para alívio temporário.
“Sabe aquela peça de teatro que você vai para relaxar? Fiz isso uma vez e, para
mim, foi uma tortura. Do trajeto até o fim do espetáculo, a dor não me
largava”, relembra.
Bruno Rudelli, ortopedista especialista em cirurgia
do quadril do Hospital Sírio-Libanês, destaca que o caso de Robert exemplifica um
crescimento preocupante desses diagnósticos em pacientes jovens, principalmente
após a pandemia. “Muitas vezes, a osteonecrose não é
diagnosticada de imediato, pois pode ser confundida com dores musculares
comuns. A fase aguda, relacionada ao momento do fenômeno da morte celular, pode
ou não ser dolorosa, e o desconforto tende a aliviar temporariamente após
alguns meses. Por isso, é fundamental estar atento a qualquer dor persistente”,
alerta.
Mesmo com os sintomas, Robert manteve sua rotina de
trabalho, exercícios e música. Em novembro, viajou ao Chile e escalou um vulcão
de mais de 5.500 metros de altitude. “Depois desse episódio, fiquei
praticamente sem andar. Sentia muita dor na virilha e não conseguia movimentar
o quadril. Achei que era uma tendinite, mas a ressonância revelou algo bem mais
sério: osteonecrose da cabeça do fêmur. Para mim, esse era o pior diagnóstico que eu
poderia encontrar. O impacto emocional foi grande”, recorda.
O diagnóstico e início do tratamento só ocorreram no começo
de 2025, após avaliação com um ortopedista especializado. Mesmo com
investigações que envolveram também um reumatologista, a causa exata da
osteonecrose não foi identificada com precisão. “Passei meses tentando entender
o que causou essa doença. Foi corticoide? Covid-19? Mergulho? Genética? No fim,
talvez tenha sido tudo isso. Ou nada disso”, reflete Robert.
Com a evolução da doença, foi indicada a cirurgia
para colocação de prótese de quadril, realizada no início deste ano. “Claro que
tive medo, mas também esperança. Era minha chance de voltar a viver com
liberdade. O primeiro mês foi difícil, mas depois da quarta semana, a melhora
foi exponencial. Hoje, três meses depois, voltei a andar, a tocar bateria, a
viver. Ainda não corro, mas sigo caminhando minha história com mais firmeza”,
conclui.
Diagnóstico tardio
O médico explica que o número de casos de
osteonecrose, possivelmente relacionados à Covid-19, só estão aparecendo no
consultório atualmente por causa do diagnóstico tardio. “Muitos
pacientes permanecem assintomáticos por anos, mas a doença pode avançar
silenciosamente até causar o colapso da articulação e dor intensa.
O diagnóstico precoce é essencial uma vez que a progressão da doença pode levar
a procedimentos invasivos como a colocação de prótese total de quadril”,
reforça Rudelli.
Os principais sinais da osteonecrose incluem dores
intensas na região da virilha e quadris, além de dificuldade de locomoção,
principalmente em estágios avançados. Estima-se que cerca de 20 mil¹
novos casos da doença sejam diagnosticados anualmente, com o quadril sendo a
área mais afetada. Em 60% a 80% dos pacientes, ambos os lados do quadril são
acometidos, o que agrava a limitação funcional¹. O diagnóstico é
confirmado por exames de imagem, como ressonância magnética, tomografia e
radiografias.
“A osteonecrose pode limitar muito a qualidade de
vida, inclusive de pessoas jovens e ativas. Por isso, ao sentir dores
persistentes, é fundamental evitar a automedicação e procurar um ortopedista
para avaliação adequada”, finaliza o especialista.
Sociedade Beneficente de Senhoras Hospital Sírio-Libanês
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