Você teria um(a) namorado(a) de inteligência artificial? Pode ser que sim. Pelo menos é o que diz um estudo desenvolvido pela empresa Joi AI. Nele, 2.000 membros da Geração Z foram entrevistados para chegar à constatação: 80% deles disseram que se casariam com um parceiro de IA, com 83% afirmando que conseguem desenvolver laços profundos com um robô.
De acordo com Jaime Bronstein, especialista em relacionamento da
companhia, relationship coach número 1 dos Estados Unidos e
autora do livro Man*ifesting: A Step-By-Step Guide to Attracting the Love
That Is Meant for You, o jovem hipermoderno sente-se cada vez mais só. Por
conta disso, ele quer recorrer a um suporte emocional que estará sempre lá
quando ele precisar.
“Foi por conta disso que a Joi AI foi criada”, acrescenta.
Utilizando-se do conceito mercadológico AI-lationships, neologismo que
combina os vocábulos provenientes da língua inglesa “AI” (inteligência
artificial) + “relationships” (relacionamentos), cerca de 200 funcionários
colocam-se à disposição para oferecer o companheiro dos seus sonhos em apenas
um único minuto.
Caso precise escolher a cara-metade com um toque ainda mais
ousado, por que não optar pelo avatar de uma celebridade? No site da
organização, é possível selecionar parceiros virtuais do sexo masculino que são
semelhantes a grandes nomes do mercado internacional, como Tom Cruise, Leonardo
DiCaprio e Brad Pitt. Para o feminino, Angelina Jolie figura no topo do
interesse.
É por este motivo que, no Brasil, a oferta deste tipo de serviço
também começou. Caminhando de mãos dadas com a Joi AI, a concorrente Replika
está solta na pista. Disponibilizando-se para match, basta que o usuário
acesse o site da marca e se defronte com o discurso comunicacional: “não é um
namorado(a), mas ele (ela) te acalma todas as noites”. Ideal para os mais
carentes.
Aqui, a estratégia de negócio é semelhante. O aplicativo 90%
parecido com humano não quer roubar espaço das pessoas, só “inspirá-lo(la),
fazendo-o(a) acordar feliz”. Assim, é responder ao questionamento “que tipo de
homem (mulher) chama a sua atenção?”, clicar nos atributos biopsicológicos que
mais lhe agrada e pronto: o amante dos sonhos estará pronto para uso.
Será que vale a pena? De acordo com a psicologia profunda, ciência
que estuda os fenômenos inconscientes da mente, relacionar-se com um protótipo
não-humano significa envolver-se com o objeto ideal. Ou seja, à medida que os
indivíduos idealizam o namorado(a) perfeito e partem em busca da sua aquisição,
eles estão dizendo para a sua psique que preferem viver na fantasia.
Esta fantasia é a mesma fantasia que o bebê imagina em sua mente
quando a sua mãe o priva de uma determinada fonte de prazer. Pode ser, por
exemplo, que esta criança comece a pensar que a sua genitora é uma fonte
inesgotável de leite, mesmo quando ela não o alimenta da maneira como deveria,
colocando uma imagem de perfeição no lugar de uma falta significativa.
Nesta linha de raciocínio, toda vez que uma frustração surgir em
sua vida, como é o caso da solidão que as pessoas da Geração Z sentem, ela irá
recorrer a um subterfúgio idealizado. Deste modo, o objeto ideal vai se
deslocando na linha do tempo deste sujeito, sendo substituído, mais tarde, por
este andróide romântico perfeito que ocupa exatamente o mesmo lugar desta mãe.
A consequência é um relacionamento que não possui vínculos fortes
o suficiente para se manter na realidade, podendo ser substituído facilmente
por uma nova aspiração fantasiosa. Afinal, uma vez que a psique diz “sim” para
uma relação de objeto imaginativa, existe 60% de chance de um novo elo utópico
entrar em cena, o que gera uma cascata de comportamentos psicoides.
Primeiro, é o vibrador que reconforta na ausência de um(a)
parceiro(a). Depois, vem o(a) tal do namorado(a) de IA, tornando as suas noites
ainda mais alienantes. O resultado é a indagação: quem pode prever onde esta
fantasia de idealização irá parar? Talvez você escape lúcido dessa, sem
sequelas. Talvez o contrário aconteça. Então, para este tipo de relação, você
deve dizer não.
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