Neurologista do Hospital Japonês Santa Cruz explica
sintomas, diagnóstico e cuidados diante da doença
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Falta de memória no dia a dia, dificuldade na fala ou no raciocínio,
desorientação no tempo e no espaço, além de mudanças no comportamento e no
humor, são sintomas associados à Doença de Alzheimer (DA). Segundo o Relatório
Nacional de Demência no Brasil de 2024, estima-se que, em 2019, 1,85 milhão
de brasileiros viviam nessa condição. As projeções indicam que esse número
poderá triplicar até 2050, alcançando 6,7 milhões de pessoas, um aumento
superior a 200%.
Em
2019, demência foi a quarta causa de morte entre brasileiros acima de 70 anos.
O estudo Carga Global de Doenças identificou DA como a principal causa
(78,3%) dos óbitos relacionados à demência no país. Entre 2010 e 2021, foram
registradas 440.318 mortes ligadas à demência em pessoas com 60 anos ou mais no
Brasil, sendo 344.767 atribuídas à DA (78,3%).
DA
é um transtorno neurodegenerativo progressivo, caracterizado pela perda de
memória e funções cognitivas, além de alterações comportamentais e sintomas
neuropsiquiátricos. O processo ocorre quando alterações da homeostase e do
metabolismo cerebral levam proteínas do sistema nervoso central a se acumularem
de forma inadequada, provocando toxicidade, morte neuronal e comprometimento de
áreas essenciais do cérebro, como o hipocampo, ligado à memória, e o córtex
cerebral, relacionado à linguagem e ao raciocínio.
Um
estudo recente publicado na revista Nature trouxe
uma nova perspectiva ao indicar que o lítio, presente naturalmente no organismo
em doses mínimas, pode exercer papel protetor contra a neurodegeneração. A
pesquisa, conduzida por cientistas da Escola Médica de Harvard, sugere que a
redução dos níveis dessa substância no cérebro estaria relacionada ao
desenvolvimento da DA. Os experimentos, realizados em camundongos e em análises
de tecido humano, mostraram que, quando o lítio se liga às placas de
beta-amiloide, sua função protetora é perdida, acelerando a deterioração
cognitiva.
A
equipe identificou ainda compostos de lítio capazes de escapar dessa captura
pelas placas amiloides. Em testes, o orotato de lítio restaurou a memória em
camundongos e impediu danos às células cerebrais. Embora promissoras, as
descobertas ainda precisam ser confirmadas em humanos, por meio de ensaios
clínicos que avaliem segurança, dose adequada e eficácia.
Para
o neurologista Dr. Flavio Sekeff Sallem, do Hospital Japonês Santa Cruz, a
hipótese é relevante, mas exige cautela. “A deficiência de lítio como origem da
DA é uma ideia que desloca o foco das teorias tradicionais centradas na
proteína beta-amiloide e na proteína tau. Ainda assim, trata-se de uma linha de
investigação inicial, que precisa ser integrada ao conjunto de evidências já
existente”, afirma.
Segundo
ele, estudos em camundongos e em tecidos humanos post-mortem sugerem coerência
biológica, mas ainda não comprovam causalidade em pessoas vivas. “Esses achados
são suficientes para abrir novas frentes de pesquisa, mas não para indicar uso
terapêutico imediato”, complementa.
O
uso clínico do lítio também enfrenta desafios. Em doses farmacológicas, pode
causar efeitos adversos nos rins e na tireoide. Por isso, pesquisadores avaliam
se doses microscópicas, muito inferiores às utilizadas em tratamentos
psiquiátricos, poderiam oferecer efeito protetor com segurança. “A ciência
ainda precisa esclarecer qual seria a dosagem adequada, em que momento da vida
o tratamento faria diferença e para quais perfis de pacientes”, conclui Dr.
Sekeff Sallem.
A doença de Alzheimer
A
causa exata da DA ainda é desconhecida, mas há indícios de que fatores
genéticos tenham papel importante em seu desenvolvimento. Trata-se de uma
enfermidade neurodegenerativa progressiva e irreversível, que costuma evoluir
lentamente ao longo dos anos. A partir do diagnóstico, a sobrevida média varia
entre 8 e 10 anos.
O
primeiro sintoma, e também o mais característico, costuma ser a perda da
memória recente. Com a progressão da doença, surgem quadros mais graves, como
lapsos de memória de fatos antigos, falhas de linguagem, irritabilidade,
dificuldade de orientação no tempo e no espaço, além da perda de autonomia para
atividades cotidianas. Em fases avançadas, podem ocorrer ainda agitação,
insônia, incontinência, dificuldades motoras e de alimentação, até a fase
terminal, quando o paciente geralmente fica restrito ao leito, com severas
limitações de comunicação e maior vulnerabilidade a infecções.
O
diagnóstico é clínico, através de uma história clínica centrada e um exame
neurológico sem evidências de lesões cerebrais focais. O processo do
diagnóstico inclui, ainda, investigação de depressão e exames laboratoriais que
verificam, por exemplo, a função da tireoide e os níveis de vitamina B12 no
sangue. “O diagnóstico precoce é essencial porque permite ao paciente e à
família se prepararem para o tratamento e adaptarem a rotina de forma a
preservar a qualidade de vida pelo maior tempo possível”, explica o
neurologista. Ressonância magnética de crânio, PET cerebral, e líquor com
marcadores de neurodegeneração auxiliam a firmar o diagnóstico com base
clínica.
Ainda
não há forma comprovada de prevenção 100% eficaz para a DA. Entretanto,
evidências médicas apontam que a manutenção de uma vida social ativa, aliada a
bons hábitos de saúde, como alimentação equilibrada, prática de atividades
físicas e estímulos cognitivos constantes, pode ajudar a retardar ou até inibir
a manifestação dos sintomas. “Cuidar da saúde cerebral envolve o corpo como um
todo. Estimular a mente, praticar exercícios e manter vínculos sociais pode
fazer diferença no envelhecimento saudável”, finaliza Dr. Sekeff Sallem.
Hospital Japonês Santa Cruz
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