Nos últimos anos, o debate sobre
inovação no setor da saúde se intensificou - especialmente diante dos avanços
em inteligência artificial, tecnologia vestível, integração de dados e novos
modelos de atendimento. No entanto, uma peça-chave desse ecossistema insiste em
se mover lentamente: os planos de saúde.
A impressão é clara: enquanto o mundo
avança com tecnologias que prometem mais precisão, prevenção e personalização,
os planos continuam presos a um modelo que enxerga inovação como custo - não
como valor. Mas até quando essa lógica se sustentará?
Os números da Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS) mostram um cenário revelador: os planos de saúde registraram
lucro líquido de R$11,1 bilhões em 2024, um aumento de 271% na comparação com
2023. Para colocar em perspectiva, esse resultado é superior ao obtido nos três
anos anteriores somados. No entanto, a mesma ANS limitou o reajuste para planos
individuais em 6,91% (maio/2024–abril/2025).
Ou seja, embora as receitas cresçam, os
custos para o consumidor são mantidos relativamente controlados, deixando no ar
a pergunta: onde está sendo investido esse lucro?
De acordo com o Censo 2022 do IBGE, a
saúde suplementar caminha em ritmo acelerado. O número de beneficiários cresceu
12% entre 2010 e 2022 - quase o dobro do crescimento da população brasileira,
que foi de 6,5% no mesmo período. Isso demonstra que a demanda por serviços
privados só aumenta. Mas será que essa demanda está sendo atendida por planos
que acompanham a inovação e as necessidades reais dos usuários?
É fato que vivemos em um país onde os
serviços de urgência e emergência são majoritariamente responsabilidade do SUS.
Ainda assim, os planos privados ocupam um papel central como articuladores do
sistema. A questão é que, apesar de contarem com uma quantidade crescente de
dados e soluções tecnológicas, muitos ainda preferem manter-se inertes,
operando em estruturas ultrapassadas, desconectadas e com uma visão fragmentada
do paciente.
Cada stakeholder desse ecossistema -
hospitais, médicos, operadoras, pacientes - continua olhando apenas para o seu
pedaço da jornada. E é justamente essa falta de visão sistêmica que impede
avanços reais. Não é por acaso que empresas que se verticalizam e oferecem
soluções ponta a ponta têm crescido. Elas enxergam o todo, conectam as pontas e
- mais importante - integram tecnologia com propósito.
A pandemia evidenciou a urgência de
transformação. A flexibilização do Conselho Federal de Medicina em relação à
telemedicina, por exemplo, escancarou a possibilidade de escalar o atendimento
com eficiência. Hoje, é possível imaginar um médico recebendo suporte de
inteligência artificial com dados contextuais antes de uma consulta - seja
online ou presencial. Isso não substitui o profissional, mas amplia sua
capacidade de tomada de decisão. Ainda assim, poucos planos estão investindo
seriamente nessa estrutura.
Não é só uma questão tecnológica - é
uma mudança de postura. Fala-se muito sobre planos super premium, com promessas
de acesso a hospitais de ponta. Mas a inovação não pode ser privilégio de poucos.
A verdadeira transformação está na base: integrar dados, promover a prevenção,
reconhecer hábitos e personalizar os cuidados. Isso, sim, gera valor real.
Isso, sim, reduz custos no médio e longo prazo.
A saúde baseada em dados não é mais um
conceito futurista. Hoje, com uma simples pulseira inteligente, já consigo
monitorar meus batimentos, níveis de estresse e sono. Compartilho essas
informações com meu médico, que passa a atuar de forma muito mais estratégica.
Às vezes, a prescrição não será um remédio, mas uma mudança de rotina. Esse é o
ponto: a tecnologia não substitui o cuidado humano, mas o potencializa.
Enquanto isso, seguimos com sistemas de
gestão que tratam o paciente como um número - e não como alguém com histórico,
contexto e necessidades específicas. Continuamos pagando por retratamentos,
exames duplicados e consultas desnecessárias simplesmente porque os sistemas
não se conversam. A descentralização dos dados segue como um gargalo imenso.
Grandes empresas tentaram resolver isso há mais de uma década e desistiram. Mas
o problema persiste.
O que falta, então? Visão. Coragem.
Liderança. Os planos de saúde precisam deixar de enxergar a inovação como
ameaça. Precisam entender que o maior risco hoje é continuar apostando em um
modelo ultrapassado, que privilegia o volume em detrimento da qualidade. A
inovação não é um custo: é a única forma de tornar o sistema sustentável no
futuro.
E aqui está a provocação: quanto vai
custar manter o modelo atual pelos próximos cinco anos? Talvez
seja hora de repensar não apenas a tecnologia, mas a mentalidade. Porque no fim
do dia, inovar na saúde é cuidar melhor de pessoas - com inteligência, com
empatia e com visão de longo prazo.
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