Opinião
Terminei a releitura do pequeno ensaio do escritor
japonês Junichiro Tanizaki, escrito em 1933, sobre suas impressões a respeito
das novidades tecnológicas que se espalhavam pelo Japão, particularmente a
energia elétrica: a luz elétrica anestesiou-nos, deixou-nos insensíveis aos inconvenientes
gerados por seu uso excessivo. O autor, um dos mais importantes do
século XX, reflete sobre as perdas que a luz feérica das lâmpadas provoca nos
ambientes e muda a forma como realizamos as tarefas do dia a dia. Ele destaca
vários dos momentos do dia a dia, desde o uso do banheiro até a cerimônia do
chá ou o consumo das refeições. Com a predominância do branco e do claro,
muitas das belezas translúcidas da laca dos potes e mesmo da suculência dos
caldos perdiam a beleza que só podia ser percebida e usufruída na penumbra e nas
sombras.
Junichiro não rejeita o progresso como um reclamão
reacionário. Mas aponta para as opções que foram adotadas sem levar em
consideração as perdas estéticas, desde as canetas modernas até a cor das
paredes dos hospitais. “Como seria se essas mudanças tivessem sido pensadas
pelos japoneses e não pelos ocidentais?”, pergunta Tanizaki. Mas
então consola-se. Não há remédio para o progresso. O problema é a memória dos
velhos, que insiste em comparar os tempos e suas novidades.
Penso que, da mesma forma que o escritor japonês,
nós, velhos no século XXI, temos boas razões para lamentar as mudanças dos
tempos, com seus incrementos tecnológicos, particularmente os que eliminam o
contato humano, tão comuns na nossa juventude: a fila do banco, o caixa do supermercado,
a atendente ao telefone, para reclamarmos sobre qualquer coisa. Hoje, e cada
vez mais, temos diante de nós um avatar visual ou sonoro, fingindo ser
simpático e atencioso, quando é, na verdade, apenas um conjunto de dados. De
nada vale os gracejos que aprendemos ao longo da vida, chistes tão sedutores
nas conversas com estranhos, provocando aquele riso que começa amizades e
descontrai qualquer ambiente. Meu pai, com seus 84 anos, ainda tenta fazê-lo
por onde vai, e cada vez mais é recebido com estranheza e mesmo com certa
rispidez, principalmente pelos jovens, desacostumados com essa intrigante forma
de relacionamento humano: o jogar conversa fora.
O jogo de sombras que tanto fascina Tanizaki, por
colocar em relevo o que interessa e deixar de lado o que não precisamos ver,
hoje está praticamente extinto. Nossa sociedade é a da transparência total, da
visibilidade nauseante, na qual nenhum momento de nossa existência é deixada de
fora das redes sociais, em busca dos likes reconfortantes para as vidas sem
sentido. Ao contrário, diz Junichiro: quem insiste em contemplar a feiúra encoberta
expulsa a beleza aparente com a mesma presteza daquele que ilumina o nicho com
uma lâmpada de cem velas.
E foi exatamente o que fizemos. Jogamos luz em
tudo, automatizamos tudo, sob o pretexto de que assim teremos tempo para viver
em todos os lugares, pois tudo está esclarecido e sinalizado. Porém, onde
esconderemos o que não queremos que vejam? Onde guardaremos nossos pensamentos
proibidos, até para nós mesmos? A lógica de que tudo fica mais fácil quando
tudo é mais rápido e acessível esqueceu de que nós, particularmente com o
passar da idade, não queremos rapidez, mas o vagar dos minutos e das horas em
contemplação de belezas conhecidas e aconchegantes, embora elas quase não
existem mais. Eliminar até a sombra das árvores é, no mínimo, cruel, diz
Junichiro em seu ensaio.
Parece que o deserto é o destino das novas
gerações. Um deserto de significados e de experiências, de emoções e de
lembranças. Uma vida como um dia ensolarado que não termina nunca.
Isto é, o horror.
Daniel Medeiros - doutor em Educação Histórica e
professor de Humanidades no Curso Positivo. @profdanielmedeiros
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