Especialista do Hospital Alemão Oswaldo
Cruz explica por que essa discussão deve ser incorporada precocemente ao plano
terapêutico
Receber o diagnóstico de câncer costuma colocar o foco imediato na
urgência do tratamento, no controle da doença e nas chances de cura. Mas, para
pessoas em idade fértil, há uma questão que não deveria ficar em segundo plano:
o impacto da terapia oncológica sobre a fertilidade. Quimioterapia,
radioterapia, hormonioterapia, cirurgias e transplante de medula, a depender do
caso, podem comprometer temporária ou permanentemente a capacidade reprodutiva.
Por isso, a oncofertilidade, área que integra oncologia e medicina reprodutiva,
precisa ser tratada como parte do plano terapêutico, e não como uma conversa
opcional ou tardia1.
O tema ganha relevância em um cenário de alta incidência de câncer.
No Brasil, o INCA (Instituto Nacional do Câncer) estima cerca de 781 mil novos
casos por ano no triênio 2026–2028. Entre os tipos que podem atingir pessoas em
idade reprodutiva, destacam-se, por exemplo, 78.610 novos casos anuais de
câncer de mama, 19.310 de colo do útero, 8.020 de ovário e 3.070 de linfoma de
Hodgkin — este último mais frequente em adolescentes, adultos jovens e idosos2.
Também merece atenção o câncer de testículo que, embora seja considerado raro,
é mais frequentemente diagnosticado em homens entre 15 e 50 anos3.
As diretrizes internacionais são claras. A atualização de 2025 da
ASCO (American Society of Clinical Oncology) recomenda que pessoas com câncer
sejam avaliadas e orientadas sobre riscos reprodutivos já no momento do
diagnóstico e, também, ao longo da sobrevivência. Na mesma linha, a ESMO
(European Society for Medical Oncology) defende que todos os pacientes com
câncer em idade reprodutiva recebam aconselhamento completo em oncofertilidade
o mais cedo possível no planejamento do tratamento. Em outras palavras:
preservar a fertilidade não deve ser visto como um “extra”, mas como uma
dimensão legítima do cuidado integral4,5.
Na prática, isso significa discutir precocemente alternativas como
congelamento de óvulos, embriões ou sêmen, além de outras estratégias indicadas
conforme o tipo de tumor, a idade, o sexo, o tempo disponível até o início da
terapia e as condições clínicas de cada paciente. Nem toda pessoa vai poder
realizar um procedimento de preservação, e nem toda conduta será adequada para
todos os casos. Ainda assim, o ponto central é que essa possibilidade precisa
ser apresentada com clareza, para que a decisão seja consciente e alinhada ao
projeto de vida de cada um1.
Para Pedro Exman, oncologista e coordenador do Grupo de Tumores de
mama e ginecológicos do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão
Oswaldo Cruz, a preservação da fertilidade precisa entrar na conversa desde o
início do tratamento. “Quando falamos em cuidado oncológico de qualidade, não
estamos falando apenas de combater o tumor, mas de olhar a pessoa de forma
completa. Para pacientes em idade fértil, discutir os riscos do tratamento e as
possibilidades de preservação da fertilidade antes do início da terapia é parte
desse cuidado. A oncofertilidade não deve ser vista como algo secundário, mas
como uma dimensão importante da assistência, porque envolve futuro, autonomia e
qualidade de vida”, afirma.
Mais do que um tema técnico, a oncofertilidade também fala sobre
autonomia, qualidade de vida e futuro. Em muitos casos, especialmente entre
jovens adultos, a possibilidade de ter filhos depois do tratamento é uma
preocupação real e importante. Ignorar esse aspecto pode ampliar o sofrimento
emocional em um momento que já é atravessado por medo e incerteza. Por isso,
incluir a oncofertilidade na jornada do paciente é reconhecer que tratar o
câncer também passa por proteger possibilidades de vida após o câncer.
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
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