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| Número de armas de fogo registradas no Brasil subiu 3,2% entre 2023 e 2024, totalizando mais de 2 milhões em sistema oficial de controle (imagem: Nelson Provazi/Pesquisa FAPESP) |
Revisão de 467 estudos aponta também que, em vez de aliviar a sensação de medo e ansiedade, armas aumentam esses sentimentos, além de exacerbar comportamentos controladores, provocando violência doméstica
O acesso a
armas de fogo, além dos riscos físicos e à vida, tem impacto na saúde mental:
aumenta o número de suicídios, intensifica quadros de fragilidade psicológica e
amplia dinâmicas de violência. É o que conclui uma pesquisa publicada na edição de setembro da
revista científica Harvard Review of Psychiatry.
Liderado por pesquisadores do
Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(FM-USP), o grupo fez uma revisão sistemática de 467 estudos de diversos países
divulgados até março de 2023. A maior parte – 81% do total (378) – foi
realizada nos Estados Unidos, 6% na Europa Ocidental, 4% na Austrália, 3% no
Canadá e o restante distribuído em outras regiões.
A análise explorou as ligações
entre acesso a armas de fogo, comportamento agressivo, uso e abuso de
substâncias, violência social e doméstica e suas influências na saúde mental.
Foram identificados três mecanismos psicológicos relacionados a esses fatores.
O primeiro deles é que as armas
facilitam atos impulsivos em momentos de crise ou sofrimento. O suicídio é o
principal desfecho – apareceu em 284 estudos (61% do total). A análise
demonstrou que a presença de arma em uma residência aumenta de três a cinco
vezes o risco de suicídio, independentemente do estado de saúde mental anterior
do indivíduo. Quando há armazenamento seguro, esse risco diminui, porém
permanece em patamar considerado alto.
Um segundo mecanismo é que a
arma funciona como uma espécie de “amplificador psicológico”, acentuando
quadros de alguns transtornos mentais. Ou seja, em vez de aliviar a sensação de
medo e ansiedade, aumenta esses sentimentos, derivando em agressões. Além
disso, agrava os sintomas de trauma em pessoas expostas à violência armada,
criando um ciclo de retroalimentação, em que piora o sofrimento em vez de
aliviar.
Por fim, ela serve como símbolo
que transforma dinâmicas de poder e percepções de vulnerabilidade, exacerbando
comportamentos controladores e derivando em casos de violência social e
doméstica.
“Entendendo que todas as
pessoas estão suscetíveis a fragilidades humanas, a possibilidade de haver
ferramentas altamente letais disponíveis nas mãos da população em geral, em vez
de aumentar a sensação de segurança e de proteção e melhorar a regulação
emocional do indivíduo, acaba tendo efeito contrário, como vemos nos estudos.
Evidencia as fragilidades emocionais, aumenta a sensação de medo e a
agressividade, com elevação de casos de assédios e violência”, explica à Agência
FAPESP o psiquiatra Rodolfo Furlan Damiano, autor
correspondente do artigo.
Juntamente com o professor da Faculdade
de Medicina da USP Eurípedes Constantino Miguel Filho, Damiano coordena o Programa de Ensino, Pesquisa e Assistência em
Depressão Resistente ao Tratamento, Autolesão e Suicidalidade (Pro-DRAS). Tem o
apoio da FAPESP por meio de bolsa de pós-doutorado em
um projeto que busca fornecer informações sobre a eficácia e a viabilidade de
intervenções rápidas para a prevenção do suicídio.
No ano passado, outra pesquisa
coordenada por Damiano mapeou fatores de risco e proteção para comportamentos
suicidas, mostrando que pessoas com transtornos de controle de impulso (TCIs)
estão no grupo de risco (leia mais em: agencia.fapesp.br/52881).
Triagem
dos estudos
A revisão seguiu uma diretriz
conhecida como Prisma (sigla para Preferred Reporting Items for Systematic
Reviews and Meta-Analyses), um conjunto de 27 itens que sistematiza a
coleta e extração de dados para esse tipo de pesquisa.
Partiu de uma base de 3.930
artigos da PubMed, Scopus, Web of Science e PsycInfo.
O protocolo de triagem deu prioridade a estudos das áreas de criminologia,
saúde pública e sociologia, com desfechos diretos e/ou implicações comprovadas
em fatores psicológicos. Resultou, assim, nos 467 artigos abordando posse de
armas, violência e políticas e seus efeitos na saúde mental.
“A ideia desse trabalho nasceu
da ligação de suicídio e armas de fogo, porém detectamos que poderia ser algo
mais abrangente. Quando se trata de acesso a armas, a discussão sempre está
relacionada ao tema da segurança pública. Nosso objetivo com a pesquisa não foi
lidar nessa esfera, mas sim na da saúde mental, que é um ponto importante e
pouco contemplado”, explica Damiano.
Nas conclusões, os cientistas
sugerem a adoção de políticas públicas que englobem evidências científicas
também ligadas à saúde.
“Essa revisão destaca a
necessidade urgente de políticas abrangentes que abordem o acesso a armas de
fogo, enfrentem as determinantes sociais dos danos causados por elas e promovam
intervenções em saúde mental. Uma abordagem integrada, que considere esses
fatores individuais e sociais, é essencial para mitigar os complexos caminhos
psicológicos pelos quais afetam diferentes populações”, escrevem os autores no
artigo.
Situação
no Brasil
Mesmo tendo uma pequena base
amostral de pesquisas no Brasil, Damiano diz que os resultados são aplicáveis
também à realidade do país. “Estamos tratando do ponto de vista da saúde mental
e do impacto humano, que é possível extrapolar”, afirma o psiquiatra.
A compra de armas de fogo no
Brasil – tanto de uso permitido como de calibre restrito – tem uma série de
regras e é feita após a autorização de órgãos federais – como a Polícia Federal
e o Exército, em alguns casos. Além de ter no mínimo 25 anos, a pessoa deve,
entre outros, apresentar certidão negativa de antecedentes criminais e
comprovar capacidade técnica e aptidão psicológica para o manuseio.
Mesmo com a desaceleração no
ritmo de crescimento desde 2018, o número de armas de fogo registradas no
Brasil subiu 3,2% entre 2023 e 2024, totalizando 2,154 milhões de registros no
Sistema Nacional de Armas (Sinarm), ligado à Polícia Federal. Os dados estão
no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.
Damiano diz que pretende
continuar o trabalho de revisão, com foco em leis de restrição de acesso a
armas.
O artigo The impact of
firearm ownership, violence, and policies on mental health: a systematic
scoping review pode ser lido em: https://journals.lww.com/hrpjournal/abstract/2025/09000/the_impact_of_firearm_ownership,_violence,_and.1.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/presenca-de-arma-em-residencia-aumenta-de-tres-a-cinco-vezes-o-risco-de-suicidio/55908

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