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terça-feira, 23 de junho de 2026

O Brasil está velho e isso não deveria ser ruim


O Brasil envelheceu e isso é um fato. A questão é que ainda nos comportamos como se não estivesse. Embora a longevidade seja celebrada como uma conquista da Medicina e das condições de vida, muitos setores da sociedade ainda demonstram dificuldade em conviver com o envelhecimento de forma natural, inclusiva e respeitosa.

 

Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo o Censo Demográfico de 2022, o País já possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população.

 

Nas últimas semanas, uma rua residencial de São Paulo foi foco de discussão envolvendo instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) e moradores. De um lado, argumentos sobre zoneamento urbano e o possível mal-estar que essas instituições, e seus residentes, causavam aos vizinhos. De outro, preocupações relacionadas ao cuidado, à dignidade e ao lugar que reservamos às pessoas idosas em nossa sociedade.

 

Independentemente dos aspectos jurídicos que cercam o caso, o episódio nos convida a uma reflexão mais profunda: o Brasil está preparado para encarar o envelhecimento da população?

 

Viver mais e melhor é uma grande vitória. O problema é que nem sempre estamos preparados para as consequências dessa conquista.

 

Quem cuidará dos idosos mais dependentes? Como apoiar famílias que enfrentam o desafio do cuidado? Que tipo de cidade queremos construir para uma população que envelhece? Qual será o papel das instituições, dos profissionais de Saúde, da comunidade e do poder público nesse cenário? 

Essas são perguntas que precisam ocupar espaço no debate público. 

Não por acaso, o Estatuto da Pessoa Idosa reconhece que envelhecer com dignidade depende da participação de toda a sociedade. A lei atribui a todos a responsabilidade compartilhada de garantir não apenas saúde e proteção, mas também convivência familiar e comunitária (Art. 3º).

 

O Estatuto ainda veda qualquer forma de discriminação, negligência ou violência contra a pessoa idosa (Art. 4º) e determina que todos têm o dever de protegê-la de situações humilhantes, constrangedoras ou desumanas (Art. 10, §3º).

 

Em outras palavras, a legislação brasileira reconhece que o cuidado não se resume à assistência, pelo contrário, ele envolve pertencimento, respeito e o direito de o idoso continuar ocupando seu lugar na vida em comunidade.

 

Quando refletimos sobre o espaço das pessoas idosas em nossas cidades não estamos discutindo apenas infraestrutura ou serviços, mas a convivência e o valor que atribuímos à experiência humana em todas as fases da vida.

 

Independentemente dos desdobramentos jurídicos, o caso do bairro paulistano revelou percepções e discursos que merecem reflexão à luz dos princípios estabelecidos pelo Estatuto da Pessoa Idosa.

 

A violência contra a pessoa idosa não se manifesta apenas por agressões físicas. Ela também está presente quando há humilhação, desrespeito, discriminação ou atitudes que reduzem a dignidade e a autonomia de quem envelhece. Muitas vezes, manifesta-se de forma silenciosa, por meio da exclusão social, da invisibilidade e da ideia equivocada de que a velhice representa incômodo para a sociedade.

 

No Dia Mundial de Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho, vale ampliar nossa compreensão sobre o tema. Afinal, nem toda violência deixa marcas visíveis.

 

Às vezes, ela se manifesta em atitudes que reforçam a ideia de que a velhice é problema, incômodo ou algo que deveria permanecer distante dos nossos olhos. Outras vezes, surge na dificuldade de enxergar a pessoa por trás da fragilidade, reduzindo sua existência a um estereótipo ou a uma condição de saúde.

 

Talvez o maior desafio da nossa sociedade seja justamente construir uma cultura do cuidado. Historicamente, o cuidado dos idosos foi atribuído às famílias, porém, elas mudaram. Vivemos mais, temos menos filhos, as mulheres estão cada vez mais inseridas no mercado de trabalho e os arranjos familiares se tornaram mais diversos. Ao mesmo tempo, cresce o número de idosos que vivem com doenças crônicas, limitações funcionais ou algum grau de dependência.

 

Nesse contexto, o cuidado deixa de ser responsabilidade individual e passa pela responsabilidade coletiva. É aqui que entra o conceito de ecossistema do cuidado. Cuidar de uma pessoa idosa envolve familiares, cuidadores profissionais, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais, hospitais, serviços de atenção básica e instituições especializadas. Nenhum desses atores consegue responder sozinho aos desafios da longevidade.

 

Em uma sociedade que envelhece rapidamente e na qual as famílias estão menores e mais sobrecarregadas, a demanda por cuidados de longa duração tende a crescer nas próximas décadas. As ILPIs fazem parte desse ecossistema.

 

Durante muito tempo, esses espaços foram associados exclusivamente ao abandono familiar. Hoje, essa visão não corresponde à realidade de milhares de famílias brasileiras. Em muitos casos, são as ILPIs que oferecem assistência especializada, segurança, estímulo à convivência, acompanhamento multiprofissional e suporte contínuo para idosos que necessitam de cuidados mais complexos. 

Isso não significa substituir a família, mas ampliar sua capacidade de cuidar. Não significa assumir a responsabilidade que é do Estado, mas ser parte do sistema que cuida e inclui a pessoa idosa. 

Países que avançaram na construção de políticas para o envelhecimento compreenderam que a convivência entre gerações fortalece a sociedade. Em diversas cidades da Europa, programas aproximam idosos e estudantes universitários, promovem moradias compartilhadas e incentivam espaços de encontro entre crianças, adultos e idosos. A lógica é simples: quanto mais integradas as gerações estiverem, maior será a compreensão mútua e menor será o preconceito.

 

O Brasil ainda está construindo esse caminho. O envelhecimento populacional não deve ser visto como ameaça, mas como oportunidade para repensarmos nossas cidades, nossas políticas públicas e nossas relações humanas. Afinal, falar sobre velhice é falar sobre o futuro de todos nós.

 

A discussão que hoje acontece em uma rua de São Paulo não é apenas sobre uma instituição, um bairro ou uma licença de funcionamento. Ela simboliza um debate muito maior sobre a sociedade que estamos construindo.

 

Mais de duas décadas após a criação do Estatuto da Pessoa Idosa, o desafio brasileiro já não é apenas garantir direitos no papel. É transformá-los em cultura efetiva de cuidado, inclusão e convivência.

 

Uma sociedade preparada para envelhecer não é aquela que apenas aumenta a expectativa de vida, mas a que reconhece o valor da experiência, acolhe a fragilidade quando ela surge e garante que ninguém seja excluído por causa da idade. 


A forma como tratamos nossos idosos hoje revela, em grande medida, a sociedade que desejamos construir para nós mesmos amanhã.

 

Felipe Vecchi - médico geriatra e diretor médico e operacional da BSL Saúde. Graduado pela Faculdade de Medicina de Jundiaí (SP), possui residência em Clínica Médica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP) e especialização em Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atua na coordenação de modelos integrados de cuidado, reabilitação e assistência de longa permanência para pessoas idosas, com foco em autonomia, qualidade de vida e apoio às famílias cuidadoras.



Inteligência Cênica: a nova soft skill que define quem crescerá na carreira

Consultor com mais de 35 anos de experiência, Ronaldo Loyola apresenta em livro conceito inédito para profissionais que desejam ganhar os holofotes no "teatro corporativo"  

 

O ambiente corporativo tornou-se o grande palco do século XXI e, nele, a forma de atuar com outras pessoas é tão determinante quanto a competência técnica. É a partir dessa premissa que Ronaldo Loyola, executivo multidisciplinar com mais de 35 anos de experiência corporativa, lança Inteligência Cênica - A nova soft skill do mundo corporativo pela editora Ipê das Letras.

Com formação em Administração, Ciências Contábeis e pós-graduação em Gestão de Pessoas, Gestão Empresarial, Psicologia Organizacional, Medicina Comportamental, Neurociência e Direitos Humanos, Responsabilidade Social, Sustentabilidade, o autor reúne um repertório acadêmico amplo e multidisciplinar. Essa base sólida, aliada à prática profissional, sustenta a criação de um conceito absolutamente inédito no universo corporativo: a Inteligência Cênica.

Segundo Loyola, os espaços de trabalho funcionam como um “teatro invisível”, no qual cada profissional atua simultaneamente nos bastidores, sob os holofotes e diante de uma plateia silenciosa que observa, avalia e constrói reputações. Nesse cenário, carreiras não naufragam apenas por falhas técnicas, mas, sobretudo, pela ausência de presença, pela incapacidade de ler contextos emocionais e pela dificuldade de equilibrar autenticidade e estratégia. A Inteligência Cênica surge então como a soft skill que sustenta relações profissionais mais éticas, saudáveis e eficazes.

Longe de associar atuação à falsidade, o especialista defende a Inteligência Cênica como presença lúcida e a habilidade de estar inteiro, verdadeiro e consciente, adaptando a forma sem trair a essência. Para ele, a capacidade de se adaptar a diferentes situações se faz necessária especialmente em um tempo em que a Inteligência Artificial domina processos, mas não substitui sentido, empatia e consciência humana.

A cada capítulo, Loyola convida o leitor a se observar em ação e a identificar gatilhos emocionais, máscaras profissionais, excessos, silêncios e incoerências, não para gerar culpa, mas para ampliar a lucidez. Ao mostrar que quem não reconhece o próprio script acaba sendo conduzido pelo ego, pelo medo ou pelo modo automático, ele vai além das competências tradicionais ensinadas no mundo corporativo. Trata-se de uma reflexão estratégica ancorada na vivência real do autor no chão de fábrica, nas salas de diretoria e nos bastidores organizacionais.

Ao longo da obra, são exploradas as práticas de leitura de contexto, comunicação estratégica, presença cênica e manutenção da ética e integridade. Elas permitem que profissionais compreendam dinâmicas de poder, ajustem sua comunicação ao clima emocional dos ambientes, utilizem corpo, voz e silêncio como instrumentos de credibilidade e mantenham coerência entre discurso e prática. Essas dimensões contrapõem a ingenuidade corporativa e a chamada “autenticidade brutal”, que, segundo o autor, frequentemente destrói carreiras ao confundir sinceridade com ausência de discernimento. 

Com linguagem provocadora e sem romantizar empresas, a obra também dialoga com temas urgentes do mundo organizacional. Ao conectar Inteligência Cênica à gestão de emoções, à saúde mental e à prevenção de riscos psicossociais previstos na NR-01, Loyola oferece uma abordagem prática para lidar com burnout, assédio moral e ambientes tóxicos. Liderança, nesse contexto, deixa de ser apenas posição hierárquica e passa a simbolizar o espelho emocional da equipe, capaz de sustentar serenidade, sentido e direção mesmo em cenários de crise. 

Para o autor, essa forma de liderar não é abstrata nem teórica. “Ela se manifesta de maneira clara na atuação de líderes que engajam a partir da própria postura”, define. Casos reconhecidos mundialmente, como Luiza Trajano, Satya Nadella e Abílio Diniz, ilustram como presença, narrativa e coerência ética transformam culturas organizacionais mais do que discursos  ou autoridade formal. O livro também amplia o debate para o ambiente digital, onde as redes sociais expandem o palco corporativo e tornam a reputação um ativo construído ou destruído em tempo real.

Inteligência Cênica - A nova soft skill do mundo corporativo é direcionado para profissionais que atuam ou desejam atuar em ambientes organizacionais complexos e para todas as pessoas inquietas e críticas que entendem que a excelência técnica, isoladamente, não sustenta uma carreira no longo prazo. Uma leitura essencial para quem percebe o trabalho como um palco político, emocional e simbólico e deseja compreender esse jogo com lucidez, estratégia e ética, sem abrir mão da própria essência. 

Divulgação

Ficha técnica

TítuloInteligência Cênica – A nova soft skill do mundo corporativo
Autoria: Ronaldo Loyola 
Editora: Ipê das Letras
ISBN: 78-6528601844
Páginas: 220 
Preço: R$ 60,90
Onde encontrarAmazon 

Sobre o autor  

Ronaldo Loyola - sócio-fundador da Loyola HR Consulting (LHRC). Executivo multidisciplinar com mais de 35 anos de experiência corporativa, atuou em posições de alta liderança nos segmentos de serviços, comércio e indústria. É Pós-Graduado em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Sustentabilidade e em Neurociências e Comportamento pela PUC-RS; Pós-Graduado em Medicina Comportamental pelo Departamento de Psicobiologia da UNIFESP; Pós-Graduado em Psicologia Organizacional pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, possui MBA em Gestão de Pessoas e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), além de Especialização em Business and Management pela University of California - UCI (EUA). É Bacharel em Administração de Empresas (CRA 049739-SP) e em Ciências Contábeis (CRC 1SP222141/04). Possui certificação internacional em Mapeamento de Cultura Organizacional pela metodologia Richard Barrett, além de formações em Hipnose Moderna, Hipnose Não Verbal, Programação Neurolinguistica (PNL) e Coaching Profissional Internacional pela SLAC. Atua também como professor de pós-graduação em cursos de MBA, ministrando disciplinas como: Gestão de Mudanças e Cultura Organizacional, Business Partner em RH, Employer Branding, Avaliação e Engajamento de Equipes Comerciais e Aprendizagem Corporativa com uso de Inteligência Artificial. Reconhecido por sua capacidade de unir ciência, arte e gestão, é o criador e difusor do conceito de Inteligência Cênica.
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São João sem dívidas: 5 dicas para curtir a festa sem estourar o orçamento

Cartão de crédito, compras por impulso e despesas não planejadas estão entre os principais riscos para o orçamento nesta época do ano. 

 

As festividades de São João seguem entre as celebrações mais tradicionais do calendário brasileiro e movimentam diversos setores da economia, desde alimentação até vestuário e entretenimento. Em 2025, uma pesquisa do Instituto Locomotiva e QuestionPro, revelou que quatro em cada dez brasileiros pretendiam gastar mais de R$ 200 nos festejos de São João, impulsionados por despesas com comidas típicas, roupas temáticas, eventos e confraternizações. 

Embora o período seja marcado pela diversão e pelo fortalecimento das tradições culturais, o aumento dos gastos exige atenção ao planejamento financeiro. Isso porque muitas das despesas relacionadas às festas juninas costumam ocorrer de forma pulverizada ao longo do mês, o que dificulta a percepção do impacto real sobre o orçamento familiar. 

"O problema não está em participar das comemorações, mas em gastar sem planejamento. Muitas vezes, pequenas despesas feitas ao longo das semanas passam despercebidas e, quando a fatura do cartão chega, o valor surpreende. Por isso, é importante definir previamente quanto será destinado às festas e respeitar esse limite", afirma Daiane Alves, educadora financeira da Neon. 

A especialista explica que gastos com alimentação, bebidas, transporte por aplicativo, ingressos para eventos e compras de última hora são alguns dos principais responsáveis pelo aumento das despesas nesta época do ano. Quando somados, esses custos podem representar um impacto significativo nas finanças, especialmente para quem já possui parcelas ou outras obrigações financeiras em andamento. 

"O cartão de crédito pode ser um aliado na organização financeira quando utilizado de forma consciente, mas também pode dar uma falsa sensação de disponibilidade de recursos. Antes de realizar qualquer compra, é importante avaliar se aquele gasto realmente cabe no orçamento e se não comprometerá o pagamento das demais contas do mês", explica. 

Para ajudar os consumidores a aproveitar o período sem prejudicar a saúde financeira, a educadora financeira da Neon reuniu cinco recomendações práticas:
 

1. Defina um orçamento antes de começar a gastar

Antes de comprar roupas, ingressos ou alimentos, estabeleça um valor máximo para as comemorações. Ter um limite definido ajuda a evitar compras impulsivas e facilita o controle dos gastos.
 

2. Priorize eventos gratuitos ou de baixo custo

Muitas cidades oferecem programações públicas durante o período junino. Aproveitar essas opções pode reduzir significativamente os gastos sem comprometer a experiência.
 

3. Evite parcelar despesas de consumo imediato

Comidas, bebidas e ingressos são consumidos em poucos dias. Parcelar esse tipo de gasto pode fazer com que a diversão dure um fim de semana, mas a dívida permaneça por vários meses.
 

4. Compartilhe custos com amigos e familiares

Organizar encontros em grupo e dividir despesas com alimentos, decoração e transporte pode tornar as comemorações mais econômicas para todos os participantes.
 

5. Acompanhe os gastos em tempo real

Registrar as despesas durante o período ajuda a identificar excessos antes que eles se tornem um problema. Aplicativos financeiros e ferramentas de controle de gastos podem ser aliados importantes nesse processo.

Segundo Daiane, o mais importante é lembrar que o lazer não deve comprometer a estabilidade financeira dos meses seguintes. "As festas juninas fazem parte da cultura brasileira e podem ser aproveitadas sem culpa. O segredo está em equilibrar diversão e planejamento. Quando existe consciência sobre os próprios limites financeiros, é possível participar das comemorações sem transformar um momento de alegria em uma preocupação futura", finaliza a especialista.

  

Neon

 

Airbnb em condomínios: STJ suspende processos no país e prepara decisão que pode mudar o mercado de locações curtas

Tema 1.443 vai definir se a simples cláusula de destinação residencial basta para barrar aluguéis de curta temporada em prédios residenciais; enquanto isso, ações judiciais ficam suspensas

 

A disputa entre moradores, síndicos, investidores e plataformas de locação de curta temporada acaba de ganhar um novo capítulo no Superior Tribunal de Justiça. Após decidir, em maio, que estadias curtas em condomínios residenciais exigem aprovação de pelo menos dois terços dos condôminos quando houver alteração da destinação das unidades, o STJ agora deu um passo ainda mais amplo: suspendeu, em todo o país, os processos judiciais que discutem o tema e criou o Tema 1.443. 

Na prática, a Corte vai fixar uma tese vinculante para orientar todos os casos semelhantes no Brasil. O ponto central da discussão é direto, mas de enorme impacto: a cláusula de “destinação residencial” prevista na convenção condominial, sozinha, já é suficiente para impedir locações de curta temporada por plataformas como Airbnb, mesmo que o condomínio não tenha uma proibição expressa? 

Para o advogado especialista em Direito Condominial, Dr. Issei Yuki, a decisão mostra que o tema deixou de ser uma briga pontual entre vizinhos e passou a ser uma das grandes discussões jurídicas do mercado imobiliário atual. “O STJ está reconhecendo que essa controvérsia ultrapassou os limites de casos isolados. A locação de curta temporada em condomínios residenciais envolve direito de propriedade, segurança, sossego, destinação do prédio e impacto econômico. Por isso, a resposta precisa ser uniforme, e não depender de decisões diferentes em cada tribunal.” 

Com a afetação ao rito dos recursos repetitivos, os processos pendentes que tratam da mesma questão ficam suspensos até que o STJ defina a tese final. Isso significa que ações judiciais em andamento sobre a possibilidade de aluguéis curtos em condomínios residenciais entram em compasso de espera. 

A medida não resolve imediatamente se o Airbnb pode ou não ser proibido em todos os condomínios, mas indica que o tribunal pretende pacificar uma questão que vinha gerando decisões divergentes no país. 

O debate é sensível porque envolve dois lados fortes. De um lado, proprietários alegam o direito de usar e explorar economicamente seus imóveis, inclusive por meio de locações de curta duração. De outro, condomínios argumentam que a alta rotatividade de hóspedes descaracteriza a finalidade residencial do prédio, aumenta a circulação de desconhecidos, dificulta o controle de acesso e pode afetar a segurança e o sossego dos moradores. 

O julgamento anterior da Segunda Seção já havia trazido um recado relevante: a exploração reiterada e profissional de imóveis residenciais para estadias curtas pode descaracterizar a finalidade residencial do condomínio. Naquela ocasião, prevaleceu o entendimento de que esse tipo de uso depende de aprovação de pelo menos dois terços dos condôminos. 

Agora, o Tema 1.443 aprofunda a discussão. A dúvida que o STJ irá enfrentar é se, em condomínios com destinação exclusivamente residencial, seria necessário existir uma cláusula expressa proibindo locações curtas, ou se a própria finalidade residencial já bastaria para impedir esse modelo. 

Segundo Dr. Issei Yuki, esse detalhe é decisivo. “A diferença parece técnica, mas muda completamente a vida dos condomínios. Se o STJ entender que a destinação residencial já basta para restringir as locações curtas, muitos condomínios terão respaldo para agir mesmo sem uma cláusula específica contra Airbnb. Se entender o contrário, será necessária uma previsão expressa e bem construída na convenção.” 

Enquanto a tese definitiva não é julgada, síndicos e administradoras precisam evitar decisões improvisadas. A suspensão nacional dos processos não significa que os condomínios devam ignorar situações em andamento, mas exige cautela na condução dos conflitos. 

O caminho mais seguro é revisar a convenção, analisar o regimento interno, verificar se já existem deliberações em assembleia sobre o tema e documentar eventuais reclamações envolvendo hóspedes, barulho, uso indevido de áreas comuns, festas, danos ou falhas no controle de acesso.

Também é recomendável que condomínios que desejam permitir esse tipo de atividade estabeleçam regras objetivas: cadastro prévio de hóspedes, limite de ocupação, responsabilização do proprietário, tempo mínimo de permanência, regras para uso de áreas comuns e penalidades em caso de descumprimento. 

Já para investidores, o alerta é ainda maior. Comprar um imóvel residencial pensando exclusivamente em renda por aluguel de curta temporada se tornou uma decisão que exige análise jurídica prévia. A localização, a mobília e a rentabilidade projetada não bastam. É preciso avaliar a convenção, as atas de assembleia e o posicionamento do condomínio. 

Um apartamento atrativo para hospedagem pode se tornar inviável se o prédio não autorizar esse uso ou se a tese do STJ fortalecer a possibilidade de restrição com base apenas na destinação residencial. 

A discussão também recoloca no centro do debate a função social da propriedade. O proprietário continua tendo direitos sobre sua unidade, mas, dentro de um condomínio, esse direito convive com regras coletivas. O prédio residencial não é apenas um conjunto de unidades privadas; é uma estrutura de convivência, segurança e uso comum. 

Por isso, o julgamento do Tema 1.443 tende a ter efeito direto sobre milhares de condomínios, ações judiciais, investidores e proprietários que utilizam plataformas digitais para locações de curta duração. 

Para Dr. Issei Yuki, o momento exige prudência, informação e atualização jurídica. “O pior caminho agora é agir no impulso. Nem o proprietário deve presumir que pode anunciar livremente, nem o condomínio deve agir sem base documental. Até a definição final do STJ, a palavra de ordem é cautela. O que está em jogo não é apenas o Airbnb, mas o limite entre o uso individual do imóvel e a vontade coletiva dentro do condomínio.” 

A decisão final do STJ ainda não tem data para ser julgada, mas o recado já está dado: o tema não será mais tratado como uma simples disputa entre vizinhos. A locação de curta temporada em condomínios residenciais entrou definitivamente na agenda dos grandes debates jurídicos do país.

E, quando a tese for fixada, ela poderá redefinir não apenas o funcionamento de plataformas como Airbnb em prédios residenciais, mas também a forma como condomínios brasileiros entendem propriedade, convivência e destinação residencial.  



Issei Yuki Júnior - Graduado em Direito pela Universidade São Francisco com especialização em Direito de Família e Sucessões, e mais de 25 anos de experiência como advogado nas áreas de Direito Civil e Processual Civil, Família e Sucessões, Direito Condominial, Direito do Consumidor e Consultoria empresarial e societária.
Yuki, Lourenço Sociedade de Advogados


Nome sujo, dados limpos: Como os birôs de crédito e a tecnologia podem reescrever o futuro financeiro do Brasil


Há um número que assombra o Brasil silenciosamente: 83,3 milhões. É a quantidade de brasileiros com o nome inscrito em algum cadastro de inadimplência em abril de 2026, segundo levantamento divulgado pela Serasa Experian por ocasião dos dez anos do Mapa da Inadimplência. Em uma década, esse contingente cresceu 38,1%, e o valor total das dívidas acumuladas saltou 176% no mesmo período, já descontada a inflação. Não se trata mais de um fenômeno conjuntural. Trata-se de uma ferida estrutural na vida financeira das famílias brasileiras, e entender quem mede, quem registra e quem pode ajudar a saná-la é uma questão tão urgente quanto estratégica.

 

Os birôs de crédito (ou bureaus de crédito, na terminologia do mercado) estão no centro dessa equação. Companhias como Serasa Experian, Boa Vista (administradora do SCPC), SPC Brasil e Quod são entidades autorizadas a coletar, organizar e fornecer dados financeiros e comportamentais de pessoas físicas e jurídicas. Na prática, quando alguém solicita um cartão de crédito, um financiamento ou mesmo um simples crediário, é a essas empresas que os credores recorrem para consultar o histórico do solicitante, e é o famoso score resultante dessa consulta que vai determinar se o crédito será concedido, a que taxa e em que prazo.

 

Para milhões de brasileiros, o Serasa não é apenas um banco de dados: é um julgamento. E o medo de ter o “nome sujo na praça” molda comportamentos, limita sonhos e, paradoxalmente, aprofunda o próprio ciclo de endividamento.

 

O retrato atual é grave. Segundo uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias endividadas atingiu 78,9% em dezembro de 2025 – é o maior índice para o mês em toda a série histórica, iniciada em 2010. O cartão de crédito consolidou-se como o principal vilão: responsável por 85,1% do total de famílias endividadas, ele carrega taxas que giram em torno de 90,1% ao ano. O Banco Central, por sua vez, registra que o endividamento das famílias excluindo crédito habitacional atingiu 31,22% da Renda Nacional Disponível Bruta em dezembro de 2025 – a 0,32 ponto percentual do teto histórico absoluto da série. Quase metade dos inadimplentes (48%) tem renda de até um salário-mínimo. O problema não é marginal: ele é majoritário.

 

Diante desse cenário, a dinâmica dos birôs de crédito assume uma relevância que vai muito além da simples proteção ao mercado. A Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC) revelou que 83% dos consumidores negativados em maio de 2025 já haviam enfrentado a mesma situação nos doze meses anteriores, dos quais 63% receberam uma nova negativação e 20% haviam regularizado a situação, mas voltaram a dever.

 

É a face mais cruel da armadilha: quem mais precisa de crédito acessível é quem menos consegue obtê-lo, e quem tenta renegociar sua dívida muitas vezes se vê diante de condições proibitivas que tornam o recomeço ainda mais difícil. Quebrar esse ciclo exige mais do que boa vontade, demandando dados melhores e tecnologia mais sofisticada.

 

É precisamente nesse ponto que o Open Finance e a inovação tecnológica entram como variáveis transformadoras. O Brasil consolidou-se como o maior ecossistema do gênero do mundo: em fevereiro de 2026, ao completar cinco anos de operação, o sistema já reunia mais de 100 milhões de clientes ou contas conectadas e 154 milhões de consentimentos ativos, com crescimento de 143% na quantidade de consentimentos únicos entre 2024 e 2025. O que isso representa, concretamente, é a possibilidade de uma visão 360 graus do perfil financeiro do consumidor, indo muito além do histórico negativo registrado nos birôs tradicionais.

 

Com o compartilhamento consentido de dados, modelos de Inteligência Artificial (IA) e machine learning conseguem identificar padrões comportamentais, prever capacidade de pagamento e calibrar ofertas de crédito com uma precisão sem precedentes. Para quem está negativado, isso abre uma janela: o sistema passa a enxergar não apenas o que a pessoa deve, mas o que ela é capaz de honrar.

 

Já a portabilidade de crédito, iniciada em 2026 via Open Finance, promete ampliar a concorrência entre instituições e permitir a migração automática de dívidas para condições mais vantajosas. Estamos falando de uma revolução silenciosa com impacto real no bolso do consumidor endividado.

 

O Cadastro Positivo é outro pilar dessa transformação. Instituído pela Lei nº 12.414/2011 e com inclusão automática desde 2019, ele reúne o histórico de pagamentos (quitados, em andamento e em atraso) de pessoas físicas e jurídicas. Sua lógica é simples e poderosa: em vez de apenas punir quem deve, o sistema também recompensa quem paga. Segundo a Quod - birô formado pelos maiores bancos do país -, o Cadastro Positivo tem potencial de incluir entre 20 e 30 milhões de brasileiros no mercado de crédito, ao permitir a análise de consumidores não-bancarizados que, apesar de não terem renda comprovada formalmente, honram contas de água, energia, telefone e gás.

 

O resultado esperado é duplo: mais inclusão financeira e juros menores para os bons pagadores, uma vez que a precificação do risco se torna mais detalhada e justa. Em um país onde quase metade dos inadimplentes tem renda de até um salário-mínimo, essa diferenciação não é apenas técnica: é humanamente relevante.

 

No plano das políticas públicas, o governo federal lançou, em maio de 2026, o Novo Desenrola Brasil, dando continuidade ao programa iniciado em 2023. O novo programa atende pessoas com renda mensal de até cinco salários-mínimos (R$ 8.105), abrangendo dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal contraídas até 31 de janeiro de 2026, com atrasos entre 90 dias e dois anos. Os descontos são escalonados conforme o tempo de inadimplência: para o rotativo do cartão e cheque especial, vão de 40% para atrasos de 91 a 120 dias a até 90% para débitos com mais de um ano. Os juros das novas condições foram limitados a 1,99% ao mês, e o programa permite o uso de até 20% do saldo do FGTS para abatimento das dívidas.

 

Em menos de duas semanas de operação, cerca de 200 mil pedidos de renegociação já haviam sido enviados aos bancos participantes, com quase R$ 1 bilhão em débitos renegociados. A primeira edição do programa, realizada entre 2023 e 2024, havia permitido que cerca de 15 milhões de pessoas renegociassem mais de R$ 53 bilhões em dívidas. Iniciativas como essa, quando combinadas com a infraestrutura tecnológica dos birôs e do Open Finance, ganham escala e consistência que não seriam possíveis em um ecossistema analógico.

 

Por trás dessa transformação existe uma infraestrutura tecnológica robusta. Processamento massivo de dados, integração entre plataformas financeiras, automação de compliance, segurança cibernética e modelos avançados de analytics tornaram-se elementos centrais para o funcionamento dos birôs modernos.

 

Não se trata apenas de armazenar informações, mas de transformar dados dispersos em inteligência acionável para bancos, fintechs, varejistas e consumidores. Em um mercado financeiro cada vez mais digital, a qualidade da tecnologia empregada passa a ser determinante tanto para reduzir riscos quanto para ampliar inclusão financeira.

 

Fica claro, portanto, que o Brasil vive um momento de inflexão. De um lado, um endividamento que bateu recordes históricos e uma inadimplência que marca, de forma desproporcional, os mais vulneráveis. De outro, um ecossistema tecnológico sem paralelo no mundo, com Open Finance maduro, birôs de crédito evoluindo para além da negativação e plataformas de inteligência de dados capazes de transformar informação em inclusão.

 

Para as organizações de tecnologia que operam nesse universo, o papel não é apenas o de fornecer ferramentas. É o de ajudar a construir uma infraestrutura de confiança, em que dados bem tratados se traduzam em oportunidades reais para quem mais precisa.

 

O “medo do Serasa” é legítimo e compreensível, porém ele pode, e deve, dar lugar a um sistema em que o histórico financeiro de uma pessoa seja um ativo, e não apenas um registro de suas dificuldades.

 

 Sergio Favarin - Business Vice President da GFT Technologies no Brasil

 

Chiloé: o arquipélago onde o Chile guarda seus mitos, suas igrejas de madeira e um modo de viver fora do tempo

Créditos: Sebastian Olivos

No sul chileno, entre brumas e palafitas coloridas, um conjunto de ilhas preserva uma cultura mestiça única na América do Sul

 

Existe um Chile que escapa das rotas de cartão-postal. Não está nos vinhedos do vale central nem nas torres de granito da Patagônia, mas algumas horas ao sul de Puerto Montt, onde o continente se desfaz em água e o mapa se fragmenta em dezenas de ilhas. Ali está Chiloé, arquipélago que vem despertando atenção crescente da imprensa internacional de viagens justamente por oferecer o que se tornou raro: autenticidade não encenada. Em um momento em que o viajante busca experiência em vez de checklist, Chiloé responde com neblina, madeira, gastronomia, fé e uma mitologia tão viva que ainda hoje se infiltra nas conversas dos pescadores.

 

Onde fica e o que é Chiloé

O arquipélago integra a Região de Los Lagos e reúne cerca de trinta e cinco ilhas em torno da Isla Grande de Chiloé — a segunda maior do Chile e a quinta da América do Sul. Separada do continente pelo Canal de Chacao, a ilha desenvolveu, ao longo de séculos de relativo isolamento, uma identidade própria, distinta do resto do país. Por ali se diz que a terra e o mar são uma coisa só, e a paisagem confirma isso: campos verdes que terminam abruptamente no Pacífico, casas erguidas sobre palafitas dentro da água e um céu quase sempre carregado, que torna ainda mais intenso o colorido das fachadas.
 

Como chegar a partir do Brasil

Não há voo direto do Brasil para Chiloé — e isso faz parte do percurso. O caminho mais comum passa por Santiago, e de lá segue-se de avião até o Aeroporto El Tepual (PMC), em Puerto Montt, a porta de entrada tradicional para a região. Existe também o pequeno Aeroporto de Mocopulli (MHC), perto de Castro, já dentro da ilha, com menor frequência de voos — por isso muitos viajantes preferem desembarcar em Puerto Montt.

 

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A travessia em si é parte da experiência. De Puerto Montt percorrem-se cerca de 60 km ao sul pela Rota Panamericana ou Rota 5, por estrada asfaltada, até o porto de Pargua, de onde partem as balsas pelo Canal de Chacao rumo ao povoado de Chacao, na ilha. A balsa opera 24 horas, com saídas a cada 15 a 20 minutos e uma travessia de aproximadamente 30 a 40 minutos — tempo suficiente para, com sorte, avistar golfinhos e cisnes. Uma curiosidade atual: uma ponte suspensa, a Ponte de Chacao, está em plena construção há anos, com previsão de conclusão por volta de 2028; até então, a balsa continua sendo o único acesso terrestre, e seus dias podem estar contados. Quem chega de ônibus a partir de Puerto Montt faz tudo de uma vez só — a passagem já inclui a balsa, e o veículo embarca na própria balsa. 

Dentro do arquipélago, o deslocamento ideal é de carro alugado: as distâncias são curtas, mas o transporte público é limitado e boa parte do encanto está em estradas secundárias, muitas sem pavimentação, que levam a capelas isoladas e mirantes inesperados.
 

Quando ir

Chiloé não é um destino de bom tempo garantido — e quem entende isso aproveita melhor. O verão austral (dezembro a março) é a alta temporada: dias mais longos, clima ameno, festivais gastronômicos e a melhor janela para trilhas e observação de fauna. É também quando a balsa pode ter filas de mais de duas horas nos fins de semana. A meia-estação (outubro-novembro e março-abril) costuma ser o ponto de equilíbrio: menos gente, paisagens verdes e preços mais baixos. 

O inverno, por sua vez, entrega o Chiloé mais atmosférico e melancólico — frio, chuvoso e nebuloso, ideal para quem busca a ilha das lendas e das igrejas vazias. É também a temporada perfeita para descobrir o curanto, o prato mais emblemático do arquipélago: frutos do mar, carnes e batatas cozidos lentamente em um buraco escavado na terra, sobre pedras aquecidas em brasa e cobertos com folhas de nalca, um método ancestral que enche o ar de vapor e aroma. Ainda assim, a temporada exige disposição para o clima instável. Em qualquer época, leve casaco ou capa de chuva: corre vento na travessia e o tempo muda em minutos.

 

Créditos: Jaume Arrieta

Cultura e identidade: o coração de Chiloé

É na cultura que o arquipélago se torna realmente singular. A base é a herança huilliche, povo originário de tronco mapuche, e chono, povo canoeiro dos canais austrais, sobre a qual se assentou a colonização espanhola e, sobretudo, a evangelização jesuíta a partir do século XVIII. Desse encontro nasceu uma cultura mestiça que se materializa de forma espetacular na arquitetura. 

As igrejas de madeira de Chiloé são o maior símbolo dessa fusão. Foi erguido cerca de uma centena de templos no arquipélago, dos quais 16 são Patrimônio da Humanidade pela UNESCO — quatorze inscritos no ano 2000 e outros dois, Caguach e Chelín, somados em 2001. São templos construídos inteiramente em madeira, segundo a chamada "escola chilota": os mesmos mestres que sabiam construir embarcações aplicaram esse saber às naves das igrejas, cujos telhados lembram cascos de embarcação invertidos. A joia mais célebre é a Igreja de Santa María de Loreto, em Achao — de 1740, montada com encaixes e cavilhas, sem um único prego, e hoje Monumento Nacional, com um pequeno museu de imaginária esculpida por santeiros chilotes. As fachadas, pintadas em azuis, amarelos e vermelhos vibrantes, funcionaram historicamente também como pontos de referência para quem navegava. 

Igualmente icônicas são as palafitas — casas de madeira erguidas sobre estacas à beira da água, pintadas em cores fortes, que se tornaram o cartão-postal de Castro, sobretudo no bairro Gamboa. E há a dimensão invisível: a mitologia chilota, talvez a mais viva da América do Sul, que não é folclore de museu, mas um imaginário que ainda explica o cotidiano. Três figuras dominam esse universo. O Trauco, o mito mais temido: um ser pequeno e deformado que habita a floresta, carrega um machado de pedra com o qual golpeia as árvores e, segundo a crença, seduz com o olhar as jovens. A Pincoya, sereia formosa de cabelos dourados que protege o mar e rege a abundância da pesca — se dança olhando para o oceano, haverá fartura; se dança de costas, escassez. E o Caleuche, o navio fantasma tripulado por feiticeiros que navega sob a superfície envolto em neblina e luzes, do qual se diz que enriquece os comerciantes que fazem pactos com ele. O estilo de vida segue o ritmo das marés e da terra: pesca, trabalho comunitário e o cultivo da batata, da qual Chiloé preserva mais de 200 variedades nativas.
 

O que ver e fazer

Castro, a capital e terceira cidade mais antiga do Chile, concentra as palafitas mais fotografadas, a colorida Igreja de San Francisco e uma cena gastronômica em ascensão. Ancud, ao norte, preserva a explanada do Forte San Antonio — onde foi hasteada por última vez a bandeira espanhola no Chile — e seu Museu Regional, além de servir de base para as pinguineiras de Puñihuil, reserva natural onde convivem pinguins-de-magalhães e pinguins-de-humboldt, raridade no mundo. Dalcahue é parada obrigatória por seu mercado de artesanato em lã e suas cozinhas tradicionais, e funciona como porta de embarque para a Isla Quinchao, com os povoados de Achao e Curaco de Vélez. O Parque Nacional Chiloé, criado em 1982, protege mais de 42.000 hectares de floresta fria valdiviana, dunas e trilhas que descem ao Pacífico em setores como Cucao, território privilegiado para o ecoturismo e a observação de aves e mamíferos marinhos. 

 Créditos: Jaume Galofe

Para quem dispõe de mais tempo, o arquipélago premia a exploração. Puqueldón, na Isla Lemuy, foi reconhecida em 2022 como uma das "Best Tourism Villages" pela Organização Mundial do Turismo e guarda três igrejas UNESCO — Ichuac, Aldachildo e Detif — além de experiências de turismo rural em torno da batata. Quellón, no extremo sul, marca o fim da estrada Panamericana que começa no Alasca. E a pequena Isla Aucar, conectada por uma passarela de madeira, é conhecida como "a ilha das almas navegantes" pela lenda que a habita. 

A mesa merece capítulo próprio. O prato emblemático é o curanto: frutos do mar, carnes, batata e os bolinhos chamados milcao e chapalele, cozidos sobre pedras quentes enterradas no solo e cobertos com folhas de pangue — um preparo feito "entre muitas mãos" e que simboliza o espírito solidário do povo chilote. Frutos do mar fresquíssimos, lendas e batata: essa é a tríade de Chiloé. 

Chiloé não se entrega rápido nem se explica por completo — e é justamente isso que o torna um dos destinos mais autênticos, enigmáticos e culturalmente ricos da América do Sul. É o Chile que se atravessa de balsa, que se mede pelas marés e que ainda crê em seus próprios mitos. Para quem está disposto a desacelerar e escutar, o arquipélago oferece algo cada vez mais escasso: a sensação de ter chegado a um lugar que ainda é, de fato, ele mesmo.


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