No
ano em que a ONU dá destaque à mulher rural, duas histórias mostram que elas
fazem a diferença
O
ano de 2018 iniciou com homenagens para as mulheres. Além do tradicional 8 de
março, data em que se comemora o Dia da Mulher, a ONU anunciou que esse será o
ano daquelas que se dedicam e se envolvem com o meio ambiente e com o campo: a
mulher rural. Para enfatizar ainda mais, em janeiro a ONU Mulheres também
divulgou o tema para esta quinta-feira: “o tempo é agora: ativistas rurais e
urbanas transformam a vida das mulheres”.
Cristina
Pasca Palmer, secretária executiva da Convenção da ONU sobre Diversidade
Biológica, defende que igualdade de gênero e empoderamento feminino são
elementos centrais para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
“Engajar mulheres do campo é essencial. Está muito claro que é por meio delas
que alcançaremos as mudanças necessárias em muitas frentes. O envolvimento das
mulheres rurais é fundamental para alcançar metas para assegurar acesso,
apropriação e controle equitativos sobre a terra e os recursos naturais, bem como
dobrar a produtividade agrícola e os rendimentos dos pequenos produtores de
alimentos”, afirma ela.
Nesse
contexto, são muitas as mulheres com histórias para contar. No campo, elas têm
tomado a direção das propriedades e qualificado os negócios familiares e
associações. Segundo dados do Censo 2010, as mulheres rurais são responsáveis,
em grande parte, pela produção destinada ao autoconsumo familiar e contribuem
com 42,4% do rendimento familiar. É o caso de Rosa Lesnioski Fieszt.
Agricultora desde a barriga - como ela descreve -, ela é produtora de orgânicos
em sua propriedade e presidente da Associação Agroalves da Lapa, no Paraná.
A
Associação é referência em comercialização de produtos orgânicos na região e
composta, em sua maioria, por mulheres que também estão na linha de frente da
produção orgânica. Segundo Rosa, a Associação existe há 17 anos, quando as
reuniões ainda eram realizadas na sua propriedade. De lá pra cá as conquistas
foram muitas, como a sede própria, a atual agroindústria (instalada no local) e
diversos equipamentos para os agricultores associados. “A associação nasceu
como uma forma de melhorar a comunidade local. Desde a criação, que começou com
a realização de cursos para os associados, temos crescido de forma produtiva.
Hoje, além dos cursos, contamos com a participação de outras mulheres para a
produção de doces e panificados para venda, e seguimos indo atrás de melhoria e
qualidade. Prova disso é a cozinha orgânica que pretendemos montar na sede, um
projeto que está em desenvolvimento”, comemora.
Dentre
os equipamentos obtidos por meio de uma parceria com a Emater, estão uma
estufa, um triturador de galhos e balanças para todos os agricultores, além de
biofossas que também serão doadas para as propriedades. Para Rosa, essa é uma
conquista não só dela, mas de todas as mulheres envolvidas no projeto. “Não
temos o perfil de desistir fácil. Se conseguimos e temos conseguido tudo isso é
porque somos insistentes. Eu enxergo as mulheres assim. Tomamos à frente de
tudo, vamos atrás, além de sermos mais caprichosas”, analisa. Os cursos e a
certificação orgânica são realizados com o apoio do projeto do Laboratório de
Mecanização Agrícola (LAMA), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG),
coordenado pelo professor e membro da Rede de Especialistas em Conservação da
Natureza, Carlos Hugo Rocha. “O Lama funciona como assistência técnica para
atender demandas do setor agroecológico. Nossa ideia é fornecer alternativas
com base agroecológica para auxiliar produtores na implantação de sistemas produtivos
que considerem a conservação e o manejo sustentável de recursos naturais,
culturais e sociais”, explica.
Elas no comando dos orgânicos
Na
cidade de Urubici, Santa Catarina, outra história também merece ser contada.
Valsiria Ribeiro é agricultora e proprietária da pousada Sítio Encanto da
Natureza. Junto com o marido, José Ribeiro, Valsiria comanda a propriedade que
produz orgânicos. “Focamos em produção orgânica e na variedade dos produtos,
porque dessa forma as pragas não pegam. Não é preciso usar agrotóxico, basta
saber combinar e a natureza se encarrega do resto. Isso agrega muito valor.
Plantamos de tudo um pouco. Temos milho, feijão, batata, hortaliças em geral.
Muita variedade”, conta.
Além
dos vegetais, o sítio de Valsiria também possui uma grande quantidade de
Araucárias - árvore símbolo da região sul do Brasil e bastante ameaçada -
em áreas bem preservadas. Das árvores, a produtora tem como matéria-prima o
pinhão, que rende a produção de paçoca e outros produtos que são vendidos para
restaurantes locais. Além disso, uma produção específica da semente vai para a
iniciativa Araucária +, criada pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à
Natureza e Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (CERTI),
agregando valor aos produtos extraídos desse ecossistema de acordo com um
padrão sustentável de produção. “A iniciativa Araucária+ reúne produtores do
Planalto Serrano catarinense, indústria, varejo e sociedade, criando uma rede
sustentável de produção, venda e consumo. Dessas propriedades, muitas são
encabeçadas por mulheres que querem apenas gerir seus negócios de forma
igualitária”, analisa o coordenador de Negócios e Biodiversidade da Fundação
Grupo Boticário, Guilherme Karam. Além do cuidado dos consumidores com a compra
do pinhão maduro, outras estratégias complementares são fundamentais para
promover a conservação dos remanescentes de Floresta com Araucárias. Entre elas
estão a coibição do desmatamento ilegal e a agregação de valor à produção não
madeireira, mantendo a floresta em pé.
“O
Araucária+ é bom por que não temos que nos preocupar com a destinação do
pinhão, a venda é garantida. Isso agrega muito valor ao que temos aqui e gera
negócios sustentáveis. Estamos desde o começo, há quatro anos, e é algo muito
interessante para nós. Fomos convidados por que eu e meu marido já fazíamos
mudas de araucária, vendíamos e também doávamos para a comunidade”, conta
Valsiria. O sítio do casal também conta com um espaço para hospedagem que atrai
pessoas em busca do agroturismo, ideia que partiu de Valsiria e que deu certo.
“Eu tive a ideia de trazer turismo para nosso sítio, assim como outras ações de
sustentabilidade. Sempre dizem que por trás de um grande homem tem uma grande
mulher, mas eu acho que é ao contrário. Ou, temos que andar lado lado, no
mínimo” se diverte ela.
Sobre a Fundação Grupo Boticário
A
Fundação Grupo Boticário é fruto da inspiração de Miguel Krigsner, fundador de
O Boticário e atual presidente do Conselho de Administração do Grupo Boticário.
A instituição foi criada em 1990, dois anos antes da Rio-92 ou Cúpula da Terra,
evento que foi um marco para a conservação ambiental mundial. A Fundação Grupo
Boticário apoia ações de conservação da natureza em todo o Brasil, totalizando
mais de 1.500 iniciativas apoiadas financeiramente. Protege 11 mil hectares de
Mata Atlântica e Cerrado, por meio da criação e manutenção de duas reservas
naturais. Atua para que a conservação da biodiversidade seja priorizada nos
negócios e nas políticas públicas, além de contribuir para que a natureza sirva
de inspiração ou seja parte da solução para diversos problemas da sociedade.
Também promove ações de mobilização, sensibilização e comunicação inovadoras,
que aproximam a natureza do cotidiano das pessoas.
Sobre a Rede de Especialistas
A Rede de Especialistas de Conservação da
Natureza é uma reunião de profissionais, de referência nacional e
internacional, que atuam em áreas relacionadas à proteção da biodiversidade e
assuntos correlatos, com o objetivo de estimular a divulgação de
posicionamentos em defesa da conservação da natureza brasileira. A Rede foi
constituída em 2014, por iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à
Natureza.
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