"Dos mesmos produtores de "Seu Filho Tem Preguiça de Mamar" e "Seu Filho Tem Preguiça de Comer”, o fato é que o ser humano não tem preguiça daquilo que é importante pra ele. Preguiça não é diagnóstico. Um bebê que é posicionado como falante, que é protagonista do aprendizado e sabe que ele pode se comunicar não tem preguiça. Ele pode ter dificuldade, mas se ele for posicionado pelos familiares com o poder da linguagem, acaba entendendo que comunicação é poder. Falar nos permite conseguir o que queremos, falar faz parte da brincadeira e o mais importante: falar, fundamentalmente, nos permite nos expressar e ser compreendidos e estas são necessidades humanas universais. A única chance da criança ter preguiça de falar reside no caso dela não ter entendido para que serve a fala. Dela não se ver como participante da cultura falante, não entender o que os outros estão falando, e não ter o desejo de se fazer entender e isso só acontece por dificuldade ou negligência. É nossa responsabilidade interagir com a criança e lhe convidar para o universo da linguagem, tentar com que ela nos entenda e tentar entendê-la. Acolher suas expressões e responder com entusiasmo. ", conclui.
Mas como saber se a criança está demorando a falar?
O primeiro passo para a identificação de um possível problema deve partir dos
pais, que deverão observar as janelas de desenvolvimento da criança. O processo
de aquisição da linguagem e desenvolvimento da fala segue alguns passos – e o
que fugir disso deve ser avaliado por um profissional fonoaudiólogo. A partir
dos 6 meses, o bebê balbucia bastante, faz contato visual e reage aos
gracejos dos pais. Entre 9 e 12 meses, está na fase de lalação e fica fazendo
sons duplicados de cvcv (consoante e vogal) como, “mamamama”, “papapapapa”,
“dadadada” etc. Por volta dos 12 meses inicia as primeiras palavrinhas,
geralmente "mamã" ou "papa". E, a partir de então, a
criança começa a “pegar o ritmo”, chegando aos 18 meses com um vocabulário que
inclui, em média, 30 palavras – algumas mal pronunciadas e imprecisas, mas
ainda assim estáveis e recheadas de sentido. Ao completar 2 anos, a criança
terá um vocabulário médio de 150 palavras e começará a formar frases simples,
como "qué àga" (quero água) ou "dá bó" (dá bola) - se
inicia uma fase de fala telegráfica, em que o bebê seleciona os elementos mais
importantes das sentenças e os se para se expressar oralmente, ainda com palavras
mal pronunciadas. Já entre os 2 e 3 anos a criança trabalha muito na construção
dos processos motores de fala e suas transições. Com isto, as palavras vão
ficando de melhor entendimento e as frases mais completas, já que com melhor
fala a criança se dedica à construir seus conhecimentos de gramática e a
usa-los. Aos 3 anos uma criança pode ser compreendida por um adulto fora de seu
convívio sem "tradução" dos pais e suas frases contem praticamente
todos os elementos. Erros com pronomes e conjugação verbal e flexão ainda ocorrem
e são não apenas esperados, como parte importante do processo de reflexão sobre
a língua. E, aos 5 anos, a criança conclui a aquisição de todos os fonemas da
língua portuguesa, tem grande poder de comunicação, persuasão, inferência e
consegue contar uma história ou um fato ocorrido com detalhes.
E como os pais podem ajudar suas crianças? A seguir, a fonoaudióloga explica
algumas ferramentas que podem ajudar:
1. "Fale por elas. Isso mesmo! Coloque em palavras o que você imagina que
ela esteja sentindo e valide seus sentimentos. Diga que entende porque ela se
sente assim. É importante para que seu filho entenda o nome daquele sentimento
ou situação.
Quando a criança está tomada de sentimentos seus comportamentos gritam isso,
podemos validar esta comunicação e falar por ela mostrando que sim ela é
compreendida e também que a linguagem proporciona o valioso poder de se
expressar de forma cada vez mais precisa. Importante lembrar que falar pela
criança é ruim quando a gente se antecipa e não dá espaço para ela falar".
2. "Se puder fazer um trabalho com desenhos é muito interessante. Faça um
caderno de sentimentos e desenhe com ele ou ela rostinhos tristes, felizes,
frustrados, com sono, com fome, com raiva etc. Quando ela estiver com o
comportamento fervilhando, mostre o caderno e converse sobre o que ela está
sentindo e sobre a situação. Você vai ver como tudo melhora e a poeira
baixa";
3. “Faça um exercício de empatia e se coloque no lugar da sua criança, que
muitas vezes, além de não poder falar; não tem recursos mentais internos para
entender, repensar, racionalizar e elaborar as situações e os sentimentos por
falta de linguagem, por falta da ferramenta mais importante para a comunicação
humana”.
4. Se você perceber um atraso no desenvolvimento da fala do seu filho, seja na
recepção e compreensão da linguagem ou na verbalização das palavrinhas a partir
do primeiro ano de vida, vale buscar a avaliação de um fonoaudiólogo para
verificar se há atrasos de fato ou se há algum motivo clínico que possa impedir
a comunicação verbal dele. É importante observar a chegada das primeiras
palavras ao completar 12 meses e o aumento de vocabulário gradativamente depois
desse momento. O diálogo é construído aos poucos, mas sempre em evolução, sem
pausas nem regressões.
Juliana Trentini do
Canal Fala Fono , autora do livro “Aprendendo a Falar”, criadora do curso Fala
Bebê e profissional dedicada ao desenvolvimento da fala, aquisição da linguagem
e intervenção precoce.
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