Problemas como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) e dislexia podem ser confundidos com desinteresse ou “birra” na infância; especialistas alertam para a importância do olhar atento de pais e professores e do diagnóstico precoce
No ambiente escolar, professores e famílias compartilham uma missão essencial: acompanhar de perto o desenvolvimento das crianças. É justamente na sala de aula que muitos dos primeiros sinais de transtornos como o déficit de atenção e a dislexia se tornam evidentes — e podem ser confundidos, em um primeiro momento, com falta de interesse ou até “birra”. A atenção a esses indícios pode fazer toda a diferença para garantir diagnóstico e intervenção precoces.
Segundo o Dr. Gilberto Ferlin, otorrinolaringologista e foniatra do Hospital Paulista, referência em saúde de ouvido, nariz e garganta, é comum que pais e professores interpretem comportamentos como desatenção momentânea ou dificuldade em seguir instruções como simples traços de personalidade. “Crianças que perdem objetos, se distraem facilmente, parecem não ouvir quando chamadas ou apresentam esquecimentos frequentes podem estar apenas em fases típicas do desenvolvimento. Mas, quando esses sinais se repetem em diferentes contextos — em casa, na escola e nas atividades cotidianas — e passam a comprometer o rendimento, é fundamental buscar avaliação especializada”, explica.
Além de causas
neurobiológicas, há outros fatores que podem influenciar o comportamento e o
rendimento escolar das crianças. Alterações no sono, por exemplo, costumam
passar despercebidas, mas têm grande impacto, que podem ser decorrentes de
dificuldades respiratórias provocadas por aumento das amígdalas ou da adenoide,
levando a cansaço, irritabilidade e queda de atenção durante o dia. Da mesma
forma, distúrbios de linguagem — que exigem esforço extra para compreender e se
expressar — podem gerar aparente desinteresse nas aulas. Por isso, destaca o
médico, investigar audição, linguagem e sono é fundamental antes de fechar
qualquer diagnóstico.
Dislexia: sinais que surgem cedo
No caso da dislexia — transtorno específico de aprendizagem relacionado à leitura — os primeiros indícios podem aparecer ainda na pré-escola. Dificuldades para brincar com rimas, formar frases, expandir vocabulário ou acompanhar jogos simbólicos já merecem atenção. “Mesmo em ambientes ricos em estímulos linguísticos, algumas crianças apresentam atraso de fala, fala monótona ou dificuldade para evocar palavras. Essas características podem sinalizar que habilidades fundamentais para a leitura e a escrita não estão sendo estruturadas adequadamente”, observa Ferlin.
O papel do
professor, nesse cenário, é crucial. Por acompanhar diariamente a criança em
situações de fala, leitura e socialização, o educador está em posição
privilegiada para identificar e comunicar à família possíveis dificuldades. A
partir daí, a investigação com fonoaudiólogos, foniatras e outros especialistas
pode ser encaminhada.
Quando procurar ajuda
De acordo com o
especialista, distúrbios auditivos e de linguagem estão frequentemente
associados a dificuldades de aprendizagem, podendo confundir o diagnóstico de
TDAH ou de dislexia. A avaliação com um foniatra é indicada quando a criança
apresenta atrasos de fala, dificuldades persistentes na leitura e escrita, ou
comportamentos de desatenção que se repetem em vários ambientes. “É como
assistir a uma aula em uma língua que não dominamos totalmente: o esforço para
compreender a linguagem consome tanta energia que sobra pouco espaço para
aprender o conteúdo”, exemplifica Ferlin.
Ações que fazem diferença
Uma vez confirmado o diagnóstico, a colaboração entre escola e família é determinante. Estratégias de ensino individualizadas, planos educacionais adaptados (PEI) e recursos multissensoriais podem favorecer alunos com dislexia. Já para aqueles com déficit de atenção, ambientes organizados, divisão de tarefas em blocos menores e métodos de ensino mais dinâmicos tendem a facilitar a aprendizagem.
Em casa,
atividades simples como diálogos, narrativas, brincadeiras que envolvem
linguagem e interações em grupo também contribuem para o desenvolvimento. “Cada
caso é único, mas a chave está em unir esforços: família, escola e
profissionais de saúde devem atuar juntos para que a criança tenha condições de
alcançar seu pleno potencial”, conclui Ferlin.
Hospital Paulista de
Otorrinolaringologia

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