Pesquisar no Blog

sábado, 13 de setembro de 2025

O poder do perdão: como a reconciliação transforma saúde e relações

Reconciliação entre Tatá Werneck, Fiuk e Gkay no Lady Night, reacende pauta que atravessa a psicologia e a vida cotidiana: os impactos de superar conflitos e deixar ressentimentos para trás. 


O último episódio da temporada do Lady Night, exibido na noite desta terça-feira (9), no Multishow, Tatá Werneck surpreendeu ao selar a paz com Fiuk e Gkay em clima de paródia do clássico Casos de Família. “Se te desrespeitei, te peço desculpas”, disse a apresentadora ao cantor, em um dos momentos de reconciliação que marcaram o programa. A cena, conduzida com humor, recoloca em pauta um tema que vai além da TV: os efeitos de superar mágoas para a saúde mental e física.

Segundo a psicóloga Laís Mutuberria, especialista em neurociência do comportamento e saúde mental, o perdão não é um gesto simples de “deixar para lá”. Trata-se de um processo psicológico profundo. “Guardar ressentimentos mantém o corpo em estado constante de alerta, elevando níveis de cortisol, o hormônio do estresse, e comprometendo sono, imunidade e até a saúde do coração. Perdoar não significa esquecer ou aprovar a ofensa, mas libertar-se da dor ligada a ela”, explica.
 

O que é – e o que não é – perdão

Robert D. Enright, professor da Universidade de Wisconsin e cofundador do International Forgiveness Institute, é considerado um dos pioneiros no tema. Em seu livro Forgiveness Is a Choice, ele mostra que o perdão, quando praticado corretamente, beneficia o ofensor, mas sobretudo o ofendido: reduz ansiedade e depressão e fortalece autoestima e esperança.

Enright define o perdão como uma virtude moral: não significa desculpar a injustiça ou abrir mão da busca por reparação, mas optar por não retaliar e enxergar o valor humano do outro, o que abre espaço para empatia e compaixão.

Esse processo não implica reconciliação imediata, nem a necessidade de manter contato com o ofensor. Como lembra Enright, “perdoar é um presente dado diante de um mal moral, sem negar esse mal; já a reconciliação é uma negociação de confiança mútua entre duas partes”.
 

Evidências científicas

Pesquisas conduzidas ao longo de três décadas reforçam que perdoar traz efeitos concretos:

  • Estudos mostraram que casais que se perdoavam registravam redução da pressão arterial. Entre pacientes cardíacos, os mais propensos a perdoar tinham menos ansiedade, depressão e até níveis mais baixos de colesterol.
  • Pesquisas da Duke University observaram que portadores de HIV que perdoaram alguém tiveram aumento das células de defesa.
  • Estudo do Luther College (EUA) identificou que pessoas capazes de perdoar incondicionalmente viviam mais que as que só perdoavam diante de pedidos de desculpas.
  • O perdão reduz raiva, tensão muscular, tristeza e sintomas depressivos, além de melhorar a qualidade do sono.


O olhar clínico

Para Laís Mutuberria, os ganhos se estendem além da saúde física. “Perdoar é uma forma de recuperar autonomia sobre a própria vida. Sem perdão, ficamos presos ao passado e à figura do outro. Com ele, abrimos espaço para novas experiências”, avalia.

Ela reconhece, porém, que o processo é difícil. “Os benefícios sobre o perdão, discutidos neste contexto, estão ligados à possibilidade de se libertar do ressentimento e do sofrimento — um movimento interno que, na maioria das vezes, exige tempo, reflexão e, muitas vezes, acompanhamento terapêutico. A raiva é uma resposta primária de sobrevivência. Sozinhos, ficamos reféns dela; com ajuda, conseguimos ressignificar”.
 

Perdão sem reconciliação

Outro mito é acreditar que só existe perdão se houver reconciliação. Mutuberria destaca que não é preciso nutrir afeto ou retomar relações para perdoar e estar livre do sofrimento. “Se a pessoa deixou de planejar vingança e parou de desejar o mal do outro, se a mágoa do passado não consome mais sua energia mental e emocional, estas são formas de praticar o perdão. É um processo de autoconhecimento que abre caminho para a empatia e a liberdade emocional”, complementa.

Um equívoco comum é pensar que perdoar significa se colocar acima do outro ou agir como se nada tivesse acontecido. Mutuberria explica que o perdão é, antes de tudo, a aceitação da realidade, um processo interno que abre espaço para a liberação do sofrimento. “Não se trata de esquecer, minimizar ou negar os tropeços, os desentendimentos e até as injustiças vividas, mas de reconhecê-los sem permanecer aprisionado à dor que carregam. O perdão não apaga a história, mas nos liberta de seguir presos a ela”, conclui.

Para Mutuberria, o gesto de Tatá Werneck tem simbolismo: “Se figuras públicas conseguem transformar mágoas em abraços diante de milhões, isso nos lembra que a reconciliação é possível nas nossas vidas. O perdão não muda o passado, mas transforma o futuro das nossas relações — e da nossa própria saúde”.
 

Laís Mutuberria – psicóloga, possui mais de uma década de experiência em psicoterapia clínica e supervisão profissional, atendendo adultos e adolescentes no modelo online. Graduada pela UFU, especializou-se em Análise Transacional (Unat Brasil) e Neurociência do Comportamento (PUCRS), além de acumular formações em Psicologia Positiva, Hipnose Ericksoniana, PNL, TCC e Educação Sistêmica. Sua abordagem transteórica e humanizada combina diferentes técnicas para adaptar os tratamentos às necessidades individuais de cada paciente. Além da prática clínica, ministra cursos, palestras e eventos voltados ao bem-estar e à saúde mental.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados