O virologista Fernando Spilki analisou os riscos e desafios da circulação global do vírus durante o 57º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, que acontece até sexta (19), no Riocentro, Rio de Janeiro
A ameaça de uma nova pandemia voltou ao centro das
discussões científicas durante o 57º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica
e Medicina Laboratorial (CBPCML). Na mesa desta quarta-feira (17), dedicada às
doenças emergentes, o veterinário e virologista Fernando Spilki, doutor em
Genética e Biologia Molecular pela Unicamp e coordenador da Rede de Vírus do
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), apresentou a palestra “H5N1:
Nova pandemia?”, na qual trouxe um panorama histórico e atual sobre a
circulação do vírus influenza aviária de alta patogenicidade.
Segundo Spilki, o H5N1 reúne praticamente todas as características
que tornam o influenza um dos vírus mais perigosos do ponto de vista evolutivo
e epidemiológico. “Se existe um vírus com grande capacidade de evoluir e se
adaptar a novas espécies, esse vírus é o influenza. Ele gabarita todas as
possibilidades de adaptação em virologia, desde mutações e recombinações
genéticas até o salto entre diferentes hospedeiros”, destacou.
O pesquisador relembrou a trajetória do H5N1 desde os primeiros
surtos, nos anos 1990, em Hong Kong, quando a mortalidade ultrapassava 50%.
Desde então, o vírus passou por mutações, ressurgiu em 2003 e ganhou novos
contornos com a emergência de diferentes linhagens, como o clado 2.3.4.4 (uma
linhagem do vírus H5N1 que se espalhou globalmente e passou a infectar
diferentes espécies de aves e mamíferos), responsável pela disseminação global
em aves e, mais recentemente, em mamíferos.
Um dos pontos mais preocupantes, segundo Spilki, é o avanço do
H5N1 para novas espécies, incluindo bovinos leiteiros nos Estados Unidos e
leões-marinhos no litoral do Rio Grande do Sul, onde surtos recentes vêm sendo
monitorados. “Cada vez que o vírus entra em uma nova espécie, ele acumula
mutações que aumentam suas chances de adaptação. Isso amplia a possibilidade de
transmissão mais eficiente para humanos”, explicou.
Apesar do alerta, o pesquisador foi cauteloso ao responder à
pergunta central de sua palestra. “Estamos sempre tentando prever o futuro,
quase como em uma bola de cristal. Não é possível afirmar se o H5N1 será o
causador da próxima pandemia, mas ele tem potencial para isso. E, diante desse
cenário, a vigilância genômica e a cooperação internacional tornam-se
indispensáveis”, afirmou.
Spilki também chamou a atenção para os impactos econômicos e
ambientais da disseminação do vírus, que já levou à suspensão de exportações de
aves no Brasil e trouxe desafios para o manejo de carcaças em países como os
Estados Unidos. Além disso, destacou que as vacinas convencionais contra
influenza não oferecem proteção contra o H5N1, o que aumenta a vulnerabilidade
humana.
Para o virologista, a grande lição é que a sociedade precisa estar
preparada. “A pergunta não é se teremos uma nova pandemia, mas quando e qual
vírus será o protagonista. O que não podemos ter é falta de informação.
Precisamos de transparência e troca de dados em tempo real entre países. Esse é
o nosso maior instrumento de defesa”, concluiu.
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