Pesquisadores da Universidade
Estadual Paulista (Unesp) comprovaram que o estresse social observado – aquele
presenciado sem envolvimento direto – pode impactar o cérebro e o comportamento
de maneira distinta, dependendo do sexo biológico, da idade e também da
intensidade e do tipo de estresse vivido. A pesquisa, realizada com
camundongos, foi publicada na revista Physiology
& Behavior.
O trabalho, apoiado pela FAPESP, mostrou que
os efeitos do estresse são mais intensos quando ocorrem mais precocemente, em
animais mais jovens. Surpreendentemente, no estudo, as fêmeas adultas
manifestam maior resiliência em comparação aos machos.
“Historicamente, as mulheres
apresentam maior prevalência de ansiedade e depressão no mundo. No entanto, os
estudos científicos sempre priorizaram homens ou animais machos, o que
influenciou os tratamentos e nossa compreensão sobre as doenças. Só mais
recentemente é que esse cenário começou a mudar”, explica Daniela Baptista de Souza,
professora do Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Ciências
Fisiológicas, mantido pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em
parceria com a Unesp, e uma das autoras do estudo. “Com isso, nosso estudo
amplia o entendimento sobre como o estresse atua no cérebro e no comportamento
e pode contribuir para o desenvolvimento de abordagens terapêuticas mais
personalizadas, levando em conta questões como a idade e o sexo biológico dos
afetados.”
No trabalho, os pesquisadores
buscaram mimetizar em laboratório situações comuns de estresse social vividas
por humanos, como bullying, humilhação ou exposição a traumas pela
mídia. Usando testes reconhecidos em experimentação animal, investigaram como
esse tipo de estresse – vivido diretamente ou apenas observado – interfere no
comportamento e na atividade cerebral.
“Regiões como o hipocampo e a
amígdala, responsáveis pela regulação emocional, tendem a ser especialmente
impactadas nessas situações, o que mostra o efeito profundo do estresse sobre a
saúde mental”, explica Ricardo Luiz Nunes de Souza,
professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp que liderou o estudo.
Também contribuíram com o
trabalho Julian Humberto Avalo-Zuluaga, Stephany Viatela
Ramírez, Lucas Canto-de-Souza e Javier Leonardo Rico.
Protocolo
dos testes
Para investigar esses efeitos,
os pesquisadores usaram testes consagrados em neurociência, como o WSDS (Witness
Social Defeat Stress), em que um animal chamado de “testemunha” observa
outro animal, o “intruso”, sendo intimidado por um terceiro, o “agressor”.
Todos os três roedores
permanecem dentro de uma mesma caixa, mas são separados por uma barreira
transparente. A testemunha não é atacada, mas consegue ver, ouvir e sentir o
cheiro da disputa. O intruso passa por momentos de confronto direto com o
agressor e também fica em uma gaiola perfurada dentro do espaço do agressor,
mostrando sinais de submissão. Esse processo dura cerca de 15 minutos e é repetido
por dez dias.
Depois de um mês, os animais
passam por mais uma sessão de estresse e, em seguida são submetidos a testes
para avaliar respostas relacionadas à depressão. O trabalho também contou com
um grupo-controle, em que os animais testemunharam interações pacíficas, sem
agressões.
Além de incluir fêmeas nos
testes, os pesquisadores avaliaram tanto camundongos adultos (60 dias
pós-natal) quanto animais jovens (21 dias pós-natal), que foram reavaliados na
fase adulta.
De acordo com os resultados,
quando os animais mais jovens foram reavaliados alguns dias depois,
apresentaram respostas mais robustas associadas à depressão. Entre os adultos,
machos e fêmeas reagiram de forma distinta: algumas análises mostraram efeitos
só nas fêmeas, outros só nos machos, indicando diferenças comportamentais.
“No cérebro, também houve
variações. As fêmeas apresentaram menor ativação na amígdala e no hipocampo, o
que não ocorreu nos machos. Já nos jovens, as mudanças comportamentais foram
mais intensas e afetaram ambos os sexos, mas sem alterações cerebrais. Isso
significa que o estresse na fase adulta evidenciou diferenças sexuais mais
marcantes do que na juventude”, afirma Daniela Souza à Agência FAPESP.
Por ter sido originalmente
desenvolvido apenas para machos, os pesquisadores precisaram adaptar o
protocolo do teste WSDS para fêmeas, que não exibem comportamentos tão
territorializados como os machos, permitindo que o estresse fosse induzido
apenas pela observação.
A adaptação do protocolo
mostrou que as fêmeas adultas, além de apresentarem alterações comportamentais,
também demonstraram sinais de resiliência ao estresse. “Nas análises
relacionadas ao medo de objetos novos [um dos impactos medidos após o
estresse], elas demonstraram melhora, além de menor ativação em áreas cerebrais
normalmente associadas ao estresse. Esse efeito não foi observado nos machos,
por exemplo”, diz a pesquisadora.
O artigo Witness stress
promotes age and sex-dependent behavioral and neurofunctional alterations in
the amygdaloid complex and dorsal hippocampus in mice pode ser lido
em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0031938425001672.
Maria Fernanda Ziegler
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/efeitos-do-estresse-variam-conforme-idade-e-sexo-mostra-estudo-com-camundongos/56239

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