Pesquisa realizada no Hospital Moinhos de Vento apresenta que estratégias de cuidado devem integrar informação, apoio emocional e ferramentas digitais
Saber sobre saúde não basta para lidar com uma doença crônica.
Pensando nisso, o Hospital Moinhos de Vento coordenou o estudo Health
literacy is much more than knowing about health; it also involves the emotions
experienced during illness, publicado na revista PLOS Digital Health. O
levantamento destacou que, no caso do diabetes tipo 2, compreender informações
médicas é fundamental, mas as emoções vividas durante o tratamento também
influenciam diretamente no controle da doença.
A pesquisa foi conduzida pelo Moinhos de Vento e acompanhou, ao
longo de 12 meses, dez pacientes com diabetes tipo 2 e níveis de glicemia acima
do ideal (HbA1c ≥ 8%). Os participantes responderam a testes sobre literacia em
saúde antes e depois de seis sessões online de educação em autocuidado. Além
disso, participaram de grupos focais mediados por uma equipe assistencial,
composta por enfermeiros e psicólogos, local em que puderam compartilhar suas
dificuldades cotidianas com a doença.
Embora todos apresentassem nível adequado de literacia em saúde,
os encontros mostraram que o maior desafio estava nas dimensões emocionais.
Entre os relatos, apareceram dificuldades em seguir corretamente a medicação,
manter a dieta equilibrada, praticar exercícios e lidar com complicações,
fatores frequentemente agravados por sentimentos de desânimo, frustração e pela
percepção de não serem plenamente ouvidos pelos profissionais de saúde.
As sessões educativas e o suporte multiprofissional foram
apontados pelos pacientes como fundamentais para aumentar a motivação, melhorar
o bem-estar emocional e fortalecer a adesão ao autocuidado. A troca entre pares
também teve efeito positivo, oferecendo acolhimento e incentivo mútuo.
Outro ponto destacado pelo estudo é o papel da saúde digital como
aliada no cuidado. Ferramentas de monitoramento em tempo real da glicemia,
acompanhamento de hábitos diários e feedback personalizado ajudam os pacientes
a compreender como suas escolhas impactam o controle do diabetes e oferecem
novos espaços de expressão, reduzindo o risco de exclusão ou invisibilidade das
suas vivências.
Com base nos achados, os pesquisadores propuseram quatro
recomendações para tornar o cuidado em diabetes mais humano e eficaz, são elas:
avaliar o nível de literacia em saúde como parte da história clínica; promover
a “humildade epistêmica” na prática médica, valorizando crenças e percepções
dos pacientes; oferecer apoio psicossocial e orientação em saúde, com equipes
multiprofissionais; e expandir a pesquisa e a formação em literacia em saúde e
literacia digital.
Para o gerente médico de Saúde Digital do Hospital Moinhos de
Vento, Felipe Cezar Cabral, um dos pesquisadores envolvidos no estudo, o
sucesso no manejo do diabetes depende de reconhecer que o cuidado vai além de
números e prescrições, envolvendo também emoções, vínculos e comunicação. “O
estudo reforça que a alfabetização em saúde vai muito além do conhecimento
técnico, pois envolve também as emoções, os desafios do cotidiano e a forma
como os pacientes se sentem ouvidos”, explica.
O especialista ainda destaca que a escuta ativa de pacientes com
doenças crônicas permite a construção de estratégias mais humanas e eficazes de
cuidado. “Esse levantamento mostra que a saúde digital pode ser um grande
aliado nesse processo, criando espaços de educação, apoio e engajamento que
ampliam a autonomia do paciente e fortalecem a tomada de decisão compartilhada.
Trata-se de um passo essencial para transformar o tratamento de doenças
crônicas em algo mais integrado, sustentável e centrado na pessoa”, completa
Cabral.
De acordo com o chefe de serviço de Endocrinologia e Nutrologia do
Hospital Moinhos de Vento, Guilherme Rollin, o propósito do Serviço é atuar com
excelência na prevenção e tratamento de doenças, integrando assistência, ensino
e pesquisa. “Nossos projetos inovadores, como este estudo que evidencia a
importância de monitorar, também, as emoções e os vínculos durante o tratamento
e de integrar ferramentas digitais ao longo do processo, reforçam nosso
compromisso com uma medicina centrada no paciente, especialmente quando se
trata de uma pessoa com diabetes. Por isso, oferecemos um cuidado integral que
combina expertise técnica e olhar humano para além da saúde física”, finaliza.
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