A epilepsia é uma das condições neurológicas mais conhecidas pela população.
Ainda assim, muitos de seus sinais continuam sendo pouco reconhecidos —
inclusive fora do ambiente médico. A associação quase automática entre
epilepsia e convulsões intensas faz com que outras manifestações da doença
passem despercebidas, atrasando o diagnóstico e o início do tratamento.
Do ponto de vista clínico, a doença é caracterizada pela
recorrência de crises epilépticas que não estão relacionadas a fatores agudos,
como intoxicações, febre ou alterações metabólicas. Uma convulsão isolada,
portanto, não significa necessariamente que a pessoa tenha epilepsia, já que
episódios convulsivos podem ocorrer em situações como traumatismo craniano,
infecções ou hipoglicemia, sem que se tornem recorrentes.
O ponto menos compreendido é que nem toda crise epiléptica se
manifesta com movimentos bruscos ou perda de consciência. Dependendo da região
do cérebro envolvida, os sintomas podem ser muito sutis, como episódios breves
de confusão, sensação de déjà vu, formigamento, tontura ou momentos em que a pessoa
parece apenas “desligada”.
Identificar precocemente a epilepsia faz diferença direta na
qualidade de vida dos pacientes. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em
2023 indicam que pelo menos 25% dos pacientes com a condição no Brasil
apresentam formas mais graves da doença. Nesses casos, o uso contínuo de
medicamentos é imprescindível e, em algumas situações, a avaliação para
intervenções cirúrgicas quando as crises não são controladas apenas com
tratamento farmacológico.
Além das questões médicas, viver com epilepsia envolve desafios
sociais importantes. O estigma que historicamente acompanha a doença pode
impactar a vida profissional, afetiva e emocional dos pacientes. A
imprevisibilidade das crises, somada a esses fatores, também contribui para
taxas mais elevadas de ansiedade e depressão entre pessoas com epilepsia.
Sem dúvida, uma das formas mais eficazes de reduzir os impactos
sociais que cercam pacientes e familiares é ampliar o acesso à informação.
Nesse sentido, mobilizações globais cumprem um papel importante. Iniciativas
como o Purple Day, celebrado em 26 de março, ajudam a ampliar o
conhecimento sobre a epilepsia, contribuindo para reduzir o preconceito e
promover mais compreensão sobre essa condição neurológica.
EEG como exame fundamental na investigação
O eletroencefalograma (EEG) é considerado o padrão-ouro na
investigação da epilepsia porque registra a atividade elétrica do cérebro.
Enquanto exames como a ressonância magnética avaliam a estrutura cerebral, o
EEG permite observar o funcionamento do cérebro em tempo real, identificando
padrões elétricos que podem indicar predisposição a crises.
O exame também é fundamental para confirmar se determinados
episódios têm origem epiléptica. Sintomas semelhantes podem ocorrer em outras
condições, como síncopes (desmaios por queda de pressão) ou crises de
ansiedade. Ao identificar padrões específicos de atividade elétrica, o EEG
ajuda o neurologista a diferenciar essas situações e direcionar corretamente o
diagnóstico.
Além disso, o exame contribui para determinar o tipo de epilepsia
— se as crises começam em uma região específica do cérebro (focal) ou se
envolvem os dois hemisférios desde o início (generalizada). Essa informação é
decisiva para escolher o tratamento mais adequado, já que alguns medicamentos
podem funcionar melhor para um tipo de crise do que para outro.
O EEG também tem papel importante na identificação de síndromes
epilépticas, especialmente na infância e na adolescência, e pode detectar
crises não convulsivas, nas quais o paciente apresenta apenas episódios breves
de confusão. Vale destacar que alguns pacientes já diagnosticados podem
apresentar resultados de EEG normais e isso não significa que não tenham
epilepsia.
Elaine Keiko - Diretora Médica e membro do Conselho da
Neurogram, healthtech pioneira em centralizar e processar dados neurológicos
utilizando tecnologia para desvendar padrões cerebrais.
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