A mensagem que abri vinha do site O
Antagonista, assíduo frequentador de minha caixa de e-mails, e reproduzia o
título de capa da revista Crusoé desta semana. A revista, como se sabe, é ainda
mais prolixamente antagonista do que o site e anda tão extraviada quanto o
próprio Robinson Crusoé, personagem simbolicamente escolhido para lhe dar o
nome.
A manchete dizia: “O
impeachment entra na agenda”. Você entendeu, leitor? É preciso que o
impeachment entre na agenda. Então, passam a escrever sobre o que não estava na
agenda, como forma de fazer com que se torne assunto e se passe a falar de algo
que sequer estava em cogitação, exceto em círculos de intriga, tramoia e
conjura que conspiram nesse sentido. Um processo circular, muito bem pensado.
Nestes dias, jornais e TVs dedicadas ao jornalismo militante estão fazendo
exatamente isso. Mas se você for olhar atentamente, verá que é tudo merengue,
sem consistência. Se parar de bater, dessora e acabou. A mídia esconde tudo que
é feito e bem feito, passa todo tempo falando mal do presidente e julga
armazenar substância para derrubá-lo do poder. Não tem povo, não tem voto, não
tem motivo. E querer não é poder.
O jurispetista versejador sergipano Ayres Britto, ex-ministro do STF, foi
escolhido a dedo para ser entrevistado pela Folha de São Paulo na semana
passada. Incumbido de trazer o impeachment “para a agenda”, ciscou ninharias,
listou banalidades, abandonou verbos e substantivos, apelou para adjetivos,
reproduziu fake análises e, na ausência de fatos, sugeriu um impeachment pelo
“conjunto da obra” como ele a conseguia ver desde sua reduzida estatura.
Conjunto da obra? Mas é exatamente pelo conjunto da obra que esse impeachment
não conta com apoio popular e vejo o presidente com boas possibilidades de ser
reeleito. Aliás, é o que mostram as pesquisas. É pelo conjunto da obra que a
sociedade não confia no STF. É pelo conjunto da obra que ela não confia no
Congresso Nacional. É pelo conjunto da obra que ela rejeitou nas urnas de 2018
os partidos que até então haviam arrastado o Brasil para o caos econômico,
social e moral. É pelo conjunto da obra de desinformação que ela não confia na
mídia militante. Não será por maus modos e frases mal construídas que haverão
de destituir um presidente eleito com 57 milhões de votos.
Na introdução que escreveu para a coletânea de textos intitulada “Uma campanha
alegre”, em que ele e Ramalho Ortigão corroeram, com a acidez do mais fino
humor, as estruturas da política portuguesa, Eça de Queiroz afirmou: “O riso
também é uma opinião”.
Onde a seriedade some, o ridículo assoma e o riso é um bom companheiro.
* Publicado
originalmente em Conservadores e Liberais, o site de puggina.org
Percival Puggina (76), membro da Academia
Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário,
escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de
dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo;
Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus
brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.
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