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| Crédito: Leekyung kim |
Espetáculo, dirigido por Eric Lenate e codirigido por Vitor Julian, expõe horrores do totalitarismo e celebra a resistência da arte sobre a barbárie
Sucesso da dramaturgia nacional, a peça
Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de Bosco Brasil, ganhou uma
nova montagem dirigida por Eric Lenate em codireção com Vitor Julian.
No palco, Lenate divide a cena com Fernando Billi. O
espetáculo, que ainda tem direção de produção de Mauricio Inafre estreou
em São Paulo, e agora segue para a capital carioca para uma temporada de 30 de
abril a 28 de junho, no Teatro Poeira, com sessões de quinta a sábado, às 20h,
e aos domingos, às 19h.
Montada
pela primeira vez em 2002, sob a direção de Ariela Goldmann, a peça fez um
enorme sucesso de crítica e de público e recebeu os prêmios Shell e APCA
daquele ano. O texto também foi traduzido para diversos idiomas e ganhou
montagens em Portugal, Itália, Argentina, Porto Rico, Uruguai, Chile e México.
Além disso, foi adaptado para o cinema no longa-metragem “Em Tempos de Paz”
(2009), dirigido por Daniel Filho e estrelado por Tony Ramos e Dan
Stulbach.
A peça é uma fábula de época, que se
passa durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), já no final da Segunda
Guerra Mundial, e narra a história de Clausewitz, um refugiado polonês que
chega ao Brasil disposto a esquecer os horrores que viveu em sua terra natal.
Ao se apresentar à Alfândega, em abril de 1945, carregando apenas a roupa do
corpo e o sonho de começar uma nova vida como agricultor, ele é barrado por
Segismundo, um funcionário da imigração e ex-torturador da polícia política
varguista.
Clausewitz chega sem nenhum pertence,
sem apresentar nas mãos qualquer marca típica da vida de agricultor e, o mais
estranho, falando português fluentemente. Segismundo suspeita que o
imigrante polonês seja um nazista disfarçado tentando entrar no país e inicia
um duro interrogatório. A tensão culmina em um ultimato: Clausewitz tem 10
minutos para cumprir uma tarefa inusitada ou voltará no mesmo cargueiro que o
trouxe. Começa então um intenso embate entre os dois homens que, irmanados em
suas derrotas pessoais, procuram a emoção que poderá ou não resgatar suas
humanidades.
Na nova encenação, Fernando Billi
assume o papel do interrogador Segismundo e Lenate, do imigrante polonês
Clausewitz. O espetáculo teve sua estreia nacional na 17ª FITA – Festa
Internacional de Teatro de Angra, em agosto de 2025, na qual venceu o Prêmio
FITA 2025 de Melhor Cenário (Eric Lenate). A montagem também
recebeu indicações nas categorias melhor espetáculo, melhor direção, melhor
ator (Eric Lenate), melhor trilha sonora (L. P. Daniel) e melhor
iluminação (Aline Sayuri e Eric Lenate). O espetáculo ainda foi indicado
ao Prêmio APCA 2025 de melhor ator (Eric Lenate).
A relevância do texto
Novas Diretrizes em Tempos de Paz expõe
de forma incisiva alguns dilemas provenientes da tentativa de compreensão do
horror. Ao longo do embate entre os personagens vemos refletidas duas
experiências históricas marcadas pela sistemática violação de direitos humanos:
a 2ª Guerra Mundial e o regime autoritário do Estado Novo brasileiro.
A obra propicia uma reflexão sobre as
articulações entre os perversos mecanismos de subjugação do ser humano
utilizados na Segunda Guerra e a experiência histórica dos países periféricos,
neste caso o Brasil, convocando estratégias de rememoração que preservam e
atualizam as agruras e impasses do período.
As nuances “infinitas” em torno da
historiografia do Holocausto valem também, em grande medida, para o contexto de
formação da sociedade brasileira. A delicada aproximação que a obra de Bosco
estabelece entre a guerra na Europa e o regime de Getúlio Vargas confronta o
mito de país pacífico e acolhedor – expresso pela ingenuidade de Clausewitz ao
projetar sobre o Brasil o lugar mítico de sua redenção – sem, com isso,
flexibilizar ou diminuir o sentido extremo da guerra.
Essa tensão é potencializada na medida em que, por um lado, os países latino americanos convivem em sua história com catástrofes de elevada magnitude, cujos efeitos terríveis na história do Ocidente ainda não encontram um “esforço de memória” condizente com sua dimensão.
Ao colocar em cena um torturador
brasileiro e um refugiado da guerra europeu, Bosco desloca para a ótica
brasileira e contemporânea várias questões ligadas à tarefa de lembrar a
barbárie, propiciando uma reflexão sobre os gestos do algoz e da vítima
do fascismo europeu e sua incorporação parcial na estrutura política do
Estado Novo, da dificuldade de representar o horror extremo e
convertê-lo em testemunho dotado de sentido compartilhável, bem como o
papel (im)possível da arte no mundo que emerge da barbárie.
Ficha Técnica
Elenco:
Fernando Billi e Eric Lenate
Texto: Bosco Brasil
Direção Artística: Eric Lenate
Codireção Artística: Vitor Julian
Trilha Sonora Original, Desenho Sonoro e Engenharia de Som: L. P. Daniel
Desenho
de Luz: Aline Sayuri e Eric Lenate
Figurinos:
Jocasta Germano
Visagismo: Leopoldo Pacheco
Arquitetura Cenográfica: Eric Lenate
Assistência de Cenografia: Jorge Luiz Alves
Cenotecnia: Casa Malagueta
Equipe Cenotécnica: Alício Silva, Georgia Massetani, Igor B. Gomes, Danndhara Shoyama, Mizael Costa, João Chiodo, João Carlos, João Victor, Antônio Paulo
Produção e Confecção de Objetos e Adereços: Jorge Luiz Alves e Eric Lenate
Montagem
e Operação de Som: Bernardo de Aragão
Montagem e Operação de Luz: Walace Furtado
Montagem e Operação de Cenário: Jorge Luiz Alves
Assessoria de Imprensa: Helô Cintra e Douglas Pichetti (Pombo Correio)
Fotos de Divulgação: Leekyung Kim e João Maria Silva Junior
Programação Visual: Dante
Redes
Sociais e Supervisão de Comunicação: Vitor Julian
Tráfego Pago: Allysson Domingues – LEP Marketing
Direção de Produção e Administração: Mauricio Inafre
Produção Local: Wagner Pacheco
Assistência de Produção: Regilson Feliciano
Idealização
e Gestão de Projeto: Fernando Billi e Eric Lenate
Produção:
Uma Arte Produções Artísticas
Sinopse
Em 1945, com a 2ª Guerra Mundial chegando ao fim, o imigrante polonês Clausewitz (Eric Lenate), desembarca no porto do Rio de Janeiro, em busca de uma nova vida como agricultor. Ainda no cais, ele é interrogado por Segismundo (Fernando Billi), um oficial da alfândega que desconfia que o estrangeiro seja um nazista tentando entrar no Brasil. Sem um salvo-conduto assinado por Segismundo, Clausewitz será mandado de volta no mesmo cargueiro. No entanto, para liberá-lo, Segismundo propõe um inusitado desafio ao estrangeiro, levando os dois homens a confrontarem suas memórias: de um lado, um ator que perdeu tudo; do outro, um ex-torturador que sempre cumpriu ordens.
Serviço
Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de
Bosco Brasil
Temporada: 30 de abril a 28 de junho de 2026
De quinta a sábado, às 20h, e aos
domingos, às 19h
Teatro Poeira - R. São João Batista, 104 - Botafogo, Rio de Janeiro
Ingressos: R$100 (inteira) e R$50 (meia-entrada)
Bilheteria: de terça a sábado, das 15h às 20h, e aos domingos, das 15h
às 19h
Capacidade: 154 lugares
Classificação:
14 anos
Duração:
80 minutos
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade
reduzida

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