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A violência psicológica é uma das formas mais silenciosas, porém devastadoras,
de agressão que as mulheres enfrentam. Diferente das marcas físicas, suas
cicatrizes são internas e atingem diretamente a autoestima, a saúde mental e
até o desempenho profissional das vítimas. Críticas constantes, intimidações,
chantagens emocionais e manipulações fazem parte de um ciclo de abusos que
muitas vezes passa despercebido.
Segundo
a professora de Psicologia da Una Catalão, Eliane Honório Domingues, a
dificuldade em reconhecer esse tipo de violência está ligada à naturalização de
padrões culturais e ao fato de, muitas vezes, os abusos partirem de pessoas
próximas ou em posição de autoridade, como parceiros, líderes ou colegas de
trabalho. “Mesmo mulheres com autonomia financeira podem não ter desenvolvido
autonomia psicológica suficiente para identificar e romper com esse ciclo. A
dependência emocional e a baixa autoestima bloqueiam a percepção crítica sobre
a violência que estão vivendo”, explica.
Impactos no ambiente de trabalho
No espaço profissional, as consequências são visíveis. Mulheres que sofrem violência psicológica tendem a se sentir inseguras, evitar posições de liderança, desistir de promoções ou até se autossabotar. “Elas carregam marcas emocionais profundas e o acesso à autonomia financeira não significa que ela se sinta livre ou empoderada. Sem autonomia psicológica, continuam vulneráveis a abusos e silenciamentos, inclusive dentro das empresas”, destaca a psicóloga.
Os
sinais podem variar, mas incluem queda repentina de produtividade, retraimento,
ansiedade, dificuldades de concentração e excesso de autocrítica. Domingues
explica que "esses sinais podem aparecer mesmo em colaboradoras que, à
primeira vista, mantêm uma rotina normal. É importante que líderes e colegas
estejam atentos a mudanças sutis, escutem sem julgamento e respeitem o tempo e
o espaço da vítima. Também é importante considerar a dimensão da vida desta
mulher para além do espaço laboral”.
Entre a casa e o trabalho
A
violência doméstica também interfere diretamente no desempenho profissional.
Além dos impactos emocionais, como depressão, ansiedade e estresse, muitas
mulheres precisam lidar com chantagens emocionais e culpas internalizadas.
“Mesmo quando têm uma renda própria, podem continuar presas psicologicamente ao
agressor, o que faz do trabalho mais uma obrigação a cumprir, em vez de um
espaço de proteção”, ressalta a especialista.
Cultura do machismo e silenciamento
Um dos fatores que perpetuam a violência psicológica é a cultura do machismo, que minimiza denúncias e rotula as reações femininas como “exageradas” ou “emocionais demais”, protegendo os agressores e reforçando o silêncio por meio do medo de retaliações.
“Essa
cultura cria barreiras, pois desde cedo as mulheres são ensinadas a tolerar,
relevar e adaptar-se ao desrespeito. Outro ponto a ser destacado é a falta de
educação socioemocional para os homens, o que tende a fortalecer a cultura
opressora e violenta contra as mulheres”, pontua Domingues.
Caminhos para apoio e superação
A psicóloga destaca que o suporte deve ser interdisciplinar, envolvendo psicoterapia, rodas de escuta, apoio jurídico e acesso a serviços públicos especializados. O objetivo é mais do que aliviar sintomas: é reconstruir a autonomia emocional da mulher.
As
empresas também têm papel fundamental nessa transformação, ao criarem canais
seguros de denúncia, treinamentos sobre assédio, políticas de equidade e
programas de apoio psicológico. “Romper o ciclo da violência exige compromisso
coletivo. Não basta agir quando o problema se torna visível, é preciso prevenir
e transformar as estruturas que ainda silenciam as mulheres”, finaliza.

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