Reconciliação entre Tatá Werneck, Fiuk e Gkay no Lady Night, reacende pauta que atravessa a psicologia e a vida cotidiana: os impactos de superar conflitos e deixar ressentimentos para trás.
O último episódio da temporada do Lady Night,
exibido na noite desta terça-feira (9), no Multishow, Tatá Werneck surpreendeu
ao selar a paz com Fiuk e Gkay em clima de paródia do clássico Casos de
Família. “Se te desrespeitei, te peço desculpas”, disse a apresentadora ao
cantor, em um dos momentos de reconciliação que marcaram o programa. A cena,
conduzida com humor, recoloca em pauta um tema que vai além da TV: os efeitos de
superar mágoas para a saúde mental e física.
Segundo a
psicóloga Laís Mutuberria, especialista em neurociência do comportamento e saúde
mental, o perdão não é um gesto simples de “deixar para lá”. Trata-se de um
processo psicológico profundo. “Guardar ressentimentos mantém o corpo em estado
constante de alerta, elevando níveis de cortisol, o hormônio do estresse, e
comprometendo sono, imunidade e até a saúde do coração. Perdoar não significa
esquecer ou aprovar a ofensa, mas libertar-se da dor ligada a ela”, explica.
O que é – e
o que não é – perdão
Robert D. Enright,
professor da Universidade de Wisconsin e cofundador do International
Forgiveness Institute, é considerado um dos pioneiros no tema. Em seu livro Forgiveness
Is a Choice, ele mostra que o perdão, quando praticado corretamente,
beneficia o ofensor, mas sobretudo o ofendido: reduz ansiedade e depressão e
fortalece autoestima e esperança.
Enright define o
perdão como uma virtude moral: não significa desculpar a injustiça ou abrir mão
da busca por reparação, mas optar por não retaliar e enxergar o valor humano do
outro, o que abre espaço para empatia e compaixão.
Esse processo não
implica reconciliação imediata, nem a necessidade de manter contato com o
ofensor. Como lembra Enright, “perdoar é um presente dado diante de um mal
moral, sem negar esse mal; já a reconciliação é uma negociação de confiança
mútua entre duas partes”.
Evidências
científicas
Pesquisas
conduzidas ao longo de três décadas reforçam que perdoar traz efeitos
concretos:
- Estudos mostraram
que casais que se perdoavam registravam redução da pressão arterial. Entre
pacientes cardíacos, os mais propensos a perdoar tinham menos ansiedade,
depressão e até níveis mais baixos de colesterol.
- Pesquisas da Duke
University observaram que portadores de HIV que perdoaram alguém tiveram
aumento das células de defesa.
- Estudo do Luther
College (EUA) identificou que pessoas capazes de perdoar incondicionalmente
viviam mais que as que só perdoavam diante de pedidos de desculpas.
- O perdão reduz raiva,
tensão muscular, tristeza e sintomas depressivos, além de melhorar a
qualidade do sono.
O olhar
clínico
Para Laís
Mutuberria, os ganhos se estendem além da saúde física. “Perdoar é uma forma de
recuperar autonomia sobre a própria vida. Sem perdão, ficamos presos ao passado
e à figura do outro. Com ele, abrimos espaço para novas experiências”, avalia.
Ela reconhece,
porém, que o processo é difícil. “Os benefícios sobre o perdão, discutidos
neste contexto, estão ligados à possibilidade de se libertar do ressentimento e
do sofrimento — um movimento interno que, na maioria das vezes, exige tempo,
reflexão e, muitas vezes, acompanhamento terapêutico. A raiva é uma resposta
primária de sobrevivência. Sozinhos, ficamos reféns dela; com ajuda,
conseguimos ressignificar”.
Perdão sem
reconciliação
Outro mito é
acreditar que só existe perdão se houver reconciliação. Mutuberria destaca que
não é preciso nutrir afeto ou retomar relações para perdoar e estar livre do
sofrimento. “Se a pessoa deixou de planejar vingança e parou de desejar o mal
do outro, se a mágoa do passado não consome mais sua energia mental e
emocional, estas são formas de praticar o perdão. É um processo de
autoconhecimento que abre caminho para a empatia e a liberdade emocional”,
complementa.
Um equívoco comum
é pensar que perdoar significa se colocar acima do outro ou agir como se nada
tivesse acontecido. Mutuberria explica que o perdão é, antes de tudo, a
aceitação da realidade, um processo interno que abre espaço para a liberação do
sofrimento. “Não se trata de esquecer, minimizar ou negar os tropeços, os
desentendimentos e até as injustiças vividas, mas de reconhecê-los sem
permanecer aprisionado à dor que carregam. O perdão não apaga a história, mas
nos liberta de seguir presos a ela”, conclui.
Para Mutuberria, o
gesto de Tatá Werneck tem simbolismo: “Se figuras públicas conseguem
transformar mágoas em abraços diante de milhões, isso nos lembra que a
reconciliação é possível nas nossas vidas. O perdão não muda o passado, mas
transforma o futuro das nossas relações — e da nossa própria saúde”.

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