Imagine uma sala escura, com a luz da grande tela
iluminando rostos atentos. Agora, substitua o projetor por páginas: os livros
exigidos nos vestibulares da Fuvest e da Unicamp neste ano são verdadeiros
roteiros prontos para ganhar vida no cinema. As Meninas, de Lygia Fagundes Telles,
renderia um drama psicológico com atuações intensas e iluminação
expressionista. Dica de leitura: repare como os diálogos revelam mais do que
dizem — como nos grandes roteiros de filmes cult. Já Balada de Amor ao Vento,
de Paulina Chiziane, poderia se transformar em um épico africano, com trilha
sonora pulsante e personagens que desafiam o patriarcado. Leia com
sensibilidade às vozes femininas — elas são a verdadeira força da narrativa.
A delicadeza de A Visão das Plantas, da portuguesa
Djaimilia Pereira de Almeida, pede uma leitura lenta, quase contemplativa.
Imagine a câmera parada, como numa cena do diretor Stanley Kubrick em 2001: Uma
Odisseia no Espaço, enquanto você mergulha nas memórias do
protagonista. Em contraste, Caminho de Pedras, de Rachel de
Queiroz, tem ritmo seco, direto — leia como quem assiste a um faroeste daqueles
em que cada silêncio é um tiro. Há ainda Memórias de Martha, de Julia Lopes de
Almeida, que se revela como um puro drama de época: note os detalhes sociais e
nos gestos contidos, analisando os cenários e figurinos com o olhar de quem vê
um filme clássico.
Ei, e o que é isso que estou ouvindo ali? Opúsculo
Humanitário, de Nísia Floresta, e Nebulosas, de
Narcisa Amália, são ensaios e poemas que pedem uma leitura com fones de ouvido
— como se fossem trilhas sonoras indie de um curta experimental. Se
puder, leia em voz alta: o som das palavras faz parte da experiência na qual
você vai mergulhar. Já O Cristo Cigano, de Sophia de Mello
Breyner Andresen, é pura imagem poética — leia como quem assiste a um filme
mudo, em que cada metáfora é um plano sem cortes que brilha como a luz do
crepúsculo.
Falando em ouvir, Canção para Ninar Menino
Grande é um romance que sussurra e grita ao mesmo tempo. Denso e
provocador, convida à imersão em sua estrutura polifônica e à forma como,
diferentemente de outras obras de Conceição Evaristo, o foco recai sobre um
homem negro — Fio Jasmim — cuja história é contada por mulheres que, com voz,
desejo e sofrimento, também reescrevem suas próprias vivências.
E o Oscar vai para… a Fuvest, que escolheu só
mulheres para a sua lista. Percebeu? Claro que isso também pode virar questão,
comparando, inclusive, uma obra com a outra. Portanto, olho na tela — ou
melhor: nas páginas e nas autoras!
Na tela da Unicamp, vários sucessos também aguardam
você. Casa Velha é um drama de interiores com a marca de Machado
de Assis: leia com igual atenção o dito e o não dito, como se cada frase
guardasse segredos de bastidores. Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, de
Lima Barreto, poderia facilmente virar um filme político de estética documental
— repare especialmente nos trechos que soam como falas inflamadas de um
personagem lúcido demais para seu tempo. Ailton Krenak, primeiro indígena
eleito para a Academia Brasileira de Letras — detalhe que também pode ser
cobrado na prova —, contribui com A Vida Não é Útil, um verdadeiro
manifesto visual em que tempo e silêncio também são narradores. Leia como quem
participa de uma instalação de arte — não só com os olhos, mas com o corpo
inteiro.
Prosas Seguidas de Odes
Mínimas, de José Paulo Paes, são vinhetas poéticas — leia-as
intercaladas com os outros livros, um texto de cada vez, como se fossem cenas
de um curta-metragem. Já os contos de No Seu Pescoço, da nigeriana Chimamanda
Ngozi Adichie, e de Olhos d’Água, de Conceição Evaristo,
mostram como as autoras dão voz a personagens silenciados pela sociedade. São
obras que pedem leitura com empatia: imagine a câmera colada no rosto dos
personagens, captando cada mínimo detalhe de expressão.
E se você é fã das faixas alternativas, vai curtir Morangos
Mofados, de Caio Fernando Abreu — quase um filme underground.
Leia o fluxo de consciência com cuidado, e observe como Caio mistura realidade
e delírio, muitas vezes sem recorrer à pontuação tradicional. Note como desejo,
medo, solidão e busca por liberdade se entrelaçam nos contos ambientados em um
Brasil bastante repressivo. Você também vai apreciar Alice no
País das Maravilhas, de Lewis Carroll. É montagem pura — leia como
quem vê um filme de Tim Burton, no qual lógica e ordem são editadas com poesia,
tratando de temas como crescimento e identidade, mas com regras do mundo real
viradas de cabeça para baixo.
E para quem prefere as faixas principais, as
canções escolhidas do grande poeta e fundador da escola da Estação
Primeira de Mangueira, Cartola, formam um musical melancólico: leia
ouvindo as músicas, deixando que cada letra projete a cena na sua mente.
Sim, é claro que esses livros são leitura obrigatória para o vestibular. Mas são muito mais do que isso: convites à direção, à atuação, à montagem da imaginação. E, como no bom cinema, o que permanece depois do fim é aquilo que não se explica, mas se sente. Quem lê com profundidade, interpreta com sensibilidade e mergulha nessas narrativas já garantiu o ingresso para a aprovação. Prepare o discurso, porque a próxima cerimônia de premiação pode ter o seu nome na lista.
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