A
universidade pública não é gratuita, mas mantida pelos recursos dos cidadãos. E
por que a Constituição brasileira escolheu determinar esse tipo de destinação
para parte dos nossos recursos amealhados pelo Estado? Porque a universidade
pública é uma espécie de Fundo de Investimentos no Futuro da Nação. Funciona
assim: o Estado usa parte dos recursos de todos e constrói prédios, equipa-os
com o que há de melhor, contrata os melhores profissionais, remunera-os
dignamente, oferece um plano de carreira consistente, cobra resultados na forma
de ensino, pesquisa e extensão e oferece para a sociedade.
Bom,
não dá para oferecer isso a todos na sociedade. Por isso, faz-se uma prova de
seleção, na qual se verifica quais membros da comunidade reúnem as condições
necessárias para usufruir desse investimento, desenvolvendo habilidades e
conhecimentos capazes de serem reinvestidos na sociedade na forma de mão de
obra qualificada, novas ideias e projetos, enfim, ensino, pesquisa e extensão.
Um círculo virtuoso. Uma ideia incrível, fruto da união das ideias democráticas
mais festejadas e admiradas no planeta. Coisa de gente moderna e civilizada!
Ou
seja, o binômio “público e gratuito” não traduz duas, mas uma ideia,
republicana e democrática. Se, muitas vezes, jovens cujos pais têm condições
financeiras, digamos, abundantes ingressam em seu ambiente de cultura,
investigação e conhecimento, o Estado Democrático de Direito supõe que outros
mecanismos de arrecadação de tributos já buscaram, nos recursos desses pais, os
valores adequados para não apenas sustentar a permanência gratuita do filho,
como financiar outros estudantes, filhos de famílias sem a mesma pujança
econômica. Mas, se esses pais com muitos recursos não pagam os impostos devidos
ou o sistema tributário injusto tira mais dos pobres que dos ricos, não me
parece que seja criando mensalidades que isso vai se resolver.
Só
para dar um exemplo: por que não criar um imposto sobre grandes fortunas,
igrejas e templos ou cobrar uma taxa sobre os Refis e destinar para a
universidade pública? Há tantas formas de financiar, há tantas formas de manter
essa que é uma das expressões mais claras de que queremos e podemos construir
uma sociedade na qual filhos de ricos, pobres, brancos, negros e indígenas
possam estudar em condições iguais em oportunidades e, juntos, aprender que o
futuro pode ser assim também para mais e mais pessoas em todo o país.
Como
já disse, a Constituição imaginou a educação como pública e gratuita para os
que nela frequentam e estudam, e não para o resto da sociedade. Porque, assim
como fazemos quando aplicamos nosso dinheiro em um fundo de investimentos, não
reclamamos que o banco cobre uma taxa de administração para gerir bem nossos
recursos e, assim, garantir para nós um futuro mais tranquilo e feliz. Então,
mal comparando, é algo assim que acontece com a universidade. A gratuidade para
aqueles que poderiam pagar mensalidades (e lembre-se: eles pagam, exceto se os
seus pais não estiverem recolhendo os tributos devidos!) é uma espécie de taxa
de administração que a nação cobra para manter este espaço de liberdade,
igualdade e fraternidade. Não parece coisa de país moderno e civilizado? Pois
é.
Daniel Medeiros - doutor em Educação pela UFPR e
professor no Curso Positivo.
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