Mesmo com crescimento de 8,2% em 2024, setor encolheu em faturamento em dólar, em cenário de deflação setorial, pressão cambial e margens reduzidas, diz ABIPLA no lançamento de seu Anuário 2025.
O mercado brasileiro de produtos de limpeza registrou a
aceleração de uma mudança de comportamento que começou com a pandemia e se
acentuou nos anos seguintes: a migração para marcas de menor valor agregado.
Segundo dados apresentados pela NielsenIQ, no lançamento do Anuário ABIPLA –
Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e
Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional 2025, no dia 3 de julho, as
marcas que oferecem produtos de linhas populares (low tier) cresceram o dobro
daquelas que oferecem linhas de alto padrão (high tier), com preço médio 50%
menor e maior presença em promoções e gôndolas de atacarejos ao longo de 2024.
Dessa forma isso, as marcas high tier perderam 6% de participação no setor, com
preços até 1,5 vezes acima da média.
“Nos últimos meses, a inflação acelerou no Brasil e isso
reconfigurou as demandas do consumidor em relação aos produtos de limpeza, já
que, para grande parte da população, é preciso escolher o que pagar e o que
consumir, e isso impacta diretamente o nosso setor, que é extremamente sensível
ao poder de compra”, explicou Juliana Marra, presidente
da ABIPLA, lembrando que, apesar da alta na inflação geral, os produtos
de limpeza registraram queda média de 1,2% nos preços ao consumidor em 2024,
segundo o INPC – Índice Nacional de Preços ao Consumidor.
A tendência se intensificou com o avanço dos canais de
atacarejo e com o comportamento do consumidor, que tem optado por embalagens
maiores, promoções e marcas intermediárias ou econômicas. Segundo levantamento
da NielsenIQ, a maior parte do crescimento em categorias como sabão líquido e
amaciante concentrado veio de marcas low tier — 60% e 40%, respectivamente.
O cenário de migração de marcas e produtos, por sinal, é
facilmente identificado nos dados divulgados no Anuário da entidade. Apesar de o
setor ter registrado alta de 8,2% no volume produzido em 2024, o faturamento em
dólares recuou, passando de US$ 7,485 bilhões em 2023 para US$ 7,170 bilhões em
2024.
A retração é atribuída não apenas à troca por marcas mais
baratas, mas também a fatores conjunturais, como a desvalorização do Real — a
maior entre as moedas do G20 em 2024 – e à própria deflação setorial citada
anteriormente.
No entanto, vale lembrar que, apesar da queda dos preços
de produtos de limpeza nas gôndolas, a indústria do setor teve de lidar com o
crescente custo de produção em 2024. De acordo com dados do Índice de Preços ao
Produtor, a alta média do setor no ano passado foi de 3,75%. “Os números
claramente não batem. O setor reduziu os preços de seus produtos ao consumidor
final e registrou aumento de produção, mesmo com um custo de operação mais
alto. Isso impacta diretamente nas margens, o que é um sinal de alerta para o
setor, porque mostra um consumo orientado em demasia ao preço, e isso limita
nossa capacidade de inovar, investir e sustentar empregos”, afirma
Juliana.
Diante desse cenário, o setor se mostra cauteloso para 2025.
O desempenho acumulado de janeiro a maio deste ano já mostra queda de 4,1% na
produção, e a expectativa das empresas é de um ano mais desafiador, com
manutenção das pressões de custo, volatilidade cambial e concorrência acirrada
nos segmentos de menor valor agregado.
“Hoje, estamos sendo pressionados por todos os lados: câmbio, impostos, informalidade e margens em queda. O setor é robusto e inovador, mas a realidade é que precisamos de um ambiente econômico e regulatório estável para nos mantermos competitivos”, conclui Juliana Marra.
O Anuário Abipla 2025 está disponível no site da entidade: https://abipla.org.br
Juliana Marra - graduada em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com especialização em Relações Governamentais, no Insper, e Executive MBA, na Fundação Dom Cabral. Ela comanda a área de Assuntos Corporativos da Unilever e é a primeira mulher a ocupar a presidência da ABIPLA, estando em seu segundo mandato. Também participa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do atual Governo e já foi presidente do IdQ- Instituto Nacional do Desenvolvimento da Química.
Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional – ABIPLA
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